


O Mistrio do Trem Azul
Agatha Christie

Ttulo original
THE MISTERY OF THE BLUE TRAIN

 Traduo
 FERNANDA PINTO RODRIGUES




 Era quase meia-noite quando atravessou a Praa da Concrdia um homem que, apesar do elegante
casaco de peles que lhe cobria o corpo magro, tinha um no
sei qu de vulnervel e srdido.
 Era um homenzinho de cara de rato, um indivduo que, dir-se-ia, jamais poderia desempenhar papel
importante ou tornar-se proeminente em qualquer esfera.
Contudo, quem chegasse a essa concluso precipitada laboraria em erro, pois este homem de aspecto
insignificante e desprezvel desempenhava papel importante
no destino do mundo: num imprio governado por ratos, era o rei da rataria.
 Naquele momento, por exemplo, aguardavam o seu regresso numa Embaixada, mas primeiro tinha 
assuntos a tratar - assuntos de que a Embaixada no
era, oficialmente, conhecedora. O seu rosto brilhava, branco e astuto, ao luar, que lhe sublinhava a 
levssima curva do nariz. Seu pai fora judeu polaco e oficial
de alfaiate, mas por certo teria gostado de um negcio como o que, naquela noite, ocupava o filho.
 O homenzinho atravessou o Sena e entrou num dos bairros menos respeitveis de Paris, parou diante de 
uma casa alta, em runas, e subiu ao quarto andar.
Mal tivera tempo de bater, uma mulher que evidentemente o esperava abriu a porta e, sem o cumprimentar, 
ajudou-o
a despir o sobretudo e conduziu-o a uma sala mobilada com espalhafato e falta de gosto. Velavam as
lmpadas elctricas quebra-luzes encarnados
e sujos que, embora suavizassem, no disfaravam a
crueza do rosto muito pintado da rapariga nem, to-pouco, as suas feies monglicas. No restavam 
dvidas
quanto  profisso e  nacionalidade de Olga Demiroff.
 - Corre tudo bem, pequenina?
 - Tudo, Boris Ivanovitch.
 O homem acenou com a cabea e murmurou:
 - No creio que me tenham seguido... - No entanto, o tom da sua voz denunciava ansiedade.
 Aproximou-se da janela, afastou um pouco a cortina e espreitou, cuidadosamente.
 - Esto dois homens no passeio, ali defronte! - exclamou, recuando cheio de pressa. - Parece-me...
calou-se e comeou a roer as unhas, hbito que tinha quando estava preocupado.
 A rapariga russa abanou a cabea, num movimento lento e tranquilizador, e afirmou:
 - J a estavam antes de chegares.
 - Mesmo assim, parece que esto a vigiar esta casa...
 - Possivelmente - admitiu, com indiferena.
 - Mas ento...
 - Que tem isso? Mesmo que saibam, no ser a ti que seguiro, quando sares.
 - No - concordou, com um sorrizinho cruel -,
l isso  verdade. - Reflectiu, por momentos, e depois comentou: - O maldito americano deve saber 
defender-se.
 - Creio que sim.
 - Tipos duros - murmurou o homem, com uma pequena gargalhada, acercando-se de novo da janela.
- Conhecidos da Polcia, suponho... Enfim, desejo boa caada aos amigos bandidos.
 - Se o americano  o tipo de homem que dizem, sero precisos mais do que dois reles celerados para lhe 
levarem a melhor - observou a rapariga. - Pergunto a mim mesma...
 - O qu?
 - Nada. Esta noite passou duas vezes por aqui um homem... um homem de cabelo branco...
 - Que tem isso?
 - Ao passar por aqueles dois, deixou cair uma luva, um deles
apanhou-a e devolveu-lha. Estratagema evidentssimo.
 - Queres dizer que o tal indivduo de cabelo branco  o patro deles?
 - Mais ou menos...
 O russo pareceu alarmado e inquieto.
 - Tens a certeza de que o pacote est seguro? No lhe mexeram? Tem havido muita conversa... 
demasiada conversa... - calou-se e recomeou a roer as
unhas.
 - V com os teus olhos.
 A rapariga ajoelhou-se defronte da lareira e afastou desembaraadamente os carves. Do meio dos jornais 
amarrotados que se encontravam sob eles retirou um
embrulhinho rectangular, envolto em jornal sujo, e estendeu-o ao homem.
 - Engenhoso - aprovou aquele, com um aceno de cabea.
 - O apartamento foi revistado duas vezes e o colcho da minha cama rasgado.
 - Tem havido muita conversa - repetiu o homem.
- Foi um erro regatear o preo como regatearam.
 Nervosamente, retirou o jornal, o papel castanho que se encontrava a seguir e verificou o contedo do 
embrulhinho. Embrulhou tudo de novo, apressadamente, e mal acabara a campainha tocou.
 - O americano  pontual - observou Olga, olhando para o relgio.
 Saiu da sala e voltou um minuto depois com um homem corpulento e de ombros largos, cuja origem 
transatlntica era evidente. O olhar vivo do desconhecido
passou de um para o outro dos russos.
 - Monsieur Krassnine? - perguntou, delicadamente.
 - Sou eu - respondeu Boris. - Peo-lhe desculpa da... da impropriedade deste local de encontro, mas 
impunha-se o mximo segredo. No posso arriscar-me a que o meu nome seja por qualquer forma 
relacionado com este assunto.
 - Sim? - murmurou o americano, no mesmo tom delicado.
 - D-me a sua palavra, no  verdade, de que os pormenores desta transaco no sero tornados 
pblicos? Foi uma das condies de... venda.
 - Isso j estava combinado - redarguiu o outro, indiferente. - Agora talvez queira fazer o favor de mostrar-me 
a mercadoria.
 - Trouxe o dinheiro, em notas?
 - Trouxe.
 No entanto, no esboou a mais pequena inteno de o mostrar. Aps um momento de hesitao, 
Krassnine apontou
o embrulhinho que se encontrava em cima da mesa.
 O americano desembrulhou-o e levou o contedo para junto de uma pequena lmpada elctrica, onde o 
submeteu a minucioso exame. Tranquilizado, tirou ento a carteira volumosa, da qual extraiu um mao de 
notas. Estendeu-as ao russo, que as contou cuidadosamente.
 - Est bem?
 - Muito obrigado, monsieur. Est certo.
 O americano meteu descuidadamente o embrulho na algibeira e inclinou a cabea a Olga:
 - Boas noites, mademoiselle. Boas noites, Monsieur
Krassnine. - Saiu e fechou a porta.
 Os outros dois entreolharam-se e o homem passou a lngua pelos lbios ressequidos.
 - Conseguir chegar ao hotel? - murmurou.
 Voltaram-se ambos para a janela, instintivamente, a tempo de verem o americano chegar  rua. Virou  
esquerda e afastou-se com passo firme, sem olhar para

trs uma nica vez. Duas sombras surgiram de um
portal, seguiram-no silenciosamente e perseguido e perseguidores perderam-se na noite.
 - Chegar ao hotel sem novidade - afirmou Olga Demiroff. - No tens motivos para receios... ou 
esperanas.
 - Porque dizes que chegar so e salvo? - perguntou Krassnine, curioso.
 - Um homem que reuniu uma fortuna to grande como a dele no  com certeza idiota - afirmou Olga.
- Por falar em dinheiro... - interrompeu-se e olhou, significativamente, para Krassnine.
 - Que queres?
 - A minha parte, Boris Ivanovitch.
 Com certa relutncia, Krassnine estendeu-lhe duas notas. A rapariga acenou com a cabea, num 
agradecimento absolutamente desprovido de emoo, e guardou-as na
meia.
 - Sabe bem - comentou, satisfeita.
 - No tens pena, Olga Vassilovna? - perguntou-lhe o homem, curioso.
 - Pena de qu?
 - Do que esteve em teu poder e j no est. Muitas mulheres perderiam a cabea por tais coisas.
 - Tens razo, muitas mulheres sofrem dessa loucura murmurou, pensativa. - Mas eu no... Pergunto a mim 
mesma... Calou-se e deixou a frase em suspenso.
 - Perguntas a ti mesma o qu?
 - O americano chegar com elas, sem perigo, tenho a certeza disso. Mas depois?
 - Em que ests a pensar, hem?
 - Vai d-las a uma mulher, sem dvida - murmurou Olga, pensativa. - Que acontecer ento?
 Encolheu os ombros, impaciente, e aproximou-se da janela. De sbito, soltou uma exclamao abafada e 
chamou o companheiro.
 - Olha, o homem a que me referi vai agora a descer a rua.
 De facto, um vulto esguio e elegante passava naquele momento defronte da janela, em baixo, com um 
andar despreocupado. Usava chapu alto e capa e, ao
passar por um candeeiro, a luz iluminou-lhe uma madeixa de bastos cabelos brancos.



II

O SENHOR MARQUS


 O homem de cabelo branco continuou o seu caminho, sem pressa
e aparentemente indiferente ao que o rodeava. Cortou para uma transversal  direita, depois para outra  
esquerda, e de vez em quando assobiava
baixinho.
 De sbito estacou, de ouvido atento. Ouvira um
certo som que podia ter sido provocado por uma cmara-de-ar
que rebentasse ou por... um tiro. Os lbios
entreabriram-se-lhe num sorriso e reatou o passeio
despreocupado.
 Ao contornar uma esquina deparou-se-lhe uma cena de relativa
actividade a hora to tardia. Um agente
da autoridade garatujava num livrinho de apontamentos, rodeado
por dois ou trs transeuntes. Foi a um
destes que o homem de cabelo branco perguntou, delicadamente:
 - Aconteceu alguma coisa?
 - Mais oui, Monsieur. Dois bandidos atacaram um
cavalheiro americano idoso.
 - Causaram-lhe algum dano?
 - Oh, no! - exclamou o homem a rir. - O americano trazia um
revlver na algibeira e disparou to 
tangente que os celerados tiveram medo e fugiram.
A Polcia, como de costume, chegou demasiado tarde.

 - Ah! - limitou-se a murmurar o homem de cabelo branco, sem manifestar a mnima emoo.
 Plcida e despreocupadamente, reatou o passeio
nocturno, atravessou o Sena e chegou aos bairros mais
ricos da cidade. Cerca de vinte minutos depois parou a
uma porta, numa rua tranquila, mas aristocrtica.
 A loja, pois que de loja se tratava, tinha aspecto
simples e despretensioso. M. Papopolous, negociante
de antiguidades, era to famoso que no precisava de
anncios, tanto mais que a maioria dos seus negcios
no era feita ao balco. M. Papopolous tinha um belo
apartamento sobranceiro aos Campos Elseos e seria de
crer que l se encontrasse, e no no seu estabelecimento,
quela hora tardia, mas o homem de cabelo branco
parecia confiante ao premir o boto da campainha
pouco em evidncia, depois de olhar rapidamente para
ambos os lados da rua deserta.
 A sua confiana justificou-se, pois a porta abriu-se
e no limiar surgiu um homem com argolas de ouro nas
orelhas e tom de pele muito moreno.
 - Boas noites - disse o desconhecido. - O seu
patro est?
 - O patro est, mas no costuma receber visitantes
ocasionais a esta hora.
 - Estou convencido de que me receber a mim.
Diga-lhe que o seu amigo, o senhor marqus, deseja
v-lo.
 O homem abriu um pouco mais a porta e deixou o
visitante entrar. Este ocultara parcialmente o rosto
com a mo, enquanto falava, e quando o criado voltou
com a informao de que M. Papopolous teria prazer
em receb-lo, verificou que uma pequena mscara de
cetim preto lhe ocultava as feies. O criado devia ser
muito pouco observador ou estar muito bem treinado,
pois no traiu a mnima surpresa perante a inslita
aparncia do desconhecido. Conduziu-o a uma porta
ao fundo do vestbulo, abriu-a e anunciou, num murmrio
respeitoso.
 - O senhor marqus.
 O homem que se levantou para receber o estranho
visitante tinha uma figura imponente, um no sei qu
venervel e patriarcal, o carcter com a testa alta e
abaulada, com a bonita barba branca e com as suas
maneiras benignas e clericais.
 - Meu caro amigo - saudou M. Papopolous, em
francs, em voz rica e untuosa.
 - Peo desculpa de vir to tarde...
 - Por quem , meu caro! , at, uma hora muito
interessante. Teve, suponho, uma noite tambm interessante?
 - Pessoalmente, no.
 - Pessoalmente, no - repetiu M. Papopolous.
- Claro, claro que no... Mas traz-me notcias,
hem? - e lanou-lhe um olhar de soslaio, que nada tinha de
clerical nem de benigno.
 - No, no trago. A tentativa falhou como, alis,
eu j esperava.
 - Evidentemente - murmurou o grego. - Uma
tentativa rude...
 Fez um gesto com a mo, exprimindo o seu intenso desagrado
por todas as formas de rudeza. De facto,
nada havia de rude em M. Papopolous nem nas mercadorias que
vendia. Era muito conhecido na maior
parte das cortes europeias e os reis tratavam-no amigavelmente
por Demetrius. Tinha reputao de ser discretssimo, virtude
que, aliada ao seu aspecto nobre,
lhe permitira sair inclume de vrias transaces duvidosas.
 - O ataque directo s vezes resulta, mas raramente sentenciou, abanando a cabea.
 - Poupa tempo - redarguiu o outro, com um encolher de ombros
- e o insucesso no custa nada... ou
quase nada. O outro plano no falhar.
 M. Papopolous olhou-o atentamente e o outro acenou com a
cabea, devagar.
 - Tenho grande confiana na sua... enfim, na sua
reputao - declarou o negociante de antiguidades.

 - Creio poder afirmar que a sua confiana no ser trada murmurou o senhor marqus, com um
sorriso suave.
 - Tem oportunidades nicas - lembrou o grego,
com um tom de inveja na voz.
 - Arranjo-as. - Levantou-se, pegou na capa que
atirara descuidadamente para as costas de uma cadeira
e avisou: - Mant-lo-ei informado, Monsieur Papopolous,
atravs das vias habituais, mas no deve haver
complicaes nos seus planos.
 - Nunca h complicaes nos meus planos!volveu M. Papopolous, indignado.
 O outro sorriu e, sem uma palavra de despedida,
saiu da sala e fechou a porta.
 M. Papopolous ficou pensativo, a afagar a venervel barba
branca, e depois dirigiu-se a uma segunda
porta, que abria para dentro. Ao girar o puxador, uma
rapariga que, tudo o indicava, estivera com o ouvido
colado  fechadura entrou de cambulhada no aposento. M.
Papopolous no denunciou surpresa nem preocupao; devia estar
habituado.
 - Ento, Zia?
 - No o ouvi partir...
 Era uma mulher nova e perfeita, de linhas junescas, senhora de coruscantes olhos negros e to grande
ar de semelhana geral com M. Papopolous que era fcil ver
serem pai e filha.
 - Irrita - continuou, aborrecida - no ser possvel ver e
ouvir ao mesmo tempo, atravs de um buraco
de fechadura.
 - J me aconteceu muitas vezes pensar o mesmoredarguiu M. Papopolous, com grande simplicidade.
 - Era aquele, ento, o senhor marqus! - murmurou Zia,
devagar. - Usa sempre mscara, pai?
 - Sempre.
 Pausa.
 - Trata-se dos rubis, suponho? - inquiriu Zia.
 O pai acenou afirmativamente e perguntou-lhe,
 com um brilho de ironia nos olhos pretos:
 - Qual  a tua opinio, minha pequena?
 - Do senhor marqus?
 - Sim.
 - Acho que  muito raro encontrar-se um ingls
educado que fale to bem francs - replicou, devagar.
 -  essa, ento, a tua opinio! - M. Papopolous
no se comprometeu, como de costume, mas olhou a
filha com ar de benigna aprovao.
 - Pareceu-me, tambm, que a sua cabea tinha
uma forma esquisita - prosseguiu Zia.
 - Macia - concordou o pai -, um bocadinho
macia. Mas, claro, uma cabeleira postia produz sempre esse efeito.
 Entreolharam-se e sorriram.



III

CORAO DE FOGO


 Rufus Van Aldin transps as portas giratrias do Savoy e encaminhou-se para a recepo, onde foi 
recebido com um sorriso e um cumprimento respeitoso
pelo empregado.
 - Muito prazer em v-lo por c de novo, Mister Van Aldin.
 O milionrio americano correspondeu com um aceno casual e
inquiriu:
 - Tudo bem?
 - Sim, senhor. O major Knighton encontra-se j
na suite.
 - Algum correio? - perguntou o americano, com
novo aceno de cabea.
 - J mandaram tudo para cima, Mister Van AIdin... Ah, um momento! - Meteu a mo num cacifo
e retirou uma carta: - Chegou mesmo agora.

 Rufus Van Aldin aceitou a carta, mas ao ver a caligrafia feminina e harmoniosa - o rosto transformou-se-
lhe. Os
contornos speros adoaram-se, a expresso firme da boca suavizou-se, pareceu um
homem diferente. Dirigiu-se para o elevador com a
carta na mo e um sorriso nos lbios.
 Na sala de estar da sua suite um jovem escolhia
correspondncia, sentado  secretria, com a rapidez e
a segurana de quem tem longa prtica. Levantou-se
quando Van Aldin entrou.
 - Viva, Knighton!
 - Prazer em t-lo de volta, senhor. Divertiu-se?
 - Assim-assim - respondeu-lhe o milionrio,
sem entusiasmo. - Hoje em dia, Paris  uma cidade
insignificante. No entanto, obtive o que fui buscare sorriu para consigo, frouxamente.
 - Como sempre, creio - comentou o secretrio
 risonho.
 - Exactamente. - Falava em tom casual, como
 quem se limita a apontar um facto evidente. - Alguma coisa
urgente? - perguntou, despindo o grosso sobretudo e
aproximando-se da secretria.
 - No creio, senhor. O normal, mais ou menos,
 embora ainda no tenha acabado a classificao.
 Van Aldin esboou um breve aceno de cabea. Era
 um homem que raramente exprimia censuras ou elogios, que
usava um mtodo simples para com aqueles
 que empregava: proporcionava-lhes um perodo razovel de
experincia e despedia sem hesitar os ineficientes. No
obedecia, tambm, a nenhum sistema especial para contratar os
seus empregados. Knighton, por
 exemplo, conhecera-o dois meses antes, numa estncia
 de repouso da Sua. Simpatizara com ele, investigara
 as suas referncias e encontrara explicao para o facto
 de o indivduo coxear um pouco. Knighton no ocultara que
procurava emprego e perguntara at ao milionrio, timidamente,
se no tinha conhecimento de nenhum lugar vago. Van Aldin
lembrou-se, com um breve sorriso, do ar de completo espanto do
rapaz quando lhe oferecera o lugar de seu secretrio pessoal.
 - Mas.. mas no tenho experincia nenhuma de
negcios! - gaguejara.
 - Isso no tem importncia - afirmara o milionrio. - Para
tratar de negcios tenho j trs secretrios. Provavelmente
passarei os prximos seis meses
em Inglaterra e preciso de um ingls que... enfim, que
saiba manejar os cordelinhos e encarregar-se, em meu
nome, do captulo social.
 At agora, Van Aldin no tinha motivos para se arrepender da
sua deciso; Knighton mostrava-se activo,
inteligente e cheio de recursos, alm de possuir uma
agradvel distino de maneiras.
 O secretrio apontou trs cartas e sugeriu:
 - Talvez fosse melhor dar uma vista de olhos por
essas cartas, senhor. A primeira refere-se ao acordo
Colton...
 Mas Van Aldin levantou a mo, num protesto:
 - Esta noite no tratarei de nada; podem esperar
at amanh de manh. Esta  que no... - Indicou a
carta que trouxera da recepo e a estranha transformao
voltou a verificar-se.
 Richard Knighton sorriu, compreensivo, e murmurou:
 -  de Mistress Kettering? Telefonou ontem e hoje; parece ter muita urgncia em v-lo.
 - Sim?
 O sorriso apagou-se do rosto do milionrio, que rasgou o sobrescrito e retirou a carta. A expresso 
endureceu-se-lhe,  medida que lia, e a boca readquiriu a
severidade e a firmeza que a Wall Street to bem conhecia.
Richard voltou-se, sensato, e recomeou a
abrir e a classificar a correspondncia.
 - No tolerarei uma coisa destas! - explodiu o
milionrio, dando um murro na mesa e soltando uma
praga. - Pobre rapariga. Felizmente pode contar com
o velho pai!

 Comeou a andar de um lado para o outro, de sobrancelhas
franzidas numa carranca de irritao.
Knighton continuava s voltas com o correio, com um
ar muito compenetrado. De sbito, Van Aldin interrompeu o
passeio e pegou no sobretudo que atirara para as costas de uma
cadeira.
 - Vai sair outra vez, senhor?
 - Vou ver a minha filha.
 - Se os Coltons telefonarem...
 - Diga-lhes que vo para o diabo!
 - Muito bem - redarguiu Knighton, sem se perturbar.
 Van Aldin vestiu o sobretudo, ps o chapu na cabea e, j com a mo na maaneta da porta, voltou-se e 
disse:
 - Voc  bom tipo, Knighton; no me maa quando estou irritado.
 Knighton esboou um leve sorriso, mas no respondeu.
 - Ruth  a minha nica filha e ningum neste mundo avalia o que ela significa para mim! - Sorriu
enternecido, meteu a mo na algibeira e perguntou:
- Quer ver uma coisa, Knighton?
 Voltou para junto do secretrio e tirou da algibeira
um embrulho tosco, de papel castanho. Retirou o papel e
revelou uma caixa grande, de veludo encarnado,
no centro da qual se viam umas iniciais entrelaadas,
sob uma coroa. Abriu-a e o secretrio susteve bruscamente a
respirao: sobre o branco levemente sujo do
interior as pedras brilhavam como sangue.
 - Meu Deus! - exclamou Knighton, incrdulo.
- So... so verdadeiras?
 Van Aldin soltou uma pequena gargalhada e comentou:
 - No me surpreende a sua pergunta. Entre estes
rubis encontram-se os trs maiores do mundo. Catarina da
Rssia usou-os, Knighton! Esse do meio  conhecido por
"Corao de Fogo".  perfeito, no tem uma falha!
 - Mas devem valer uma fortuna! - gaguejou o
secretrio.
 - Quatrocentos ou quinhentos mil dlares - elucidou o
milionrio, despreocupadamente -, no contando com o valor
histrico.
 - E o senhor anda com eles assim, na algibeira?
 - Ento? - ripostou, com um sorriso divertido.
- So uma prendazinha para a Ruthie...
 O secretrio sorriu, discreto, e murmurou:
 - Agora compreendo a ansiedade de Mistress
Kettering, quando telefonou!
 Mas Van Aldin abanou a cabea e as feies vincaram-se-lhe
novamente.
 - Engana-se. Ela no sabe; trata-se de uma surpresa. Fechou o estojo e comeou a embrulh-lo.
-  duro verificar o pouco que podemos fazer por
aqueles que amamos, Knighton - murmurou. - Podia comprar um
bom naco da Terra para a minha
Ruth, se lhe fosse de alguma utilidade; mas no . Poderei
pendurar-lhe estas pedras ao pescoo e proporcionar-lhe um
momento ou dois de prazer, mas...Abanou a cabea e
acrescentou: - Quando uma mulher no  feliz no seu lar...
 No concluiu a frase e o secretrio acenou, discretamente.
Por de mais conhecia a reputao do Honorvel Derek Kettering!
Van Aldin suspirou, meteu o
embrulho na algibeira e saiu da sala.



IV

NA CURZON STREET


 A Honorvel Mrs. Derek Kettering morava na
Curzon Street. O mordomo que abriu a porta reconheceu Rufus
Van Aldin, permitiu-se um discreto sorriso de

boas-vindas e conduziu-o ao primeiro andar,  grande
sala dupla.
 Sentada junto da janela encontrava-se uma mulher,
que estremeceu e soltou uma exclamao de contentamento.
 - Oh, paizinho, que surpresa agradvel! Passei o
dia a telefonar ao major Knighton, para ver se o encontrava,
mas ele no sabia ao certo quando regressava.
 Ruth Kettering tinha vinte e oito anos e, sem ser
 bela, nem to-pouco bonita, no verdadeiro sentido da
 palavra, impressionava pela cor dos cabelos. Em novo,
 Van Aldin tivera a alcunha de Cenoura e Ruivo, e o ca belo
da filha era quase ruivo puro. Tinha olhos escuros e pestanas
muito pretas - cujo efeito o artifcio
 da pintura ainda acentuava mais... -, era alta e esguia e sabia andar.  primeira vista, o seu rosto parecia o 
de uma madona de Rafael, mas uma observao mais atenta revelava uma linha de queixo idntica  de 
Van Aldin, denunciadora da mesma inflexibilidade e determinao - virtudes que ficavam bem num homem,
 mas se coadunavam pouco com uma mulher. Desde
t criana que Ruth Van Aldin se habituara a satisfazer a
 sua vontade, e quem quer que tenha tentado opor-se -lhe
depressa compreendeu que a filha de Rufus Van
 Aldin nunca cedia.
 - Knighton disse-me que telefonaras, mas s regressei de
Paris h meia hora. Que histria vem a ser
 essa acerca do Derek?
 -  inacreditvel, ultrapassa todos os limites!avio 
exclamou Ruth Kettering, corando de irritao. - No
, d ouvidos a nada do que lhe digo.
 - Dar ao que eu lhe disser! - afirmou o milionrio, em tom
ameaador.
 - H um ms que quase no o vejo - prosseguiu
 Ruth. - Anda por toda a parte com aquela mulher...
 - Com qual mulher?
 - Mirelle, a que dana no Parthenon.
 Van Aldin acenou, silencioso.
 - A semana passada estive em Leconbury e falei
com Lorde Leconbury. Foi muito amvel, compreendeu-me
perfeitamente e prometeu que falaria tambm
com Derek.
 - Ah! - exclamou Van Aldin.
 - Que quer dizer com esse cah!, paizinho?
 - Que hei-de querer dizer, Ruthie? O pobre Leconbury est
velho, querida. Claro que te compreendeu e tentou
tranquilizar-te;  natural que, tendo casado o filho com a
filha de um dos homens mais ricos
dos Estados Unidos, no queira estragar tudo. Mas toda a gente
sabe que est com os ps para a cova e o
que porventura disser ao filho no surtir efeito.
 - E o pai, pode fazer alguma coisa? - perguntou
Ruth, ansiosa, passados momentos.
 - Talvez... - Franziu a testa, num esforo de reflexo, e
prosseguiu: - Podia fazer vrias coisas, mas
s uma dar resultado. Ters coragem, Ruthie? -- A rapariga
fitou-o, calada, e Van Aldin continuou:
- Quero dizer, sers capaz de admitir perante todos
que cometeste um erro? E que s h uma maneira de
sair desta complicao, Ruthie: liquidar o assunto e
comear de novo?
 - Quer dizer...
 - Divrcio.
 - Divrcio!
 - Dizes essa palavra como se nunca a tivesses ouvido, Ruth comentou Van Aldin, com um sorriso
triste. - No entanto, as tuas amigas divorciam-se como quem
bebe um copo de gua!
 - Bem sei, mas...
 Calou-se, mordeu os lbios e o pai meneou a cabea,
compreensivo.
 - Compreendo, Ruth; s como eu, no suportas a
ideia de dar o brao a torcer. Mas eu aprendi, e tu ters de
aprender tambm, que s vezes  essa a nica
soluo. Encontraria, possivelmente, maneira de obrigar Derek
a voltar para ti, mas o resultado acabaria
por ser o mesmo. Ele no presta, Ruth;  podre, ruim
at  medula. No devia ter consentido que casasses
com ele, mas tu estavas decidida e ele parecia sincero
no desejo de comear vida nova... Alm disso... enfim, j te
contrariara uma vez, querida...

 No a olhou ao dizer as ltimas palavras, mas se
olhasse t-la-ia visto corar intensamente.
 -  verdade - murmurou Ruth, em voz dura.
 - Fui demasiado piegas e no tive coragem de me
opor segunda vez, mas no podes imaginar quanto
me arrependo. Tens levado uma triste vida nos ltimos anos,
Ruth.
 - No tem sido muito... agradvel - concordou
Mrs. Kettering.
 -  por isso que temos de pr cobro a esta situao!

- exclamou, dando um murro na mesa. -  possvel
que ainda tenhas um fraco pelo indivduo, mas vence-o e encara
a realidade: Derek Kettering casou contigo
por dinheiro, mais nada. Livra-te dele, Ruth.

 Ruth olhou para o cho, por momentos, e depois
perguntou, sem levantar a cabea?
 - E se ele no consentir?
 Van Aldin fitou-a, surpreendido:
 - Mas ele no tem que consentir nem que deixar
de consentir!
 - No... claro que no. - Corou, mordeu os lbios e
gaguejou: - S queria dizer...
 - S querias dizer o qu? - perguntou Van Aldin, ao ver que
a filha se calava.
 - Queria dizer... - fez nova pausa e escolheu
cuidadosamente as palavras. - Enfim, talvez ele no
se resigne...
 - O qu, receias que conteste o divrcio? - inquiriu o
milionrio, erguendo provocantemente o
queixo. - Pois que conteste! Mas enganas-te, filha,
no contestar. Qualquer advogado que consultar lhe
dir que no tem base nenhuma...
 - No acha... - hesitou, indecisa. - Enfim, no
acha que, por simples despeito contra mim, tente...
tente complicar as coisas?
 Van Aldin olhou-a, com certa surpresa.
 - Receias que conteste o divrcio? - repetiu. --  pouco provvel. Compreendes, precisaria de ter
qualquer coisa em que se basear.
 Mrs. Kettering no fez comentrios e Van Aldin
olhou-a, de sbito, vivamente.
 - Desabafa, Ruth! H qualquer coisa que te perturba. Que ?
 - Nada, no h nada... - afirmou, embora a sua
voz no convencesse.
 - Receias a publicidade?  isso? Deixa o caso comigo.
Tratarei de tudo de tal maneira que ningum
dar por nada.
 - Est bem, paizinho. Se pensa, de facto, que  a
melhor soluo...
 - Ainda tens um fraco por ele, Ruth?  isso?
 - No.
 A negativa foi pronunciada sem a mnima hesitao
e Van Aldin pareceu satisfeito. Bateu no ombro da filha e
murmurou:
 - Correr tudo bem, pequena, no te preocupes.
Mas esqueamos esse desagradvel assunto, pois trouxe-te um
presente de Paris.
 - Um presente? Uma coisa muito bonita?
 - Espero que seja essa a tua opinio - replicou
Van Aldin, a sorrir.
 Tirou o embrulho da algibeira e estendeu-lho.
Ruth desembrulhou-o, abriu a caixa e soltou um
longo Oh!. Ruth Kettering amava as jias, sempre
as amara.
 - Oh, paizinho, que maravilhoso!
 - Tm classe, no tm? - perguntou o milionrio, satisfeito.
- Gostas?
 - Se gosto? So nicas, pai! Como conseguiu adquiri-las?

 - Isso  o meu segredo! - retorquiu o milionrio,
a sorrir. - Tiveram de ser compradas particularmente, claro,
pois so muito conhecidas. Vs essa pedra
grande, do meio? Talvez tenhas ouvido falar dela;  o
histrico Corao de Fogo.
 - Corao de Fogov! - repetiu Mrs. Kettering.
 Tirara as gemas da caixa e apertava-as contra o peito, sob o
olhar atento do pai. Van Aldin pensava na srie de mulheres
que tinham usado aquelas jias, nas inquietaes, nos desesperos, nas invejas. Corao de
Fogo, como todas as pedras famosas, deixara atrs de si um rasto de tragdia e violncia, mas preso na 
mo firme de Ruth Kettering parecia perder o poder diablico. A
atitude fria e equnime daquela mulher do mundo ocidental dir-se-ia uma negao da tragdia e da dor. 
Ruth guardou as jias na caixa e abraou o pai.
 - Obrigada, obrigada, obrigada! So maravilhosas! Est
sempre a oferecer-me prendas extraordinrias.
 - s tudo quanto eu tenho, Ruth - murmurou o
milionrio, dando-lhe uma palmadinha no ombro.
 - Fica para jantar, no fica, paizinho?
 - No me parece... Ias sair...
 - Posso esquivar-me sem dificuldade; no era na da
especial.
 - No, filha, respeita o compromisso. Esta noite
tenho muito que fazer, como deves calcular, e ver-nos-emos
amanh. Telefonar-te-ei e talvez nos encontremos nos
Galbraiths.
 Messrs. Galbraith, Galbraith, Cuthbertson & Galbraith eram
os advogados de Van Aldin em Londres.
 - Est bem, fica combinado. - Ruth hesitou e
inquiriu, em voz mal segura: - Suponho que... isto
no me impedir de partir para a Riviera?
 - Quando partes?
 - No dia catorze.
 - Oh, poders ir  vontade! Estas coisas levam
muito tempo a amadurecer. A propsito, Ruth, no teu
lugar, no levaria essas pedras para o estrangeiro. Deixa-as
no banco.
 Mrs. Kettering acenou, afirmativamente.
 - No quero que te assaltem e assassinem por
causa do Corao de Fogo! - brincou o milionrio.
 - Mas o pai trouxe-as na algibeira, despreocupadamente comentou Ruth, sorrindo.
 - Sim...
 Qualquer coisa no tom da sua voz, uma hesitao
talvez, atraiu a ateno de Mrs. Kettering, que perguntou:
 - Que aconteceu, pai?
 - Nada... Estava a pensar numa aventura minha,
em Paris.
 - Numa aventura?
 - Sim, na noite em que comprei as jias.
 - Conte-me!
 - No h nada a contar, Ruth. Uns celerados armaram-se em
valentes, mas eu disparei e fugiram.
 - Com o meu pai no se brinca! - exclamou
Ruth, com orgulho.
 - Nem mais, Ruth!
 Beijou-a afectuosamente e deixou-a. Ao chegar ao
Savoy, deu uma ordem breve a Knighton:
 - Procure um indivduo chamado Goby; encontrar o seu
endereo na minha agenda particular. Quero-o aqui amanh, s
nove e meia da manh.
 - Sim, senhor.
 - Quero igualmente falar com Mister Kettering.
Veja se o encontra, por favor. Experimente no clube e
em todos os lugares possveis. Preciso dele aqui amanh de
manh. Claro que ter de ser para o fim da manh, a por volta
do meio-dia, pois ele no  dos que
se levantam cedo.
 O secretrio acatou as ordens com um leve aceno
de cabea e Van Aldin entregou-se aos cuidados do seu
criado. Tinha o banho preparado e, enquanto se deliciava com a
carcia da gua quente, recordou a conversa que tivera com a
filha. De um modo geral, estava
satisfeito; o seu crebro vivo havia muito aceitara a
ideia de que o divrcio era a nica soluo possvel.
Ruth concordara com a proposta mais prontamente do
que esperara, mas deixara-o, apesar disso, com uma
vaga sensao de inquietude. Houvera na atitude da filha
qualquer coisa... Um no sei qu que no lhe parecera natural.
 Deve ser imaginao minha..., pensou, franzindo a testa.
"Contudo, apostava que h qualquer coisa
que no me disse.



V

UM CAVALHEIRO TIL


 Rufus Van Aldin terminava o frugal pequeno-almoo de caf e tosta quando Knighton entrou no aposento.
 - Mister Goby espera-o l em baixo, senhor -- anunciou o secretrio.
 O milionrio olhou para o relgio: eram exactamente nove e
meia.
 - Diga-lhe que suba - respondeu secamente.
 Passados um ou dois minutos, Mr. Goby entrou no
quarto. Era um homem baixo e idoso, modestamente
vestido, cujos olhos percorriam cuidadosamente o
aposento, sem nunca se fixarem na pessoa com quem
falava.
 - Bons dias, Goby - cumprimentou o milionrio. - Sente-se.
 - Obrigado, Mister Van Aldin.
 Mr. Goby sentou-se, apoiou as mos nos joelhos e
olhou atentamente para o irradiador.
 - Tenho um trabalho para si.
 - Sim, Mister Van Aldin?
 - Minha filha  casada com o Honorvel Derek
Kettering, como talvez saiba...
 Mr. Goby transferiu o olhar do irradiador para a gaveta do lado esquerdo da escrivaninha e consentiu que 
um sorriso depreciativo lhe passasse pelo rosto.
Mr. Goby sabia muitas coisas, mas detestava sempre admiti-lo.
 - A conselho meu, minha filha est prestes a
apresentar um pedido de divrcio. Trata-se, evidentemente, de
assunto para ser resolvido por advogados,
mas, por razes particulares, desejo informaes completas e
pormenorizadas.
 Mr. Goby olhou para a cornija e perguntou:
 - Acerca de Mister Kettering?
 - Acerca de Mister Kettering.
 - Muito bem, senhor. - Mr. Goby levantou-se.
 - Quando calcula t-las?
 - Tem pressa, senhor?
 - Tenho sempre pressa - afirmou o milionrio.
 Mr. Goby sorriu, compreensivo, de olhos postos na
grade da lareira.
 - As duas da tarde est bem? - inquiriu.
 - Excelente. Bons dias, Goby.
 - Bons dias, Mister Van Aldin.
 -  um homem muito til - disse o milionrio, quando Goby saiu e o secretrio entrou. - No seu ramo,  um 
verdadeiro especialista.
 - Qual  o seu ramo?
 - Informao. Em vinte e quatro horas era capaz de apurar todos os pormenores da vida privada do 
arcebispo, de Canturia!
 - til, de facto - concordou Knighton, a sorrir.
 - J me prestou servios uma ou duas vezes... Agora, Knighton, vamos ao trabalho.
 Ao meio-dia e meia hora, depois de resolvida uma quantidade surpreendente de assuntos, o telefone tocou 
e informaram Mr. Van Aldin de que chegara
Mr. Kettering. Knighton olhou para Van Aldin e interpretou
correctamente o aceno de cabea deste.
 - Diga a Mister Kettering que faa o favor de
subir.
 O secretrio recolheu os papis, saiu e cruzou-se 
porta com o visitante, que se afastou para lhe dar passagem.
Derek Kettering entrou e fechou a porta.

 - Bons dias - cumprimentou. - Constou-me
que estava ansioso por me ver.
 A voz indolente, de inflexo levemente irnica,
despertou adormecidas recordaes no americano. Era
uma voz que tinha encanto, que sempre tivera. Derek
Kettering contava trinta e quatro anos, era magro e tinha um
rosto moreno e seco, que mesmo agora parecia
possuir algo de indescritivelmente infantil.
 - Entre e sente-se - disse-lhe Van Aldin, secamente.
 Kettering instalou-se numa cadeira de braos e
olhou o sogro com uma espcie de ironia tolerante.
 - H muito tempo que no o via - observou, em
tom agradvel. - H cerca de dois anos, talvez... J
viu a Ruth?
 - Visitei-a a noite passada.
 - Tem muito bom aspecto, no acha? - inquiriu
Derek, despreocupado.
 - No me parece que voc tenha tido muitas
oportunidades de avaliar esse pormenor - redarguiu o
americano, secamente.
 Derek arqueou as sobrancelhas e ripostou, leviano:
 - Oh, s vezes encontramo-nos no mesmo clube
nocturno!
 - Como no sou homem para rodeios, digo-lhe
desde j que aconselhei Ruth a pedir o divrcio.
 - Que drstico! - exclamou Derek, imperturbvel. Importa-se que fume?
 Acendeu um cigarro, expeliu uma baforada de fumo e
perguntou, indiferente:
 - E que disse ela?
 - Est disposta a seguir o meu conselho.
 - Deveras?
 -  tudo quanto tem a dizer? - inquiriu o milionrio, em tom
acerado.
 - Sabe, suponho, que ser um grande erro que
ela comete? - perguntou Derek, com ar desinteressado,
sacudindo a cinza para a lareira.
 - Do seu ponto de vista, com certeza.
 - Oh, no sejamos to pessoais! Sinceramente
 ,
no era em mim que pensava neste momento, mas em
Ruth. Como sabe, o meu pobre velhote no pode durar muito mais
tempo;  essa a opinio de todos os
mdicos. Ruth procederia com acerto se esperasse
mais uns dois anos, pois ento eu serei Lorde Leconbury e ela
poder ser a castel de Leconbury. No fim
de contas, foi para isso que casou comigo.
 - No lhe tolero impudncias! - advertiu-o, irritado, Van
Aldin.
 - Concordo, a ideia  obsoleta - observou Derek
Kettering, sorridente e imperturbvel. - Hoje em
dia, um ttulo no vale nada. No entanto, Leconbury
 uma bela e velha manso e ns uma das famlias
mais antigas de Inglaterra. Ser muito desagradvel
para Ruth se nos divorciarmos e, daqui a pouco tempo, eu
voltar a casar e outra mulher se tornar senhora
de Leconbury, em vez dela...
 - No estou a brincar, rapaz!
 - Eu to-pouco. Financeiramente, estou muito
em baixo e ficarei numa situao desastrosa se Ruth se
divorciar. Bem vistas as coisas, se ela suportou dez
anos, porque no suporta um pouco mais? Dou-lhe a
minha palavra de honra de que o velhote no dura
mais de dezoito meses. Seria uma pena se Ruth no
conseguisse aquilo que a levou a casar comigo.
 - Insinua que a minha filha casou consigo pelo seu ttulo e pela sua posio social?
 Derek Kettering soltou uma gargalhada em que
no predominava a alegria e perguntou:

 - No pensa que foi um casamento de amor, pois
no?
 - O que penso  que falou de maneira muito diferente em
Paris, h dez anos - redarguiu Van Aldin,
muito devagar.
 - Falei? Talvez. Ruth era ento muito bela, como
sabe; parecia um anjo, uma santa, qualquer coisa descida de um
nicho de igreja... E eu tinha boas ideias de
virar uma pgina da minha vida, de assentar e viver
segundo as melhores tradies da vida domstica inglesa,
com uma mulher bonita que me tinha amor... - Riu-se
novamente, com menos alegria ainda, e indagou: - Mas
o senhor no acredita, pois no?
 - No tenho dvidas de que casou com Ruth pelo
seu dinheiro - respondeu Van Aldin, friamente.
 - E de que ela casou comigo por amor? - inquiriu o outro,
com ironia.
 - Certamente.
 Derek Kettering fitou-o, em silncio, e depois abanou a
cabea, pensativo.
 - Vejo que acredita nisso... como eu acreditei, ento.
Garanto-lhe, meu caro sogro, que depressa me desiludi.
 - No sei aonde quer chegar, nem me interessa.
Tratou Ruth muitssimo mal...
 - Oh, sem dvida! - concordou, estouvado.
- Mas ela  rija, sabe? sua filha... Debaixo de toda aquela suavidade branca e rosada  dura como granito.
O senhor foi sempre considerado um homem duro, segundo me tm dito, mas Ruth  ainda mais dura. O 
senhor ama, pelo menos, uma pessoa mais que a si mesmo; Ruth nunca amou nem amar.
 - Basta! - declarou Van Aldin. - Chamei-o para lhe dizer
claramente o que tenciono fazer. Minha filha tem direito a certa felicidade e, lembre-se, conta com a minha 
proteco.
 Derek Kettering levantou-se, parou junto da consola da chamin e deitou fora o cigarro. Quando falou, f-lo 
em tom absolutamente calmo:
 - Que quer dizer, ao certo?
 - Quero dizer que acho melhor no contestar o divrcio!
 - Ah!  uma ameaa?
 - Considere-o o que quiser.
 Kettering chegou uma cadeira para junto da mesa e sentou-se defronte do milionrio.
 - Mas suponhamos, suponhamos apenas, hem?,
que decido contestar o divrcio?
 - No tem a mnima base, jovem estouvado -- declarou o
americano, com um encolher de ombros.
- Consulte os seus advogados e ver que lhe diro o
mesmo. A sua conduta  notria, todos a comentam
em Londres.
 - Suponho que a Ruth tem levantado grande alarido por causa
de Mirelle, o que  idiota da sua parte.
No interfiro com os seus amigos.
 - Que pretende insinuar? - perguntou Van Aldin, vivamente.
 - Vejo que no sabe tudo - replicou Kettering, a
rir. - E, naturalmente, est influenciado... - Pegou
no chapu e na bengala, dirigiu-se para a porta e
acrescentou um remoque final: - Dar conselhos no 
a minha especialidade, mas neste caso aconselharia
veementemente completa franqueza entre pai e filha.
 Saiu e fechou a porta, muito depressa, ao mesmo
tempo que o milionrio se levantava, de supeto.
 - Que diabo quereria dizer? - murmurou o americano,
deixando-se cair de novo na cadeira.
 A vaga intranquilidade que sentira antes voltou a
apoderar-se dele, agora violentamente. Havia qualquer
coisa em toda aquela histria que ainda no deslindara...
Pegou no telefone e pediu o nmero da filha:
 - Mayfair 81907?... Mistress Kettering est?...
Saiu?. . Ah, sim, para almoar! A que horas voltar?... No
sabe?... Muito bem... No, no quero deixar nenhum recado.
 Reps o auscultador no descanso, furioso.

 s duas horas andava de um lado para o outro, cheio de ansiedade,  espera de Goby. Este chegou s 
duas horas e dez minutos.
 - Ento? - perguntou-lhe o milionrio, impaciente.
 Mas Mr. Goby no era homem para pressas. Sentou-se  mesa,
tirou da algibeira um ensebado livrinho
de apontamentos e comeou a l-lo, em tom montono. Van Aldin
escutava-o atentamente, com satisfao
crescente. Quando acabou, Goby pregou os olhos no
cesto dos papis.
 - Hum, parece suficiente e claro... - murmurou
o americano. - O caso ser julgado num abrir e fechar de
olhos. Suponho que essa informao acerca do
hotel  irrebatvel?
 - Absolutamente, Mister Van Aldin - afirmou
Mr. Goby, agora com os olhos postos numa poltrona
dourada.
 - E, financeiramente, est muito atrapalhado...
Tenta contrair um emprstimo, no foi o que disse? J
levantou, a bem dizer, tudo quanto podia esperar do
pai... Uma vez divulgado o divrcio, no lhe emprestaro nem
mais um centavo e, alm disso, os credores
ho-de insistir pelo pagamento das suas dvidas. Apanhmo-lo,
Goby, apanhmo-lo num beco sem sada!
 Deu um murro na mesa e no seu rosto brilhou um
sorriso triunfante.
 - A informao parece satisfatria - murmurou
Mr. Goby, em voz fininha.
 - Agora tenho de ir  Curzon Street... Estou-lhe
muito agradecido, Goby; voc percebe da poda!
 - Obrigado, Mister Van Aldin - agradeceu o homenzinho, com
um plido sorriso de desvanecimento.
- Esforo-me por cumprir o melhor possvel.
 Van Aldin no se dirigiu logo para a Curzon
Street; foi primeiro  City, onde teve duas entrevistas
que aumentaram a sua satisfao. Da seguiu no metropolitano
para a Down Street e, j na Curzon Street,
viu sair do nmero 160 um indivduo que se cruzou
com ele, um pouco adiante. Por momentos o milionrio imaginou
que fosse o prprio Derek Kettering,
pois havia certa semelhana na altura e no arcaboio,
mas mais de perto verificou tratar-se de um desconhecido. No
entanto... no, no devia ser um desconhecido, pois o seu
rosto parecia despertar-lhe vagas recordaes - e recordaes
associadas com qualquer coisa
desagradvel. Em vo tentou lembrar-se, mas a memria
fugia-lhe. Seguiu o seu caminho, a abanar irritadamente a
cabea. Detestava sentir-se intrigado.
 Ruth Kettering esperava-o. Correu para ele, beijou-o e
perguntou-lhe:
 - Ento, paizinho, como correm as coisas?
 - Muito bem, mas preciso de fazer-te umas perguntas...
 Instantaneamente, sentiu-a modificar-se; uma expresso
astuta e atenta substituiu a impulsividade com
que o recebera.
 - De que se trata? - inquiriu, sentando-se numa
poltrona.
 - Esta manh falei com o teu marido.
 - Falou com Derek?
 - Falei. Disse uma srie de coisas, a maior parte das quais de uma grande impudncia, mas, ao sair, 
acrescentou algo que no compreendi: aconselhou-me
a que houvesse absoluta franqueza entre pai e filha. Que quereria significar, Ruth?
 - N-no sei, pai... - murmurou Mrs. Kettering, mexendo-se, inquieta, na cadeira. - Como queria que 
soubesse?
 - Sabes com certeza, filha - afirmou Van Aldin. - Disse ainda qualquer coisa acerca de ter os seus amigos 
e de no interferir com os teus. De que se trata?
 - No sei - repetiu Ruth Kettering.
 Van Aldin sentou-se, com a boca cerrada numa linha severa.

 - Escuta, Ruth, no quero tratar deste assunto com os olhos fechados; fiquei com a impresso de que o
teu marido pretende complicar as coisas. Claro que
no poder faz-lo, pois disponho dos meios necessrios para o
calar, mas tenho de saber se  preciso empregar tais meios.
Que quereria ele dizer ao aludir aos
teus amigos?
 - Tenho muitos amigos! - afirmou Mrs. Kettering, com um
encolher de ombros. - Palavra que no
sei a que se referia.
 - Sabes! - desmentiu Van Aldin, como se discutisse com um
concorrente. - Serei mais explcito,
se assim o desejas: quem  o homem?
 - Que homem?
 - O homem. Era a que Derek queria chegar, a
um homem especial que  teu amigo. No te atormentes, querida;
sei que no pode haver nada de mal, mas
temos de encarar as coisas de todos os pontos de vista,
sobretudo do ponto de vista do tribunal. No ignoras
que  possvel torcer o significado dessas coisas, segundo as
convenincias. Quero saber quem  o homem e at onde vai a tua
amizade com ele.
 Ruth no respondeu. Torcia as mos, cheia de nervosismo, e o
pai compadeceu-se:
 - Ento, pequena? - murmurou, em tom mais
terno. - No tenhas medo do velhote. Nem mesmo
em Paris fui muito... Meu Deus! - Calou-se, fulminado. - Era
ele! - murmurou baixinho. - Bem me pareceu que conhecia a sua cara!
 - De que est a falar, pai? No compreendo.
 O milionrio aproximou-se dela e segurou-lhe com fora num pulso.
 - Dize-me, Ruth, voltaste a ver esse indivduo?
 - Que indivduo?
 - Aquele acerca do qual discutimos, h anos. Sabes muito bem a quem me refiro.
 - Refere-se... refere-se ao conde de la Roche?
 - Conde de la Roche! - repetiu Van Aldin, desdenhoso. - Disse-te, na altura, que o homem no passava de 
um vigarista. Deixaras-te arrastar por ele,
mas consegui arrancar-te das suas garras.
 - Pois conseguiu. Conseguiu... e eu casei com Derek Kettering.
 - Quiseste casar com ele! - lembrou-lhe o pai,
vivamente.
 Ruth limitou-se a encolher os ombros.
 - E agora... voltaste a v-lo, depois de tudo quanto te
disse - murmurou Van Aldin, muito devagar.
- Ele esteve c hoje... encontrei-o na rua e, por momentos,
no consegui identific-lo...
 - Quero dizer-lhe uma coisa pai: est enganado
acerca do Armand... isto , acerca do conde de la Roche afirmou Ruth, parcialmente recuperada a 
compostura. - Sei que
teve vrios incidentes desagradveis na sua juventude, pois
ele contou-me; mas...
bem, sempre gostou de mim. Ficou com o corao
despedaado quando nos separou em Paris, e agora...
 Interrompeu-a um rugido de indignao do pai.
 - Deixaste-te ento ludibriar por palavras dessas?
Tu, uma filha minha! Meu Deus! - Levantou as
mos, num gesto de desesperada impotncia, e exclamou: Parece impossvel que as mulheres possam
ser to grandes idiotas!



VI

MIRELLE


 Derek Kettering saiu do quarto de Van Aldin to
precipitadamente que chocou com uma senhora que
passava no corredor. Pediu-lhe desculpa e ela sorriu-lhe,
tranquilizadora, e afastou-se, deixando-lhe a
agradvel impresso de uma personalidade repousante
e de uns belos olhos cinzentos.

 Apesar do seu ar indiferente, a entrevista que tivera com o
sogro perturbara-o mais do que demonstrava.
Almoou sozinho e, de testa franzida, dirigiu-se ao
sumptuoso apartamento de Mirelle, onde uma criadinha francesa
o recebeu, toda sorrisos.
 - Entre, Monsieur. Madame repousa - informou, conduzindo-o 
sala comprida, de decorao
oriental, que to bem conhecia.
 Mirelle estava reclinada no div, apoiada num incrvel
nmero de almofadas, todas de vrios tons ambarinos, para se
harmonizarem com o amarelo ocre da
sua pele. A bailarina era uma mulher bem constituda
e embora o seu rosto, debaixo da pintura amarelada,
fosse um pouco magro, tinha um encanto muito especial. Os seus
lbios cor de laranja sorriram, tentadores, a Derek Kettering,
que se deixou cair numa cadeira.
 - Que estiveste a fazer? S agora te levantaste, no?
 A boca cor de laranja entreabriu-se num longo sorriso.
 - No - respondeu a bailarina. - Estive a trabalhar. Estendeu a mo plida e esguia para o piano,
sobre o qual se encontravam espalhadas numerosas
msicas. - Ambrose esteve c e tocou a nova pera.
 Kettering acenou com a cabea, sem prestar grande ateno.
No estava nada interessado em Claud
Ambrose nem na adaptao de Peer Gynt, de Ibsen.
Mirelle nutria o mesmo desinteresse e considerava-a
apenas uma oportunidade nica para a sua apresentao como
Anitra.
 -  uma dana maravilhosa - murmurou -, na qual porei toda a paixo do deserto. Danarei coberta de 
pedras preciosas e... A propsito, mon ami, vi ontem uma prola negra na Bond Street... - calou-se e
envolveu-o no seu olhar tentador.
 - Minha cara,  intil falares-me de prolas negras. Pela
parte que me toca, acabou-se a papa doce.
 Mirelle endireitou-se, de olhos muito abertos, e
perguntou:
 - Que dizes, Dereek? Que aconteceu?
 - O meu estimado sogro est a preparar-se para
levantar arraiais.
 - O qu?
 - Por outras palavras, quer que Ruth se divorcie.
 - Que estupidez! - exclamou Mirelle. - Porque
h-de ela querer divorciar-se?
 - Principalmente por tua causa, chrie! - replicou Derek, a
sorrir.
 - Isso  idiota! - comentou a bailarina, com um
encolher de ombros.
 - Muito idiota - concordou Kettering.
 - Que tencionas fazer a esse respeito?
 - Que posso eu fazer, minha cara? De um lado,
o homem do poder ilimitado; do outro, o homem
das dvidas ilimitadas. No restam dvidas quanto
ao vencedor.
 - Esses americanos so extraordinrios! Sim, porque a tua
mulher nem gosta de ti!
 - Que havemos de fazer, hem?
 Mirelle olhou-o, interrogadora, e Derek aproximou-se e
pegou-lhe nas mos.
 - No me abandonars?
 - Que queres dizer? Depois...
 - Sim, depois... quando os credores se lanarem a
mim como lobos a um redil. Quero-te muito, Mirelle...
Abandonar-me-s?
 - Sabes que te adoro, Dereek - respondeu, soltando as mos.
 - Ser, ento, assim, hem? - perguntou-lhe Derek,
compreendendo a evasiva. - Os ratos abandonaro o navio a
afundar-se.
 - Oh, Dereek!
 - Fora com a verdade! - ordenou, violento. -- Corrers
comigo, no corrers?
 - Sou tua amiga, mon ami - afirmou,, com novo
encolher de ombros. - Acredita que sou. s encantador, un beau
garon, mas ce n'est pas pratique.

 - s o luxo de um homem rico, no  isso?
 - Se preferes assim... - Recostou-se na almofada, com a
cabea inclinada para trs. - No entanto,
repito que sou tua amiga.
 Derek aproximou-se da janela e ficou a olhar para
a rua, de costas para Mirelle. Esta soergueu-se num
cotovelo e perguntou-lhe, fitando-o com curiosidade:
 - Em que pensas, mon ami?
 Derek olhou-a por cima do ombro, com um sorriso
estranho, que a inquietou vagamente.
 - Se queres que te diga a verdade, pensava numa
mulher.
 - Numa mulher?! - perguntou, como se no
conseguisse compreender. Queres dizer que ests a
pensar noutra mulher?
 - Oh, no tens motivos para te preocupares! Trata-se apenas
de um retrato imaginrio... Retrato de
uma senhora de olhos cinzentos...
 - Quando a conheceste? - perguntou a bailarina,
vivamente. ..
 Derek Kettering soltou uma gargalhada cheia de
ironia, antes de responder:
 - Choquei com ela no corredor do Savoy Hotel!
 - Bem, e que te disse?
 - Se a memria no me engana, eu disse-lhe:
Queira desculpar, e ela respondeu-me: No tem
importncia, ou coisa parecida.
 - E depois? - teimou a bailarina.
 - E depois... nada! - respondeu-lhe Derek, com
um encolher de ombros.
 - No compreendo uma palavra do que ests a
dizer!
 - Retrato de uma senhora de olhos cinzentos... murmurou Kettering, pensativo. - Ainda
bem que o mais certo  no voltar a v-la.
 - Porqu?
 - Podia trazer-me azar. H mulheres que do
azar...
 Mirelle levantou-se do div, juntou-se-lhe e passou-lhe,
pelo pescoo um dos braos compridos.
 - s tolo, Dereek, muito tolo... - murmurou. -- s beau garon e eu adoro-te, mas no fui feita para ser 
pobre... no, decididamente no fui feita para ser pobre. Mas
 tudo muito simples, querido; deves fazer as pazes com a tua mulher.
 - Receio que tal estratgia no seja aconselhvel,
nem vivel - redarguiu Derek, secamente.
 - Que queres dizer? No compreendo.
 - Van Aldin, minha querida, no  homem que
se iluda com manejos desse gnero.  daqueles que se mantm fiis s decises que tomam.
 - Ouvi falar a seu respeito.  muito rico, no ? Quase o homem mais rico da Amrica! H poucos dias, 
comprou em Paris o rubi mais maravilhoso do
mundo, o clebre Corao de Fogo.
 Kettering no respondeu e a bailarina continuou,
como se falasse consigo prpria:
 -  uma pedra maravilhosa, uma pedra que devia
pertencer a uma mulher como eu. Amo as jias, Dereek, dizem-me
qualquer coisa. Ah, usar um rubi como o Corao de Fogo! Soltou um suspirozinho e
voltou a mostrar-se prtica: - Tu no compreendes
estas coisas, Dereek; s apenas um homem. Suponho
que Van Aldin oferecer os rubis a tua mulher.  a sua nica filha?

 - .
 - Ento, quando ele morrer, ela herdar todo o seu dinheiro, ser uma mulher rica.
 - J o  - afirmou Kettering, secamente. - Van
Aldin deu-lhe um dote de dois milhes, quando nos
casmos.
 - Dois milhes! Mas isso  imenso! E se ela morresse de
repente? Herd-los-ias tu...
 - No p em que as coisas esto actualmente, herdaria respondeu, devagar. - Que eu saiba, no fez
testamento.

 - Mon Dieu! Que soluo, se ela morresse!
 Houve um momento de silncio e depois Derek
Kettering desatou a rir  gargalhada.
 - Gosto das tuas ideias simples e prticas, Mirelle, mas
receio que os teus desejos no se cumpram.
Minha mulher vende sade!
 - Eh bien, h acidentes!
 Derek olhou-a vivamente, mas no replicou.
 - No entanto, tens razo, meu amigo; no devemos contar com
possibilidades. Mas cuidado, meu pequeno Dereek, no convm
que se fale mais em divrcio. Tua mulher deve desistir da
ideia.
 - E se no desistir?
 - Creio que desistir, meu amigo - respondeu,
semicerrando os olhos. -  daquelas pessoas que no gostam de publicidade e eu sei de uma ou duas 
histrias que no lhe agradaria que os amigos lessem nos
jornais.
 - Que queres dizer? - perguntou-lhe Derek, vivamente.
 - Parbleu! - exclamou a bailarina a rir, com a cabea inclinada para trs. - Refiro-me ao cavalheiro
que a si mesmo se chama conde de la Roche. Sei tudo
a seu respeito; lembra-te que sou parisiense. Foi
amante dela antes de vocs casarem, no foi?
 - Isso  uma refinada mentira - retrucou Derek, agarrando-a pelos ombros e sacudindo-a. - E lembra-te de 
que,
no fim de contas, ests a falar de minha
mulher!
 - Ah, vocs, ingleses, so extraordinrios! - exclamou
Mirelle, mais comedida. - No entanto, talvez
tenhas razo... As americanas so to frias! Mas permites, por
certo, que diga que ela estava apaixonada por
ele antes de casar contigo e de o pai se meter no assunto e
mandar o conde  sua vida? A pobre mademoiselle
verteu tantas lgrimas! Mas obedeceu. Contudo, deves
saber to bem como eu que a histria , agora, muito
diferente. Tua mulher v-o quase todos os dias e no
dia catorze vai para Paris, a fim de se encontrar com o
senhor de la Roche.
 - Como sabes tudo isso?
 - Eu? Tenho em Paris, meu querido Dereek, amigos que
conhecem intimamente o conde. Est tudo
combinado. Ela diz que vai para a Riviera, mas na realidade o
conde junta-se-lhe em Paris e... Quem sabe?
Acredita, querido, est tudo combinado.
 Derek Kettering permaneceu calado e imvel.
 - Como vs - prosseguiu a bailarina -, se fores
esperto, t-la-s na mo. Podes causar-lhe muitos embaraos. .
.
 - Oh, cala-te, pelo amor de Deus! - gritou Kettering. - Cala
essa boca maldita!
 Mirelle recostou-se outra vez no div, com uma
gargalhada, e Kettering pegou no chapu e na bengala, saiu do
apartamento e bateu com a porta.
 Mas a bailarina continuou recostada no div, a rir
docemente, satisfeita com o seu trabalho.



VII

CAR TAS


 Mrs. Samuel Harfield apresenta os seus cumprimentos
a Miss Katherine Grey e deseja salientar que, nas
circunstncias, Miss Grey talvez no esteja ao corrente...

 At aqui a prosa sara fluente a Mrs. Harfield, mas
deteve-a uma dificuldade insupervel para muita gente:
exprimir-se fluentemente na terceira pessoa. Aps
um minuto ou dois de hesitao, Mrs. Harfield rasgou
a folha e recomeou:

 Querida Miss Grey: embora apreciando devidamente
a maneira competente como desempenhou os seus deveres

para com minha prima Emma (cujo recente falecimento
foi um duro golpe para todos ns), no posso deixar de
sentir. . .

 De novo Mrs. Harfield teve de parar e mais uma
vez a carta foi remetida ao cesto dos papis. S  quarta
tentativa conseguiu redigir uma carta que a satisfizesse.
Fechou-a, selou-a e endereou-a a Miss Katherine Grey, Little
Crampton, St. Mary Mead, Kent.
Katherine Grey recebeu-a na manh seguinte,  hora
do pequeno-almoo, juntamente com um comprido sobrescrito
azul, que parecia mais importante. Katherine
abriu primeiro a carta de Mrs. Harfield, que dizia o
seguinte:

 Querida Miss Grey: Meu marido e eu desejamos exprimir-lhe os
nossos agradecimentos pelos servios que prestou  minha pobre
prima Emma. A sua morte foi um
grande choque para ns, embora soubssemos, evidentemente, que
as suas faculdades mentais enfraqueciam havia
algum tempo. Tive conhecimento de que as suas disposies
testamentrias foram muito peculiares e que nenhum
tribunal as ratificar, e creio que, com o seu habitual
bom-senso, j deve ter compreendido este facto. Meu marido diz
que  sempre muito melhor resolver particularmente
assuntos desta natureza. Com o maior prazer daremos a
seu respeito as melhores referncias, para um lugar
semelhante, e esperamos que aceite uma pequena lembrana.
 Creia-me, Miss Grey, cordialmente,
 Mary Anne Harfield.

 Katherine Grey leu a carta de ponta a ponta, sorriu e releu-a. Largou-a por fim, com uma expresso 
definitivamente irnica. Abriu ento a segunda carta e,
aps breve leitura, ficou a olhar a direito na sua frente,
muito sria. Seria impossvel a quem quer que fosse adivinhar
as emoes que se ocultavam atrs daquele rosto sereno e
pensativo.
 Katherine Grey tinha trinta e trs anos. Filha de
boas famlias, desde muito nova fora obrigada a trabalhar para
viver, em virtude de o pai ter perdido todos
os seus bens. Contava apenas vinte e trs anos quando
se empregara como dama de companhia da velha
Mrs. Harfield.
 Todos sabiam que a idosa senhora era difcil e
que as damas de companhia no aqueciam o lugar na
sua casa. Geralmente chegavam cheias de esperana e
partiam desfeitas em lgrimas. Mas desde que Katherine Grey
entrara em Little Crampton, dez anos antes,
a paz reinara em absoluto. Ningum sabe como estas
coisas acontecem, pois, como diz o povo, os encantadores de
serpentes nascem, no se fazem. Katherine
Grey nascera com a faculdade de saber lidar com velhotas, ces
e crianas, e fazia-o sem sinal aparente de
esforo.
 Aos vinte e trs anos fora uma rapariga calma, de
belos olhos; aos trinta e trs era uma mulher calma,
com os mesmos belos olhos cinzentos firmemente fixos
no mundo com uma espcie de serenidade feliz que
nada conseguia turbar. Alm disso nascera com um
saudvel sentido de humor, que ainda conservava.
 Continuava sentada  mesa, de olhos fixos no vcuo, quando
tocaram a campainha e, ao mesmo tempo, bateram energicamente
com a aldrava. Pouco depois a criadita abria a porta e
anunciava ofegante:
 - O doutor Harrison.
 O robusto mdico de meia-idade entrou pela sala
dentro com a mesma energia e vivacidade com que sacudira a
aldrava.
 - Bons dias, Miss Grey.
 - Bons dias, doutor Harrison.
 - Passei por c cedo para saber se teve notcias de
uma dessas primas Harfield, uma venenosa Mistress
Samuel.
 Sem uma palavra, Katherine pegou na carta de
Mrs. Harfield e estendeu-lha. Divertida, viu o doutor

l-la, franzindo as sobrancelhas hirsutas e soltando de
vez em quando exclamaes e grunhidos de violenta
desaprovao.
 - Monstruoso! - explodiu por fim, atirando a
missiva para cima da mesa. - Mas no se preocupe,
minha querida; no sabem o que dizem. As faculdades
mentais de Mistress Harfield eram to boas como as
suas ou as minhas, e ningum dir o contrrio. Sabem
muito bem que no tm base nenhuma e todas essas
ameaas veladas de levarem o assunto a tribunal no
passam de conversa fiada. Tentam apenas atemoriz-la, para
tirarem partido disso. No se deixe convencer
e, sobretudo, nada de ideias piegas! No pense que 
seu dever entregar-lhes o dinheiro nem se ponha com
tolos escrpulos de conscincia.
 - Confesso que nunca me ocorreu ter escrpulos - afirmou
Katherine. - Todas estas pessoas
que me tm escrito so parentes distantes do marido
de Mistress Harfield e, em vida, nunca quiseram saber
dela para nada.
 -  uma mulher sensata, minha querida. Sei muito bem a dura
vida que levou nos ltimos dez anos e que, s por isso, tem todo o direito a gozar as economias da pobre 
senhora, sejam elas quais forem.
 - Sejam elas quais forem... - repetiu Katherine, pensativa. - No faz ideia do montante, doutor?
 - Bem... talvez o suficiente para um rendimento
de umas quinhentas libras por ano.
 - Era o que eu pensava... Mas leia isto.
 Estendeu-lhe a carta que retirara do sobrescrito
azul, o mdico leu-a e soltou uma exclamao de profundo
espanto.
 - Impossvel! - afirmou. - Impossvel!
 - Era uma das primeiras accionistas da Monaulds,
o que, h quarenta anos lhe deve ter proporcionado
um rendimento de oito a dez mil libras anuais. Tenho
a certeza, porm, de que nunca gastou mais de quatrocentas por
ano; era sempre extremamente parcimoniosa e eu pensava que
tinha de ser assim por necessidade.
 - E durante todo esse tempo o rendimento foi-se
acumulando, com juros compostos! Minha querida,
vai ser uma mulher muito rica.
 -  verdade - murmurou Katherine, meneando a cabea; falava em tom desprendido e impessoal, como se 
observasse a situao do exterior.
 - Felicito-a sinceramente - disse o doutor, preparando-se
para partir. - E no se preocupe com essa
mulher nem com a sua odiosa carta - acrescentou,
apontando a missiva de Mrs. Samuel Harfield.
 - No  uma carta odiosa - discordou Katherine. - Dadas as
circunstncias, suponho que a atitude
desta senhora  muito natural.
 - s vezes causa-me gravssimas suspeitas, sabe?
 - Porqu?
 - Por causa das coisas que acha muito naturais!
 Katherine riu-se e o mdico saiu e foi dar a grande
notcia  mulher.
 - Imagina a velha Mistress Harfield com todo esse
dinheiro! - exclamou aquela, muito excitada. - Ainda bem que o
deixou a Katherine Grey; a pequena 
uma santa!
 - Sempre imaginei os santos como pessoas difceis - comentou
o doutor, com uma careta. - Katherine Grey  demasiado humana
para ser santa.
 -  uma santa com sentido de humor - observou
a mulher, com ironia. - E embora talvez nunca tenhas reparado,  tambm muito atraente.
 - Katherine Grey? - perguntou o doutor, sinceramente
surpreendido. - L que tem uns olhos bonitos, reparei...
 - Oh, os homens so cegos como morcegos! Katherine tem em si
todos os requisitos da beleza, faltam-lhe apenas roupas!
 - Roupas! Que mal tm as suas roupas? Parece-me sempre muito
arranjada.

 Mrs. Harrison soltou um suspiro de irritao e o
doutor levantou-se, a fim de iniciar as suas visitas matinais.
 - Devias visit-la, Polly - sugeriu.
 - Visitarei, sim - concordou prontamente a esposa. Eram
cerca de trs horas quando Miss Grey a recebeu.
 - Estou to contente, minha querida! - afirmou
a esposa do mdico, ao apertar-lhe a mo. - E toda
a gente da aldeia ficar contente tambm, tenho a
certeza!
 - Agradeo-lhe a visita - disse Katherine. - Esperava que
viesse, pois queria perguntar-lhe pelo
Johnnie.
  - Ai, o Johnnie!. . .
 Johnnie era o filho mais novo de Mrs. Harrison, a
qual se lanou numa longa histria em que os adenides e as
amgdalas do pequeno adquiriam propores
descomunais. Katherine escutava-a com um ar compreensivo, pois
os hbitos custam a morrer. Escutar
fora a sua especialidade, durante dez anos! Minha
querida, alguma vez lhe falei no baile da Marinha, em
Portsmouth, quando Lorde Charles admirou o meu
vestido? Ternamente, generosamente, Katherine respondia:
Creio que sim, Mrs. Harfield, mas esqueci-me. Importa-se de
me contar outra vez? E a velhota
contava de novo a histria j muito ouvida, sempre
com numerosas correces, paragens e pormenores novos. Metade
do pensamento de Katherine escutava-a
e, maquinalmente, fazia os comentrios adequados,
quando a pobre senhora parava.
 Agora, com a mesma curiosa sensao de dualidade
a que estava habituada, escutava Mrs. Harrison.
 - Oh, mas tenho estado s a falar de mim! - exclamou a
esposa do mdico, passada meia hora. - Afinal vim c para
falar de si e dos seus planos.
 - Creio que ainda no tenho nenhuns.
 - Minha querida, mas no tenciona ficar aqui,
pois no?
 Katherine sorriu do tom horrorizado da pergunta.
 - No. Tenciono viajar, pois como sabe pouco conheo do
mundo.
 - Deve ter sido uma vida terrvel, aqui presa durante tantos
anos.
 - Olhe que desfrutei de bastante liberdade. -- Mrs. Harrison
soltou uma exclamao abafada e Katherine corou um pouco. Talvez lhe parea idiota
por falar assim, pois no sentido fsico a liberdade no
foi, de facto, muita...
 - Tambm me parece! - concordou Mrs. Harrison, lembrando-se
de que Katherine raramente tivera
um dia de folga.
 - Mas, de certo modo, o facto de estarmos fisicamente presos
oferece-nos grande liberdade mental e
espiritual. Podemos pensar... Tive sempre uma agradvel
sensao de liberdade mental.
 - No compreendo, minha querida - redarguiu
a esposa do mdico, abanando a cabea.
 - Compreenderia, se tivesse estado no meu lugar.
Mas, apesar de tudo, apetece-me variar. Quero... bem, quero que aconteam coisas. No me interprete 
mal, no  a mim que quero que aconteam. Bastar-me-
encontrar-me no meio de acontecimentos impressionantes, ainda
que seja apenas como espectadora. Em St. Mary Mead nunca acontece nada.
 - Pois no, minha amiga.
 - Primeiro irei a Londres, pois tenho de visitar os advogados; depois partirei para estrangeiro.
 - Muito interessante.
 - Mas, claro, antes de mais nada...
 - Antes de mais nada o qu?
 - Preciso de comprar alguns vestidos.
 - Foi exactamente o que disse ao meu marido, esta manh! exclamou a esposa do mdico. - No
sei se sabe, Katherine, mas podia parecer muito bela
se tentasse!
 Miss Grey riu-se, sem vaidade, e replicou:

 - No creio que possa transformar-me numa beleza, mas terei prazer em possuir algumas roupas que 
sejam verdadeiramente boas. Desculpe, estou a falar
 de mais em mim... - O que deve ser uma grande novidade para si!avio -- exclamou Mrs. Harrison, com um 
sorriso malicioso.
 Katherine foi despedir-se da idosa Miss Viner antes de
partir da aldeia. Miss Viner era dois anos mais velha que a falecida Mrs. Harfield e no ocultava o seu 
espanto por lhe ter sobrevivido.
 - Ningum diria que a Jane Harfield partiria e eu
 ainda ficaria, pois no? - perguntou, triunfante, a Katherine. - Andmos as duas na escola e, afinal, ela foi 
primeiro que eu... Quem diria, hem?
 - Mas a senhora comeu sempre po integral ao
i

 jantar, no  verdade? - murmurou Katherine, maquinalmente.
 -  espantoso como se lembra desse pormenor, minha querida! Sim, se Jane Harfield tivesse comido uma 
fatia de po integral todas as noites e tomado um estimulante s refeies, talvez ainda vivesse. - A velhota
fez uma pausa, abanou a cabea e acrescentou, triunfante, como se acabasse de lembrar-se: - Com que 
ento herdou uma quantidade de dinheiro, segundo me constou? Muito bem, saiba govern-lo. E vai para 
Londres divertir-se, hem? Mas no julgue que ca sar, minha querida, porque se engana! No  do tipo
 que atrai os homens. Alm disso, tambm j no  nenhuma
menina... Que idade tem?
 - Trinta e trs anos.
 - Bem, no  muito... - comentou, duvidosa. Mas, claro, perdeu a sua primeira frescura.
 - Receio bem que sim... - redarguiu Katherine,
 divertida.
 - No entanto,  uma rapariga muito simptica e tenho a certeza de que muitos homens podiam fazer, pior 
do que casar consigo, em vez de com uma dessas
 estouvadas que andam por a a mostrar maior poro de pernas do que o Criador desejaria! Adeus, minha 
querida. Espero que se divirta, mas no se esquea
de que, nesta vida, as coisas raramente so o que parecem.
 Comovida com semelhantes profecias, Katherine deixou a aldeia. Metade da povoao foi dizer-lhe adeus  
estao, incluindo a criadita, Alice, que lhe
levou um singelo raminho de flores e chorou abertamente.
 - No h muitas como ela - soluou Alice, depois de o
comboio partir. - Tenho a certeza de que,
quando o Charlie me trocou por aquela rapariga, ningum podia ter sido mais bondoso comigo do que Miss 
Grey foi. E, embora esquisita com os areados e o
p, tambm sabia ver quando tnhamos cuidado e fazamos as
coisas na perfeio. Por ela seria capaz de me deixar cortar aos bocadinhos, se fosse preciso! Uma 
verdadeira senhora,  o que lhe chamo!
 Foi assim a partida de Katherine de St. Mary Mead.



VIII

LADY TAMPLIN ESCREVE UMA CARTA


 Lady Tamplin pousou a edio continental do Daily Mail e olhou para as guas azuis do Mediterrneo.
Um ramo de douradas mimosas, pendente sobre a sua cabea, constitua adequada moldura para um 
quadro encantador de uma senhora de cabelos louros, olhos azuis e bonito nglig. Que o dourado do 
cabelo e o branco e rosa da pele se deviam, at certo ponto, a artifcio,
era inegvel; mas o azul dos olhos era um dom
da Natureza e, aos quarenta e quatro anos, Lady Tamplin podia
considerar-se ainda uma beldade.

 Por muito encantadora que parecesse, naquele mo mento Lady
Tamplin no pensava em si prpria, o
 que era raro acontecer. Ou melhor, no pensava na sua
 aparncia; a sua ateno concentrava-se em assuntos
 mais graves.
 Lady Tamplin era uma figura muito conhecida na
 Riviera e as suas festas na Villa Marguerite justamente
 clebres. Mulher muito experiente, tivera quatro maridos. O
primeiro fora apenas uma imprudncia e, por isso, raramente se lhe referia. Tivera o bom-senso de morrer 
com louvvel prontido, o que permitira  viva
desposar um rico fabricante de botes. Este partira tambm para outras esferas aps trs anos de vida 
conjugal dizia-se que depois de uma noitada com alguns companheiros de
farra... Sucedera-lhe o visconde
 Tamplin, que colocara Rosalie nas alturas com que ela
 sonhava. A dama conservara o ttulo ao casar pela
 quarta vez. A quarta aventura conjugal tivera por objectivo
pura e simplesmente o prazer. Mr. Charles
 Evans, um simpatiqussimo jovem de vinte e sete
 anos, possuidor de maneiras encantadoras, arraigado
 amor pelo desporto e esmerado apreo pelos bens des te
mundo, no tinha nada de seu, financeiramente falando.
 Lady Tamplin sentia-se muito satisfeita com a vida
 em geral, mas de vez em quando assaltavam-na vagas
 preocupaes monetrias. O fabricante de botes dei 
xara-lhe considervel fortuna, mas, como Lady Tamplin dizia,
com uma coisa e outra... (uma coisa fora
 a depreciao das aces provocada pela guerra; a ou tras
extravagncias do falecido Lorde Tamplin). Claro que dispunha
ainda de uma fortuna confortvel,
 mas isso era pouco para uma pessoa do seu temperamento.
 Por isso, naquela particular manh de Janeiro,
abriu muito os bonitos olhos azuis ao ler certa notcia
e soltou uma exclamao rouca. A nica pessoa que se
encontrava na varanda, alm dela, era sua filha, a

Honorvel Lenox Tamplin. Uma filha daquelas constitua autntico espinho cravado no flanco de Lady 
Tamplin; no possua sombra de tacto, parecia mais velha do que era e alardeava um humor sardnico e 
peculiar, que era, para dizer o menos, desconfortvel.
 - Imagina, querida! - exclamou Lady Tamplin.
 - O qu?
 A me pegou no Daily Mail, estendeu-lho e apontou-lhe com o
indicador trmulo o pargrafo em causa.
 Lenox leu-o sem nenhum sintoma da agitao que consumia a me e devolveu-lhe o jornal.
 - Que tem de especial? - inquiriu. - Esto
sempre a acontecer coisas dessas, todos os dias morrem velhas
sovinas que deixam milhes s suas humildes damas de
companhia.
 - Bem sei, querida, e creio que a fortuna no ser
to grande como dizem; os jornais so uns exagerados.
Mas mesmo que fosse apenas metade...
 - Ora, no fomos ns que herdmos!
 - Pois no, querida, mas esta rapariga, esta Katherine Grey,
 minha prima! Pertence aos Greys de
Worcestershire, de Edgworth. Imagina, minha prima!
 - Ah! - exclamou Lenox, significativamente.
 - Perguntava a mim mesma...
 - O que poderemos lucrar com isso - concluiu
Lenox, com aquele sorriso de esguelha que a me
nunca conseguia perceber.
 - Minha querida! - protestou Lady Tamplin,
num leve tom de censura (muito leve, diga-se, pois
Rosalie Tamplin estava habituada  sinceridade brutal
da filha e ao que apelidava de "desagradvel maneira
de Lenox dizer as coisas). - Perguntava a mim mesma repetiu, unindo as sobrancelhas artisticamente
desenhadas - se... Oh, bons dias, Chubby, querido!
Vais jogar tnis? Que bom!
 O dito Chubby sorriu-lhe ternamente e elogiou,
por dever de ofcio:
 - Ests formidvel com esse nglig cor de pssego! - E
deixou-as, imperturbvel.

 - Querido rapaz! - exclamou Lady Tamplin, seguindo o marido
com um olhar afectuoso. - Mas que
estava eu a dizer? Ah! - voltou a pensar em coisas srias... Perguntava a mim mesma...
 - Desembucha, pelo amor de Deus!  a terceira
vez que dizes isso.
 - Bem, amor, pensava que seria muito simptico
da minha parte escrever  querida Katherine e convid-la a
fazer-nos uma visitinha aqui. Claro que, naturalmente, no
teve contactos com a sociedade, e seria
muito mais agradvel para ela ser iniciada por uma
pessoa da sua famlia. Uma vantagem para ela... e
uma vantagem para ns.
 - Quanto calculas que a fars desembolsar? -- perguntou
Lenox, brutalmente.
 A me olhou-a, com um olhar carregado de censuras, e
murmurou:
 - Naturalmente teramos de estabelecer um acordo financeiro
qualquer. Com uma coisa e outra... a
guerra, o teu pobre pai...
 - E, agora, o Chubby.  um luxo caro, como
sabes.
 - Lembro-me de que era boa rapariga - prosseguiu Rosalie
Tamplin, como se no a ouvisse. - Sossegada, tmida, nenhuma
beldade e nada caadora de homens...
 - Portanto, deixar o Chubby em paz.
 Lady Tamplin lanou-lhe um olhar indignado e protestou:
 - Chubby jamais...
 - Creio que tens razo; ele sabe muito bem o que lhe convm.
 - Querida, tens uma maneira to grosseira de dizer as coisas!
 - Desculpa, me.

 Lady Tamplin pegou no Daily Mail, numa bolsinha e em vrias
cartas, aconchegou o nglig e disse:
 - Vou escrever imediatamente  querida Katherine e
lembrar-lhe os velhos e saudosos tempos de Edgworth - e entrou
em casa, com um brilho de determinao no olhar.
 Ao contrrio do que acontecia a Mrs. Samuel Harfield, a
prosa epistolar brotava facilmente da pena de
Lady Tamplin. Encheu quatro folhas sem pausa nem
esforo e, ao rel-las, nem encontrou motivos para
emendas.
 Katherine recebeu a missiva na manh da sua chegada a
Londres. Se leu ou no nas entrelinhas, no o
demonstrou. Meteu a carta na mala e saiu, pois tinha
entrevista marcada com os advogados de Mrs. Harfield.
 Tratava-se de uma firma antiga, havia muito estabelecida em
Lincoln's Inn Fields, e aps poucos minutos de espera
Katherine foi conduzida  presena do
scio principal, um indivduo simptico, de certa idade, com
astutos olhos azuis e modos paternais.
 Discutiram acerca do testamento e de vrios aspectos legais
do caso durante cerca de vinte minutos, e
por fim Katherine mostrou-lhe a carta de Mrs. Samuel.
 - Acho melhor mostrar-lhe isto, embora me parea uma manobra
ridcula...
 O advogado leu a carta, com um leve sorriso.
 - Chamo-lhe, antes, uma tentativa grosseira, Miss
Grey. Escuso dizer-lhe, suponho, que esta gente no
tem direitos absolutamente nenhuns aos bens legados
e que, se tentarem contestar o testamento, nenhum
tribunal os apoiar.
 - J o supunha.
 - A natureza humana nem sempre  sensata... No
lugar de Mistress Samuel Harfeld, teria optado por
apelar para a sua generosidade.
 - Essa  uma das coisas acerca das quais desejo
falar-lhe, pois gostaria que fosse entregue a essas pessoas
determinada quantia.
 - No tem obrigao de o fazer.

 - Eu sei.
 - E no a aceitaro no esprito em que lha d;
provavelmente consider-la-o uma tentativa da sua
parte para os calar. Mas nem por isso a recusaro...
 - Compreendo perfeitamente, mas pacincia.
 - No seu lugar, Miss Grey, poria essa ideia de
parte.
 - Sei que tem razo, mas, mesmo assim, gostaria
de a levar por diante.
 - Aceitaro o dinheiro e depois ofend-la-o ainda
mais.
 - Pois que ofendam, se quiserem. Cada um tem a
sua maneira de se divertir e, no fim de contas, eles
eram os nicos parentes de Mistress Harfield. Embora
a desprezassem como a uma parenta pobre e no lhe
tivessem ligado importncia enquanto viveu, parece-me injusto
ficarem sem nada.
 Fez a sua vontade, embora o advogado continuasse
a discordar, e pouco depois saiu para as ruas de Londres com a
agradvel certeza de poder gastar dinheiro
como lhe apetecesse e fazer planos para o futuro. Primeiro que
tudo, decidiu visitar o estabelecimento de
 uma famosa modista.
 Atendeu-a uma francesa idosa e magra, com um ar
 de duquesa sonhadora, a quem Katherine falou com
certa ingenuidade:
 - Quero colocar-me nas suas mos, se me permite
a expresso. Toda a minha vida fui pobre e no percebo nada de
vestidos, mas agora tenho algum dinheiro
e quero vestir bem.
 A francesa ficou encantada, tanto mais que o seu
temperamento artstico fora ultrajado logo de manh
pela visita de uma rainha argentina da carne, que teimara em
adquirir os modelos menos convenientes ao
 seu espampanante tipo de beleza. Observou Katherine
 com olhos perscrutadores e inteligentes e respondeu-lhe:

 - Ser um prazer. Mademoiselle tem muito boa
 figura e as linhas simples ficar-lhe-o bem.  tambm
trs anglaise. Algumas pessoas ofender-se-iam se lhes
dissesse isto, mas Mademoiselle no se ofende. Une
belle anglaise, no h estilo mais delicioso.
 Abandonou acto contnuo a atitude de duquesa sonhadora e
gritou ordens a vrios manequins:
 - Clothilde, Virginie, depressa, minhas pequeninas! O
tailleur gris clair e o robe de soire soupir d'automne.
Marcelle, minha filha, o vestidinho mimoso de
crepe da China.
 Foi uma manh deliciosa. Marcelle, Clothilde, Virginie,
enfastiadas e desdenhosas, passaram lentamente, com ademanes
prprios da sua profisso de manequins. A duquesa
conservou-se ao lado de Katherine
e foi tomando notas num livrinho de apontamentos.
 - Excelente escolha, Mademoiselle... Mademoiselle tem muito
bom gout... Sim, Mademoiselle no
podia escolher melhor se, como suponho, vai este Inverno para
a Riviera.
 - Deixe-me ver mais uma vez aquele vestido de
noite - pediu Katherine. - Aquele tom de malva-rosado...
 Virginie voltou a passar, devagar.
 - E o mais bonito de todos! - exclamou Miss
Grey. - Como lhe chama?
 - Soupir d'automne. Sim,  de facto um vestido
prprio para a Mademoiselle!
 Que haveria nestas palavras para Katherine as recordar,
depois de sair do estabelecimento, com uma
amarga sensao de tristeza?
 Soupir d'automne... um vestido prprio para a
Mademoiselle... Outono... sim, era Outono para ela,
Outono para ela, que nunca conhecera, nem conheceria j,
Primavera nem Vero... Perdera-os e jamais os
encontraria. A vida passara, inexorvel, durante todos
aqueles anos de servido em St. Mary Mead.
 Sou uma idiota!", pensou. Sou uma idiota! Que
quero eu? Com franqueza, parecia mais contente h
um ms do que pareo agora!

 Tirou da mala a carta que recebera de Lady Tamplin, naquela
manh, e que a iludira; percebera muito
bem aquela sbita demonstrao de afecto por uma
prima havia muito esquecida. Era com mira no lucro,
e no por amizade, que Lady Tamplin estava to ansiosa pela
companhia da sua querida prima. Bem, porque no? Bem vistas as
coisas, as vantagens seriam
mtuas.
 Irei!, decidiu.
 Descia a Piccadilly, naquele momento, e entrou na
Cook para deixar tudo resolvido. Aguardou uns momentos. O
homem que o empregado atendia tambm
ia para a Riviera. Dir-se-ia que toda a gente ia para a
Riviera. Pela primeira vez na vida, faria o que toda
a gente fazia!
 O homem que estava  sua frente voltou-se, de sbito, e ela
ocupou o seu lugar. Explicou o que queria
ao empregado, mas metade do seu pensamento ocupava-se de outra
coisa. A cara do indivduo parecera-lhe
vagamente familiar... Onde j o vira? Subitamente,
lembrou-se: vira-o naquela manh, no Savoy, chocara
com ele no corredor. Que coincidncia encontr-lo
duas vezes no mesmo dia! Olhou para cima do ombro,
constrangida por uma sensao que no compreendia.
O homem estava  porta, a olh-la. Percorreu-a um calafrio
pressagiador de tragdia, de desastre iminente...
 Mas afastou semelhantes ideias com o habitual
bom-senso e prestou toda a ateno ao que o empregado dizia.



IX

OFERTA RECUSADA


 Raramente Derek Kettering permitia que o mau
gnio levasse a melhor fosse no que fosse. Uma despreocupao
negligente era a sua principal caracterstica, e valera-lhe j
em muitas circunstncias desagradveis. Por isso, ao deixar o
apartamento de Mirelle
sentia-se j mais calmo. E bem precisava de calma,
pois nunca se encontrara em to grandes apuros, agravados por
uma srie de imprevistos que, de momento,
no sabia como resolver.
 Afastou-se de testa franzida, profundamente absorto nos seus
pensamentos, sem a vivacidade de maneiras que to bem lhe
ficava. Vrias possibilidades se
apresentavam ao seu esprito, pois diga-se em abono
da verdade que Derek Kettering era menos tolo do
que parecia. Via vrias sadas, entre as quais uma sobretudo o
atraa. Se hesitava ainda em escolh-la, era
apenas de momento; para grandes males, grandes remdios. Sabia
que no se enganava a respeito do sogro
e que uma guerra entre Derek Kettering e Rufus Van
Aldin s podia ter um fim. Irritado, amaldioou mental e
veementemente o dinheiro e o seu poder.
 Subiu a St. James's Street, atravessou Piccadilly e
seguiu na direco de Piccadilly Circus. Ao passar pelos
escritrios de Thomas Cook & Sons afrouxou o
passo, mas seguiu em frente, ainda indeciso. Por fim
acenou com a cabea e voltou-se bruscamente, to
bruscamente que chocou com um casal que vinha atrs
de si. Retrocedeu e entrou no escritrio da Cook. Atenderam-no
imediatamente, pois estava pouca gente.
 - Quero partir para Nice na prxima semana. Pode dar-me
algumas informaes?
 - Em que data deseja partir?
 - No dia catorze. Qual  o melhor comboio?
 - Bem, no h dvida de que o melhor  o Comboio Azul, como
lhe chamam. Poupa as incmodas
formalidades alfandegrias em Calais.
 Derek acenou com a cabea, embora soubesse perfeitamente
tudo aquilo.
 - Mas para o dia catorze  muito apertado...comentou o
empregado. - A lotao do Comboio
Azul esgota-se quase sempre.

 - Veja se ainda me arranja um compartimento-cama. Seno... Esboou um sorriso curioso e no
completou a frase.
 O empregado ausentou-se durante alguns minutos
e quando voltou disse-lhe:
 - Ainda h trs compartimentos-cama; reservo-lhe um. Em que
nome?
 - Pavett - respondeu Derek, e deu o endereo
dos seus aposentos na Jermyn Street.

 O empregado tomou nota, desejou-lhe um bom dia
e dedicou a sua ateno  cliente seguinte.

 - Quero partir para Nice no dia catorze. No h
um comboio chamado o Comboio Azul?
 Derek olhou vivamente para trs...
 Coincidncia, estranha coincidncia! Lembrou-se
das palavras meio irnicas que dissera a Mirelle: Retrato de
uma senhora de olhos cinzentos. No creio
que volte a v-la. Mas no s voltara a v-la, como
ainda ela se propunha viajar para a Riviera no mesmo dia que ele.
 Por momentos, sentiu percorr-lo um calafrio. Era
supersticioso, em certas coisas, e no se esquecera de
que dissera, meio a brincar, que aquela mulher podia trazer-lhe azar. E se... se... isso fosse verdade? 
Observou-a da porta, enquanto ela falava com o empregado.
Desta vez os seus olhos no o tinham enganado: era uma senhora em todo o sentido da palavra. No muito
jovem, nem singularmente bonita, mas tinha um no sei qu... Talvez os olhos cinzentos vissem de mais...

 Saiu com a certeza fatalista de que, de certo modo, tinha medo daquela mulher.
 Regressou ao seu apartamento na Jermyn Street e chamou o criado.
 - Amanh de manh, antes de mais nada, levantas o dinheiro deste cheque e vais  Cook, em Piccadilly, 
pagar uns bilhetes que l esto reservados em teu nome.
 - Muito bem, senhor.
 Pavett saiu e Derek aproximou-se de uma mesa e
pegou num punhado de cartas. Eram todas de um tipo assaz familiar: contas, contas grandes e contas 
pequenas,
todas a clamarem pagamento. A maneira de pedir
era ainda delicada, mas Derek sabia que, em breve, se
determinadas notcias se tornassem do domnio pblico, o tom
mudaria.
 Deixou-se cair, aborrecido, numa poltrona forrada
de cabedal. Estava metido numa grande camisa-de-onze-varas, se
estava! E a maneira de sair dela no lhe
parecia muito prometedora.
 Pavett entrou, com uma tossezinha discreta, e
anunciou:
 - Um cavalheiro deseja v-lo, senhor. Major
Knighton.
 - Major Knighton? - Derek endireitou-se, franziu a testa,
subitamente atento, e comentou em tom
mais suave, quase como se falasse sozinho: - Knighton... que
ventos o traro?
 - Mando-o entrar, senhor?
 Derek acenou afirmativamente e, quando entrou
na sala, Knighton encontrou  sua espera um anfitrio
cheio de cordialidade.
 - Foi muito simptico em visitar-me...
 Os olhos atentos de Kettering compreenderam logo que
Knighton estava nervoso e que a misso que ali
o levara lhe desagradava claramente. Correspondeu em
tom maquinal  conversa fcil de Derek, declinou uma
bebida e a sua atitude pareceu tornar-se ainda mais
hirta.
 - Ora diga-me c o que quer de mim o meu estimado sogro? perguntou-lhe Derek, por fim. - Sim,
porque presumo que veio a seu mandado...
 - Vim, sim - respondeu o outro, muito srio. -- Confesso que
desejaria que Mister Van Aldin tivesse
escolhido outra pessoa...
 Derek ergueu as sobrancelhas, com um falso ar assustado, e
perguntou:

 -  assim to mau! Garanto-lhe, Knighton, que
no tenho uma pele muito delicada...
 - Pois sim, mas isto...
 Calou-se e o dono da casa olhou-o atentamente.
 - Continue, por favor - pediu-lhe Derek, delicadamente. No me custa acreditar que as misses de
que o meu querido sogro o encarrega nem sempre so
agradveis.
 Knighton pigarreou e falou formalmente, esforando-se por no demonstrar embarao:
 - Mister Van Aldin ordenou-me que lhe fizesse
uma oferta directa.
 - Uma oferta? - repetiu, surpreendido.
 No tinham sido bem aquelas palavras que esperara. Ofereceu
um cigarro a Knighton, acendeu um para si e recostou-se na poltrona, murmurando em tom levemente 
sardnico:
 - Uma oferta? Parece muito interessante...
 - Posso continuar?
 - Faa favor. Desculpe a minha surpresa, mas parece-me que o meu querido sogro desceu muito desde a 
nossa conversa desta manh, e descer no  verbo
que costume associar-se com homens fortes, com Napolees da finana, etc. Demonstra, pelo menos 
assim sou levado a crer, que considera a posio mais fraca do que imaginava.
 Knighton escutava delicadamente a voz bem timbrada e irnica, mas o seu rosto no denunciava os seus 
pensamentos. Esperou que Derek acabasse de falar e
declarou, muito calmo:
 - Apresentarei a proposta no menor nmero possvel de
palavras...
 - Continue.
 - Trata-se apenas disto - comeou, sem olhar para
o interlocutor, em tom seco e conciso: - Mistress
 Kettering apresentar, como sabe, um pedido de divrcio. Se
o senhor no se opuser, receber cem mil
 no dia em que a sentena for proferida.
 Derek interrompeu bruscamente o gesto de acender o cigarro e
repetiu:
 - Cem mil! Dlares?
 - Libras.
 O silncio foi total durante pelo menos dois minutos.
Kettering pensava, de sobrancelhas franzidas.
Cem mil libras... Isso queria dizer que poderia continuar com
Mirelle e com a sua vida agradvel e descuidada... e queria
dizer tambm que Van Aldin sabia
qualquer coisa. No era homem que oferecesse dinheiro sem
motivos.
 Levantou-se, foi encostar-se  chamin e perguntou, com fria
e irnica delicadeza:
 - E se eu recusar a atraente oferta?
 - Garanto-lhe, Mister Kettering, que me custou
muitssimo vir aqui transmitir-lhe esta mensagem -- afirmou
Knighton, sinceramente.
 - No tem importncia; no se preocupe com isso, pois a
culpa no  sua. Mas responda  minha pergunta, sim?
 Knighton levantou-se tambm e falou ainda com
maior relutncia do que antes:
 - Mister Van Aldin encarregou-me de lhe dizer
claramente que tenciona arruin-lo se recusar a sua
proposta.
 - Capaz disso  ele! - exclamou Derek. - Que
posso eu contra um americano senhor de tantos milhes? Pouco
ou nada. Cem mil libras! Quando se suborna um homem, ao menos
que seja com uma importncia que valha a pena! E se eu lhe
dissesse que faria
o que ele quisesse por duzentas mil?
 - Transmitiria a sua resposta a Mister Van Aldin -redarguiu Knighton, imperturbvel. -  isso que deseja lhe 
diga?
 - No, por estranho que parea, no . Pode dizer ao meu sogro que v para o inferno, ele e os seus 
subornos! Entendidos?
 - Perfeitamente. - Knighton levantou-se, hesitou e disse, corando: - Permita-me que lhe diga, Mister 
Kettering, que estou satisfeito por ser essa a resposta.
 Derek no respondeu. Quando o outro saiu, ficou um momento mergulhado em reflexes, com um curioso 
sorriso nos lbios.
 - E pronto! - murmurou, docemente.



X

NO COMBOIO AZUL



 - Pai!
 Mrs. Kettering estremeceu violentamente; naquela
manh no conseguia dominar os nervos. Elegante no seu casaco comprido de marta e no chapelinho 
vermelho, passeava, pensativa, no cais cheio de gente da estao de
Vitria. O aparecimento sbito do pai apanhou-a de surpresa.
 - At deste um pulo, Ruth!
 - No esperava v-lo, pai. Ontem despediu-se
de mim e disse-me que tinha uma conferncia esta
manh...
 - E tenho, mas tu tens mais importncia para
mim do que todas as conferncias juntas. Vim dizer-te
um ltimo adeus, pois vamos passar algum tempo sem
nos vermos.
 - Obrigada, pai. Gostaria que fosse comigo...
 - Que dirias se fosse, hem?
 Van Aldin fez a pergunta apenas por brincadeira,
mas surpreendeu-se ao ver o rubor intenso que incendiou as faces da filha. Chegou-lhe at a parecer que os
seus olhos exprimiam pavor.
 - Por momentos julguei que falava a srio! - exclamou Ruth, com um riso nervoso e inquieto.
 - Gostarias?
 - Com certeza - afirmou, com exagerada nfase.
 - Ainda bem...
 - No estaremos afastados muito tempo, pai. Para o ms que
vem j l o terei.
 - Ah! - exclamou, magoado. - s vezes d-me vontade de visitar um dos sabiches da Harley Street, para 
me dizer que preciso de sol e de mudar imediatamente de ares.
 - No seja preguioso! Para o ms que vem a Riviera  muito mais bonita que este ms e, alm disso,
o pai tem com certeza muitos negcios que no pode
abandonar, assim de repente.
 - Creio que tens razo - concordou, com um
suspiro. - Acho melhor entrares para o comboio, Ruth. Onde  o teu lugar?
 Ruth olhou vagamente para a composio.  porta de uma das carruagens Pullman encontrava-se a sua 
criada, uma mulher alta e magra, vestida de preto, que se afastou para ela passar.
 - Arrumei o estojo de toucador debaixo do banco, madam, para o caso de precisar dele. Posso arrumar as 
mantas, ou deseja alguma?
 - No, no desejo nenhuma. Agora  melhor ires para o teu lugar, Mason.
 - Sim, madam.
 Van Aldin entrou na Pullman com a filha e colocou vrios jornais e revistas na mesinha existente defronte 
do lugar de Ruth. O lugar oposto estava j ocupado e
o americano deitou um olhar breve  sua ocupante, reparando
sobretudo que tinha bonitos olhos cinzentos e
vestia um elegante conjunto de viagem.
 Conversou um pouco mais com Ruth e, quando os
apitos comearam a ouvir-se, olhou para o relgio e
disse-lhe:
 - Acho melhor sair daqui agora. Adeus, querida,
e no te preocupes: tratarei de tudo.
 - Oh, pai!

 Van Aldin voltou-se, inquieto. Notara na voz de
Ruth um tom diferente do habitual, qualquer coisa
que o assustara. Quase parecera um grito de desespero. A filha
fez um movimento impulsivo na sua direco, mas conteve-se e
voltou a mostrar-se senhora de si
mesma.
 Dois minutos depois, o comboio partia.
 Ruth sentou-se muito direita, a morder o lbio inferior e a
esforar-se desesperadamente por conter as
lgrimas que ameaavam saltar-lhe dos olhos. Sentia-se
invadida por uma desolao terrvel, pelo desejo
louco de saltar do comboio e voltar para trs, antes
que fosse demasiado tarde. Ela que era to calma, to
segura de si, sentia-se pela primeira vez como uma folha
sacudida pelo vento. Que diria o pai, se soubesse?
 Loucura! Sim, era isso apenas, loucura! Pela primeira vez na
sua vida deixara-se arrebatar pela emoo
ao ponto de fazer o que sabia muito bem ser idiota e
temerrio. Era suficientemente filha do seu pai para
avaliar a sua loucura e condenar o seu gesto, mas possua
tambm a determinao frrea da Van Aldin, a
determinao de ter tudo quanto queria e de, uma vez
tomada uma deciso, no voltar atrs. Desde o bero
que era voluntariosa, caracterstica que as prprias
circunstncias da vida que levava haviam desenvolvido.
Enfim, os dados estavam lanados, s lhe restava ir
para a frente!
 Levantou a cabea e o seu olhar cruzou-se com o
da mulher sentada no lugar oposto. Sem saber porqu,
teve a impresso disparatada de que a outra lhe lera os
pensamentos e de que os seus olhos cinzentos traduziam
compreenso e... sim, compaixo.
 Mas foi uma impresso fugidia; o rosto de ambas
adquiriu, acto contnuo, a impassibilidade prpria de
pessoas bem educadas. Mrs. Kettering pegou numa
revista e Katherine Grey olhou pela janela a paisagem
interminvel e deprimente de ruas e casas suburbanas.
 Ruth sentia cada vez maior dificuldade em fixar a
ateno na revista que lia. Mau grado seu, mil apreenses lhe
assaltavam o esprito. Como fora idiota!
E continuava a s-lo! Como todas as pessoas de temperamento
calmo e auto-suficiente, quando perdia o autodomnio perdia-o
por completo. Era demasiado tarde... Mas seria, de facto? Oh,
se tivesse algum com
quem falar, algum que a aconselhasse! Nunca experimentara
semelhante desejo e desdenhara sempre da
possibilidade de confiar numa opinio que no fosse a
sua, mas agora... Que se passaria consigo? Pnico.
Sim, era essa a palavra que melhor descrevia o seu estado de
esprito: pnico. Ela, Ruth Kettering, estava
completa e absolutamente vencida pelo pnico.
 Lanou um olhar disfarado  companheira de viagem. Se ao
menos conhecesse algum assim, uma criatura calma, simptica e
compreensiva... Via-se que era
daquelas mulheres com quem se podia falar. Mas, claro, no se
fazem confidncias a uma desconhecida.
Ruth sorriu de semelhante ideia e tentou ler de novo;
precisava de se dominar. No fim de contas, estudara o
assunto e decidira de sua livre vontade. Que felicidade
tivera na vida, at agora?
 Porque no hei-de ser feliz?, perguntou a si mesma,
impacientemente. Ningum saberia. .. 
 Chegaram a Dover num instante. Ruth era boa
marinheira, mas detestava o frio e estava ansiosa por
se encontrar no conchego do camarote que reservara
por telegrama. Embora no o confessasse, tinha certas
supersties e as coincidncias atraam-na. Depois de desembarcar em Calais e de se instalar com a 
criada no seu compartimento duplo do Comboio Azul, dirigiu-se  carruagem-restaurante. Foi com um 
pequeno sobressalto de
surpresa que se encontrou sentada  mesa, tendo na frente a mesma mulher que viajara consigo na 
Pullman. Um leve sorriso entreabriu os lbios das duas senhoras.
 - Que coincidncia! - comentou Mistress Kettering.

 - Sem dvida - concordou Katherine. -  singular a maneira como as coisas acontecem.
 Um empregado serviu-lhes a sopa, com a rpida eficincia sempre demonstrada pela Compagnie 
Internationale
des Wagons-Lits, e quando chegou a vez da
omeleta as duas mulheres conversavam j amigavelmente.
 - Estou ansiosa pelas delcias do sol! - exclamou
Ruth, com um suspiro.
 - Deve ser maravilhoso.
 - Conhece bem a Riviera?
 - No; esta  a minha primeira visita.
 - Imagine!
 - Vai todos os anos, suponho?
 - Praticamente. Janeiro e Fevereiro so terrveis
em Londres.
 - Vivi sempre na provncia, onde esses meses
tambm no so muito inspiradores. H, sobretudo, o
flagelo da lama...
 - Porque decidiu viajar, agora?
 - Dinheiro - confessou Katherine. - Durante
dez anos fui dama de companhia e nunca tive mais do
que o indispensvel para comprar sapatos grossos, para o
campo... Agora herdei o que me parece uma fortuna, embora 
senhora no deva parecer muito.
 - Porqu? Porque me diz que no me parecer
muito, a mim?
 Katherine riu-se, confusa.
 - Sinceramente, no sei. Suponho que, mesmo
sem querermos, formulamos opinies acerca das pessoas, e a
minha opinio a seu respeito leva-me a classific-la entre os
muito ricos deste mundo. Claro que se
 trata apenas de uma impresso; provavelmente estou
 enganada.
 - No, no est enganada - volveu Ruth, subitamente grave. Gostaria de saber que outras opinies
formou a meu respeito.

 - Eu...
 - Oh, por favor, ponha de parte os convencionalismos! pediu Ruth, ignorando o embarao da outra. - 
Gostava de saber,
acredite. Quando o comboio partiu de Vitria olhei para si e tive a impresso de que a senhora... bem, de 
que compreendia o que se passava no meu pensamento.
 - Garanto-lhe que no sei ler o pensamento
alheio! - afirmou Katherine, a sorrir.
 - De acordo. Mas diga-me, por favor, o que pensou de mim.
 A ansiedade de Ruth era to intensa e sincera que
logrou os seus intentos.
 - Dir-lhe-ei, visto pedir-mo, mas rogo-lhe que
no me considere impertinente. Pensei que, por qualquer
motivo, sofria de uma grande angstia e lamentei-a.
 - No se enganou; tem toda a razo. Sinto-me, de
facto, angustiada e... e gostaria de falar-lhe dos motivos da
minha perturbao, se mo permitisse.
 Meu Deus, como o mundo parece extraordinariamente igual em
toda a parte!, pensou Katherine.
Em St. Mary Mead toda a gente tinha sempre coisas
que desejava dizer-me; aqui acontece a mesma coisa.
E eu que no tenho interesse nenhum em ouvir as mgoas dos
outros!
 Mas respondeu, delicadamente:
 - Faa o favor de falar.
 Como estavam a acabar de almoar, Ruth bebeu o
caf de um trago, levantou-se e, sem reparar sequer
que Katherine no comeara ainda a beber o seu, disse-lhe:
 - Venha ao meu compartimento.
 Os aposentos de Ruth Kettering constavam de dois
compartimentos simples, com uma porta de comunicao. A criada
magra que Katherine vira na estao de
Vitria encontrava-se no segundo, sentada muito direita
e a agarrar uma caixa de marroquim encarnado, com
as iniciais R. V. K. Mistress Kettering fechou a porta de
comunicao, sentou-se e Katherine sentou-se
tambm, ao seu lado.
 - Estou em apuros e no sei que fazer. Gosto de
um homem, gosto muito, mesmo. Ammo-nos quando
ramos novos, fomos brutal e injustamente separados
e agora reunimo-nos de novo.
 - Sim?
 - Vou... vou encontrar-me com ele. Calculo que
no aprovar, mas ignora as circunstncias. Meu marido  uma
pessoa impossvel, tratou-me grosseiramente.
 - Ah! - murmurou Katherine.
 - O que me custa tanto  ter enganado meu pai;
foi ele que se despediu de mim, na estao de Vitria.
Quer que me divorcie de meu marido e, naturalmente,
no faz a mnima ideia de que vou encontrar-me com... com o outro homem. Se soubesse consideraria a 
minha atitude de uma grande impudncia e idiotice.
 - E no concorda com ele?
 - Creio... creio que sim. - Olhou para as mos, que tremiam violentamente, e confessou: - Mas no posso 
retroceder.
 - Porqu?
 - Eu... enfim, est tudo combinado e despedaaria o corao dele.
 - No acredite - afirmou Katherine, com firmeza. - Os coraes so mais rijos do que supomos.
 - Pensaria que no tenho coragem nem fora de vontade.
 - O que vai fazer parece-me estpido, e a senhora deve ser da mesma opinio.
 - No sei... no sei... - gemeu Ruth Kettering, escondendo o rosto nas mos. - Desde que partimos de 
Vitria que sinto um pressentimento horrvel, como se em
breve fosse acontecer-me qualquer desgraa
 qual no posso escapar. - Agarrou convulsivamente
a mo de Katherine e acrescentou: - Deve julgar-me
doida por falar desta maneira, mas afirmo-lhe que vai acontecer uma tragdia!
 - No pense nisso, tente afastar semelhante ideia do pensamento e dominar-se - aconselhou-a a outra.
- Se quisesse, de Paris podia telegrafar ao seu pai e ele viria ter consigo.
 O rosto de Ruth iluminou-se.
 - Tem razo, podia telegrafar! Querido pai!  estranho, mas
s hoje avaliei quanto gosto dele... - Endireitou-se, limpou os olhos e murmurou: - Devo ter feito uma grande 
figura de idiota... Muito obrigada
por me ter ouvido... No sei porque fiquei neste estado de
nervosismo...
 Levantou-se e acrescentou:
 - J me sinto bem; creio que precisava apenas de
algum com quem desabafar. Digo-lhe sinceramente
que no compreendo, agora, porque fui to idiota.
 Katherine levantou-se tambm e redarguiu, tentando falar no
tom mais convencional possvel:
 - Ainda bem que se sente melhor! - Sabia perfeitamente que a
todas as confidncias se segue inevitvel embarao e por isso
teve o bom-senso de acrescentar: - Agora, se me permite,
preciso de voltar ao
meu compartimento.
 Encontrou-se no corredor ao mesmo tempo que a
criada saa da porta ao lado. A mulher olhou na direco de
Katherine por cima do ombro e reflectiu-se-lhe
no rosto uma expresso de intensa surpresa. Katherine
voltou-se instintivamente, mas quem quer que surpreendera a
criada entrara j para qualquer dos compartimentos, pois o
corredor estava deserto. Katherine
dirigiu-se para o seu lugar, na carruagem seguinte, e
ao passar pelo ltimo compartimento do corredor a
porta abriu-se e um rosto de mulher espreitou, por
momentos, e recolheu-se logo, vivamente. Era um rosto que no
se esquecia com facilidade, como verificaria
quando voltou a v-lo, uma cara bonita, oval e morena,
excessiva e exoticamente pintada. Teve a impresso de que j a
vira, algures.
 Chegou ao seu compartimento sem mais novidades

e sentou-se a reflectir nas confidncias que acabava de
ouvir. Quem seria a mulher do casaco de marta e como acabaria
a sua histria?
 Se evitei que cometesse uma tolice, fiz bom trabalho,
pensou. Mas v l saber-se...  do tipo de mulheres que so
obstinadas e egostas toda a vida e a
quem um bocadinho de sofrimento s pode fazer
bem... Enfim, creio que no voltarei a v-la; ela no
querer, com certeza, voltar a ver-me.  o que se ganha em
ouvir as confidncias dos outros: no querem
voltar a ver-nos.
 Desejou que no lhe reservassem o mesmo lugar ao
jantar, pois podia ser embaraoso para ambas. Apoiou
a cabea numa almofada, sentindo-se fatigada e vagamente
deprimida. Tinham chegado a Paris e a lenta
viagem em redor da ceinture, com as suas interminveis
paragens e esperas, era fatigante e aborrecida.
Quando chegaram  Gare de Lyon apeou-se, contente,
e passeou de um lado para o outro, no cais. A aragem
fresca era repousante, depois da atmosfera abafada do
comboio. Verificou, com um sorriso, que a sua amiga
do casaco de marta resolvia  sua maneira o problema
do possvel embarao do jantar: a criada recebia, pela
janela, um cesto com a refeio.
 Quando o comboio retomou a marcha e um toque
de sineta anunciou o jantar, Katherine dirigiu-se para
a carruagem-restaurante com uma agradvel sensao
de alvio. O seu companheiro de mesa era um homem
baixo, de aspecto distintamente estrangeiro, com um
bigode de guias rgidas e enceradas e cabea oval, que
tinha o hbito de inclinar um pouco para o lado. Katherine
levara um livro, para se entreter enquanto
comia, e reparou que o homem o olhava com certa
malcia.
 - Vejo, madame, que trouxe um romance policial.
Gosta do gnero?
 - Entretm-me - confessou Katherine.
 O homenzinho acenou com a cabea, em sinal de
absoluta compreenso, e comentou:
 - Vendem-se muito bem, segundo me consta.
Porque ser, hem, mademoiselle? Pergunto-lho como
estudioso da natureza humana...
 - Talvez proporcionem a quem os l a iluso de
viverem uma vida excitante - sugeriu, cada vez mais
divertida.
 - Sim, a resposta no deixa de ter certa lgica -- anuiu o
indivduo, em tom grave.
 - Claro que sabemos que tais coisas no acontecem na
realidade... - continuou Katherine, mas ele
interrompeu-a, vivamente:
 - s vezes, mademoiselle! s vezes! A mim aconteceram, a mim, que estou a falar-lhe!
 Katherine lanou-lhe um olhar rpido e interessado e o indivduo prosseguiu:
 - Um dia, quem sabe?, talvez a mademoiselle se
encontre tambm no corao de uma aventura.  tudo uma questo de acaso.
 - No creio que seja possvel. Nunca me acontecem coisas desse gnero.
 - E gostaria que acontecessem? - perguntou-lhe, inclinando-se para a frente, em tom confidencial.
 A pergunta perturbou Katherine, que susteve a respirao.
 - Talvez esteja a deitar-me a adivinhar - observou o homenzinho, enquanto limpava o garfo  toalha -,
mas parece-me que alberga em si um anelo por acontecimentos
interessantes. Eh bien, mademoiselle, toda a
minha vida observei uma coisa, uma grande verdade:
"Querer  poder! Quem sabe? - O rosto franziu-se-lhe numa
expresso cmica. - Pode estar-lhe reservado mais do que
supe.
 -  uma profecia? - perguntou-lhe Katherine, a
sorrir, enquanto se levantava da mesa.
 - Nunca fao profecias - declarou, pomposamente, o
homenzinho. -  verdade que tenho o hbito de nunca me
enganar, mas no me vanglorio disso.
Boas noites, mademoiselle, desejo-lhe que durma bem.

 Katherine regressou ao seu compartimento, divertida com a
conversa do seu pequeno vizinho de mesa.
Passou pela porta aberta do compartimento da mulher
do casaco de marta e viu o condutor a preparar a cama. A
passageira encontrava-se de p, junto da janela,
a olhar para fora. O segundo compartimento pareceu-lhe
deserto, visto pela porta de comunicao, com
malas e mantas amontoadas no banco. A criada no se
encontrava l.
 Encontrou a sua cama j preparada, e como estava
fatigada deitou-se e apagou a luz s nove e meia da
noite.
 Acordou em sobressalto, sem saber quanto tempo
dormira. Olhou para o relgio, mas verificou que parara.
Invadiu-a uma sensao de intenso mal-estar, que
se agravava de momento a momento. Acabou por se levantar, pr o roupo pelos ombros e sair para o 
corredor.
Todo o comboio parecia dormir. Katherine abriu a janela e sentou-se, aspirando o ar frio da noite e tentando 
em vo acalmar os seus desagradveis e
incompreensveis receios. A certa altura resolveu dirigir-se
ao fundo da carruagem e perguntar ao condutor
que horas eram, para acertar o relgio. Verificou, porm, que
a cadeira do homem estava deserta.
 Hesitou, um instante, e depois passou para a carruagem
seguinte. Olhou o corredor comprido e vagamente iluminado e
viu, surpreendida, um homem com
a mo apoiada na porta do compartimento da mulher
do casaco de marta. Ou melhor, pensou que era o
compartimento dela, mas provavelmente no era.
O homem permaneceu assim um momento ou dois, de
costas voltadas na sua direco, parecendo incerto e
hesitante. Depois virou-se lentamente e, com uma estranha
sensao de fatalismo, Katherine reconheceu o
indivduo que vira j duas vezes - uma no corredor
do Savoy Hotel e outra nos escritrios da Cook. De
sbito, o homem resolveu-se: abriu a porta, entrou e
fechou-a atrs de si.
 Uma ideia atravessou, rpida, o crebro de Katherine Grey;
seria aquele o homem de quem a outra mulher falara, aquele a
quem ia reunir-se?
 Mas disse a si mesma que estava a fantasiar, que
certamente se enganara no compartimento, e regressou
 sua carruagem.
 Cinco minutos depois a composio perdeu velocidade,
ouviu-se o silvo longo e lamentoso dos traves
Westinghouse e, passados poucos minutos, o comboio
parou em Lyon.



XI

ASSASSNIO


 Quando acordou, na manh seguinte, o sol brilhava
esplendorosamente. Foi almoar cedo, mas no
encontrou nenhum dos conhecidos da vspera. Ao
regressar ao compartimento encontrou-o j com o aspecto que
apresentava de dia, graas ao condutor, um
homem moreno, de bigode cado e rosto melanclico.
 - Madame tem sorte; o sol brilha - disse-lhe, delicadamente.
-  sempre uma decepo para os passageiros quando chegam numa
manh sombria.
 - Seria, sem dvida, uma decepo para mim.
 - Vamos bastante atrasados, madame - informou
o homem, antes de sair. - Avis-la-ei quando estivermos quase
a chegar a Nice.
 Katherine sentou-se  janela, encantada com a paisagem
banhada de sol. As palmeiras, o azul profundo
do mar e o amarelo brilhante das mimosas tinham todo o encanto
da novidade para uma mulher que durante catorze anos conhecera apenas os tristes Invernos da Inglaterra.

 Quando chegaram a Canes apeou-se e passeou no cais. Sentindo uma certa curiosidade acerca da mulher 
do casaco de marta, olhou para as janelas do seu
compartimento. Tinham ainda as cortinas corridas, e por
sinal eram as nicas em todo o comboio nessas condies. Ficou
um pouco intrigada e, ao passar, depois,
pelo corredor, notou que os dois compartimentos estavam ainda
fechados e s escuras. A dama do casaco de
marta no era nada madrugadora...
 Pouco depois o condutor veio inform-la de que
dali a minutos o comboio chegaria a Nice. Katherine
deu-lhe gorjeta e o homem agradeceu, mas pareceu
hesitar em ir-se embora. Miss Grey sups, ao princpio, que
talvez a gorjeta tivesse sido pequena, mas no
tardou a convencer-se de que se passava qualquer coisa mais
sria. O homem estava branco, tremia como
varas verdes e parecia ter apanhado um grande susto.
Olhava-a de uma maneira curiosa e a certa altura
perguntou-lhe, bruscamente:
 - Madame desculpar, mas tem amigos a esper-la em Nice?
 - Provavelmente. Porqu?
 Mas o condutor limitou-se a acenar com a cabea,
a murmurar qualquer coisa que ela no percebeu e a
afastar-se. Voltou apenas quando o comboio parou na
estao e comeou a passar-lhe a bagagem pela janela.
 Katherine ficou parada na estao, sem saber que
fazer, mas um jovem louro, de rosto ingnuo, aproximou-se e
perguntou-lhe:
 -  Miss Grey?
 Katherine confirmou, o jovem sorriu seraficamente
 e apresentou-se:
 - Sou Chubby, o marido de Lady Tamplin. Calculo que ela lhe
falou de mim, mas tambm se pode
 ter esquecido... Tem o seu billet de bagage? Este ano
 perdi o meu, numa viagem que fiz, e no imagina o
 sarilho que foi. Burocracia francesa!
 Katherine entregou-lhe o talo e ia a acompanh-lo
quando uma voz suave e insidiosa murmurou ao seu
ouvido:
 - S um momentinho, madame, por favor.
 Voltou-se e deparou-se-lhe um indivduo que supria a
insignificncia da sua estatura com a superabundncia de
gales dourados no uniforme.
 - H certas formalidades a cumprir - explicou o
personagem - e agradecia que madame tivesse a bondade de me
acompanhar. Normas da Polcia... - Levantou os braos, num
gesto de impotncia, e concluiu: - Absurdas, sem dvida, mas
inevitveis.
 Mr. Chubby Evans no compreendeu bem do que
se tratava, pois o seu francs era limitado.
 -  mesmo de franceses - resmungou, como um
daqueles obstinados patriotas ingleses que, tendo
assentado arraiais em determinado pas estrangeiro,
desprezam vivamente os nativos. - Esto sempre a
inventar contratempos idiotas! No entanto, nunca incomodaram
ningum na estao; isto  novo. Suponho
que tem de ir...
 Katherine acompanhou o indivduo que a chamara
e verificou, surpreendida, que a conduzia para um
desvio no qual se encontrava uma carruagem do Comboio Azul.
Convidou-a a subir e, precedendo-a no corredor, abriu a porta
de um dos compartimentos. No
interior encontrava-se um personagem fardado, de ar
pomposo, e um civil insignificante, que parecia um
manga-de-alpaca. O personagem pomposo levantou-se
delicadamente, inclinou a cabea e disse a Miss Grey:
 - Queira desculpar, madame, mas temos de atender a certas
formalidades... madame fala francs?
 - Razoavelmente, suponho, monsieur - respondeu, na referida
lngua.
 - ptimo. Queira sentar-se, madame, e permita
que me apresente: Monsieur Caux, comissrio da Polcia. Encheu o peito de ar, envaidecido, e Katherine 
tentou mostrar-se suficientemente impressionada.
 - Deseja ver o meu passaporte? - perguntou, estendendo-lho.

 O comissrio fitou-a com ateno, resmungou qualquer coisa e aceitou o documento.
 - Obrigado, madame. - Pigarreou e esclareceu:
- Mas o que na realidade desejo so certas informaes...
 - Informaes?
 O comissrio acenou com a cabea, devagar.
 - Acerca de uma senhora que viajou consigo e
com a qual almoou ontem.
 - Lamento, mas nada posso dizer-lhe a seu respeito.
Estabelecemos conversa durante o almoo,
mas  uma desconhecida para mim; nunca a tinha
visto antes.
 - No entanto, acompanhou-a ao compartimento
aps a refeio e estiveram a conversar algum tempo! observou o comissrio, secamente.
 - Sim,  verdade.
 - O comissrio pareceu esperar que acrescentasse
mais alguma coisa, olhou-a encorajadoramente e murmurou:
 - Ento, madame?
 - Ento, monsieur?
 - Talvez possa dar-me uma ideia dessa conversa.
 - Poderia, mas no vejo motivo para o fazer -- redarguiu,
sentindo-se muito britanicamente irritada;
aquele polcia estrangeiro parecia-lhe impertinente.
 - No v motivo? - abespinhou-se o francs. - Garanto-lhe,
madame, que existe um motivo, e forte!
 - Nesse caso, talvez queira expor-mo.
 O comissrio esfregou o queixo, pensativamente, e
por fim respondeu:
 - A razo  muito simples, madame: a senhora em
 questo foi esta manh encontrada morta, no seu com 
partimento.
 - Morta! - exclamou Katherine, em voz rouca.
 - Que foi? Ataque cardaco?
 - No - volveu o comissrio, em tom sonhador e
 meditativo. - No, madame... Foi assassinada.
 - Assassinada!
 - Compreende agora, madame, porque estamos
empenhados em obter todas as informaes possveis?
 - Mas com certeza a criada...
 - A criada desapareceu.
 - Oh! - Katherine calou-se, a tentar coordenar
os seus pensamentos.
 - O condutor viu-a a conversar com a vtima no
compartimento desta e, naturalmente, informou a Polcia do
facto. Foi por isso que a detivemos, na esperana de que
pudesse dar-nos algumas informaes.
 - Lamento muito, mas nem sequer sei o seu nome.
 - Sabemos que o seu apelido era Kettering, pois
est mencionado no passaporte e nos rtulos da bagagem. Se
ns...
 Bateram  porta. M. Caux franziu as sobrancelhas
e abriu-a cerca de quinze centmetros.
 - Que se passa? - perguntou, peremptrio. - Neste momento
no posso atender...
 A cabea oval do companheiro de jantar de Katherine surgiu
na abertura, com o rosto iluminado por
um sorriso.
 - Chamo-me Hercule Poirot.
 - N-no... no o Hercule Poirot? - gaguejou o
comissrio.
 - Esse mesmo - confirmou M. Poirot. - Lembro-me de, uma vez,
o ter visto na Suret de Paris,
mas naturalmente o senhor esqueceu-me...
 - De maneira nenhuma, monsieur, de maneira nenhuma! apressou-se a afirmar o comissrio. - Faa
favor de entrar. Tem conhecimento do...
 - Tenho, sim - interrompeu-o o detective. - Vim
perguntar se poderei ser til.
 - Ser uma honra - replicou prontamente o polcia. - Permita
que lhe apresente, Monsieur Poirot...
consultou o passaporte que conservava ainda na mo
- que lhe apresente madame... no, mademoiselle
Grey.

 Poirot sorriu a Katherine e comentou:
 - No acha estranho que as minhas palavras se tenham tornado
to depressa realidade?
 - Infelizmente, mademoiselle no nos pode dizer
muito... - lamentou o comissrio.
 - J expliquei que a pobre senhora era uma completa
desconhecida para mim - esclareceu Katherine.
 - Mas falou consigo, no falou? - perguntou-lhe
Poirot, docemente. - Decerto formou uma opinio?
 - Sim, creio que sim - respondeu, pensativa.
 - E essa impresso foi...
 -  verdade, mademoiselle, confie-nos as suas impresses! intrometeu-se o comissrio.
 Katherine reflectia, parecia-lhe que, se falasse,
trairia de certo modo a confiana que a pobre mulher
depositara nela. No entanto, com a terrvel palavra
assassnio a vibrar-lhe nos ouvidos, no ousou ocultar
nada; muito poderia depender da revelao do que
a vtima lhe contara. Por isso, repetiu palavra por palavra a
conversa que tivera com a morta.
 - Interessante - comentou o comissrio, olhando
para o detective. - No acha, Monsieur Poirot? Se
tem alguma relao com o crime... - calou-se, deixando a frase
incompleta.
 - No poder tratar-se de suicdio? - arriscou
Katherine, muito duvidosa.
 - No, mademoiselle, no se trata de suicdio.
A vtima foi estrangulada com um bocado de corda
preta.
 - Oh! - exclamou, com um calafrio.
 M. Caux abriu as mos, compungido, e confessou:
 - No  agradvel, no... Creio que os nossos ladres de
comboios so mais cruis do que no seu pas.
 -  horrvel!
 - Sem dvida, sem dvida... - aquiesceu, em
tom levemente apologtico. - Mas a mademoiselle tem
muita coragem. Mal a vi, disse para comigo: Mademoiselle tem
muita coragem! Por isso, ouso pedir-lhe que faa algo
mais... mais deprimente, mas garanto-lhe, absolutamente
necessrio.
 Katherine olhou-o, apreensiva, e o comissrio
abriu de novo as mos e esclareceu:
 - Tenho de pedir-lhe, mademoiselle, o favor de me
acompanhar ao compartimento contguo.
 - Tenho... tenho de ir? - perguntou, em voz
baixa.
 - Algum tem de identific-la, e como a criada
desapareceu... - tossiu significativamente e concluiu:
- A senhora parece ter sido a pessoa que mais lidou
com ela, no comboio.
 - Muito bem, se  preciso... - murmurou Katherine,
serenamente.
 Levantou-se e Poirot lanou-lhe um olhar de aprovao.
 - Mademoiselle  compreensiva - declarou. - Posso
acompanh-los, Monsieur Caux?
 - Encantado, meu caro Monsieur Poirot!
 Saram para o corredor e o comissrio abriu a porta
do compartimento da assassinada. As cortinas do lado
interior tinham sido levantadas at meio, para permitirem a
entrada de alguma luz, e a morta jazia na cama,
 esquerda, numa posio to natural que dir-se-ia
dormir apenas. Tinha a roupa puxada at acima e o
rosto voltado para a parede, de maneira que se viam
apenas os cabelos ruivos e ondulados. Suavemente,
M. Caux agarrou-lhe num ombro e voltou o corpo, para que lhe
vissem a cara. Katherine estremeceu e enterrou as unhas nas
palmas das mos: uma pancada
violenta desfigurara a tal ponto as feies que o
reconhecimento era quase impossvel. O prprio Poirot
soltou uma exclamao de espanto e perguntou:
 - Quando lhe fizeram isto? Antes ou depois da
morte?
 O mdico diz que foi depois.
 - Estranho - murmurou o detective, de testa
franzida. - Tenha coragem, mademoiselle, e observe-a bem pediu a Katherine. - Tem a certeza de que
foi com esta mulher que falou ontem, no comboio?
 Katherine possua bons nervos e, com um esforo
de vontade, conseguiu olhar longa e atentamente a assassinada.
Depois inclinou-se e pegou-lhe numa das
mos.
 - Tenho a certeza - respondeu, por fim. - O rosto est
irreconhecvel, mas a estatura e o cabelo correspondem. De
resto, reparei nisto - apontou uma pequena verruga existente
no pulso da vtima - enquanto
conversvamos.
 - Bon - aprovou Poirot. -  uma excelente testemunha,
mademoiselle. No restam, pois, dvidas
quanto  identidade. Contudo,  estranho... - Tinha
os olhos fixos na morta, as sobrancelhas franzidas e
um ar de grande perplexidade.
 M. Caux encolheu os ombros e comentou:
 - O assassino devia estar furioso, suponho.
 - Se a tivesse agredido primeiro, seria compreensvel; mas o
homem que a estrangulou aproximou-se
pela retaguarda e apanhou-a desprevenida - murmurou Poirot,
como se falasse consigo mesmo. - A vtima deve apenas ter tido
tempo para uma exclamao
rouca, um pequeno gorgolejar... E depois esta pancada brutal
na cara... Para qu? Esperaria que, se lhe
deixasse o rosto irreconhecvel, no seria identificada?
Ou odi-la-ia tanto que no resistiu a desfigur-la desta
maneira, mesmo depois de morta?
 Katherine estremeceu e o detective voltou-se para
ela, amavelmente.
 - Perdoe se estou a atorment-la, mademoiselle.
Para si, tudo isto  novo e terrvel; para mim, infelizmente,
 histria velha. Rogo-lhes a ambos apenas
mais um momento.
 O comissrio e Katherine encostaram-se  porta,
enquanto Poirot percorria rapidamente o compartimento.
Observou as roupas da morta, cuidadosamente
dobradas ao fundo da cama, o grande casaco de peles
pendurado num cabide e o chapelinho vermelho atirado
descuidadamente para a rede. Em seguida entrou
no compartimento contguo, aquele onde Katherine
vira a criada sentada e onde a cama no fora armada.
Viam-se trs ou quatro mantas em cima do banco,
uma caixa de chapus e duas malas.
 - Esteve aqui ontem - disse Poirot, voltando-se
subitamente para Katherine. - Nota alguma mudana ou alguma
falta?
 Katherine observou com cuidado ambos os compartimentos,
antes de responder:
 - Falta uma caixa de marroquim encarnado, com
as iniciais R. V. K. Tanto podia ser uma caixinha de
toucador como um grande guarda-jias. Quando a vi
estava nas mos da criada.
 - Ah! - exclamou Poirot.
 - Mas sem dvida... - murmurou Katherine,
hesitante. - Claro que no percebo nada destas coisas, mas
parece-me simples, uma vez que a criada e o
guarda-jias desapareceram.
 - Quer dizer que foi a criada a autora do roubo?
No, mademoiselle, h uma boa razo que anula essa
hiptese.
 - Qual?
 - A criada ficou em Paris. - O comissrio voltou-se para
Poirot e acrescentou em tom confidencial:
- Gostaria que ouvisse pessoalmente a histria do
condutor;  muito sugestiva.
 - Tenho a certeza de que mademoiselle tambm
gostaria de a ouvir - afirmou Poirot. - No se ope,
comissrio?
 - No - redarguiu o polcia, pouco satisfeito. - Se
acha conveniente, Monsieur Poirot... J acabou aqui?
 - Creio que sim... Um momentinho!
 Pegou numa das mantas em que estivera a mexer e
levou-a para a janela. Olhou atentamente e retirou
qualquer coisa, com a ponta dos dedos.
 - Que ? - perguntou M. Caux, interessado.

 - Quatro cabelos ruivos. - Debruou-se sobre a
cabea da morta e acrescentou: - So da vtima.
 - Que tem isso? Atribui-lhes importncia?
 Poirot atirou a manta para o banco e perguntou:
 - Quem sabe o que tem importncia e o que no
tem? Por enquanto,  impossvel diz-lo. Mas impe-se que
anotemos cuidadosamente todos os pormenores, por nfimos que paream.
 Regressaram ao primeiro compartimento, onde pouco depois se lhes juntou o condutor do comboio.
 - Chama-se Pierre Michele? - perguntou-lhe o comissrio.
 - Sim, senhor comissrio.
 - Gostaria que repetisse a este senhor - apontou Poirot - a histria que me contou, acerca do acontecido 
em Paris.
 - Muito bem, senhor comissrio. Depois da paragem na Gare de Lyon dirigi-me ao compartimento para 
fazer as camas, convencido de que madame estaria a jantar; mas ela mandara vir um cesto com comida.
Disse-me que, em virtude de ter sido obrigada a deixar a
criada em Paris, s precisava de armar uma cama. Levou o cesto
com o jantar para o compartimento
contguo, para eu armar a cama, e depois recomendou-me que no
a acordasse cedo, pois gostava de dormir at tarde.
Respondi-lhe que compreendia e desejou-me boas noites.
 - Mas voc no entrou no compartimento contguo?
 - No, senhor.
 - Nesse caso, reparou se entre a bagagem se encontrava uma
caixa de marroquim encarnado?
 - No, senhor, no reparei.
 - Seria possvel encontrar-se um homem escondido no segundo
compartimento?
 - A porta estava meio aberta - respondeu o condutor, depois
de pensar um bocado. - Se um homem
se encontrasse atrs dela, eu no o veria, mas a senhora
t-lo-ia visto perfeitamente, quando entrou.
 - Exactamente - concordou Poirot. - Tem mais
alguma coisa a dizer-nos?
 - Creio que  tudo, senhor; no me lembro de
mais nada.
 - E que aconteceu esta manh? - inquiriu o detective.
 - Como madame recomendara, no a acordei. S
quando estvamos a chegar a Canes me atrevi a bater 
porta e, como no respondesse, abri. A senhora estava
deitada e parecia dormir, mas quando lhe toquei num
ombro para a acordar...
 - Viu o que acontecera - concluiu Poirot. - Trs bien. Creio saber tudo quanto me interessa.
 - Espero no ser culpado de qualquer negligncia, senhor comissrio - murmurou o condutor, assustado. - 
Logo havia de acontecer uma coisa destas
no Comboio Azul!  horrvel!
 - Tranquilize-se - respondeu-lhe o comissrio.
- Faremos tudo para conservar o ocorrido o mais secreto possvel, quanto mais no seja no interesse da 
justia. No o acho culpado de negligncia nenhuma.
 - E o senhor comissrio dir isso  Companhia?
 - Com certeza, com certeza - prometeu M. Caux,
impaciente. - Mas basta, por agora.
 O condutor retirou-se.
 - De acordo com o parecer mdico, a senhora deve ter sido
morta antes de o comboio chegar a Lyon -- informou o
comissrio. - Quem teria sido, ento, o
assassino? A julgar pelo que mademoiselle nos disse,
parece evidente que a vtima devia reunir-se, em qualquer
ponto do percurso, ao tal homem de quem falou.
O facto de se ter livrado da criada parece, alis,
significativo. Ter o homem entrado no comboio em Paris
e t-lo- ela ocultado no compartimento contguo? Se
assim foi,  possvel que tenham discutido e que ele a
assassinasse num impulso de clera.  uma possibilidade. Mas
h outra, e esta coaduna-se melhor com a
minha maneira de pensar: o assassino foi um ladro de

 comboios que viajava na composio, percorreu o corredor sem que o condutor o visse, matou-a e fugiu 
com a caixa de marroquim encarnado, a qual provavelmente continha jias de certo valor. Segundo todas as
 probabilidades saiu do comboio em Lyon, e por isso
 pedimos j telegraficamente pormenores completos de
 quem quer que vissem sair do comboio.
 - Mas o assassino tambm pode ter vindo at Nice - sugeriu Poirot.
 - Sem dvida, mas isso seria um procedimento
 muito temerrio.
 Poirot deixou passar um ou dois minutos e s ento
perguntou:
 - A ter-se dado o ltimo caso, acha que o assassino era um
vulgar ladro de comboios?
 - Depende - replicou o comissrio, encolhendo
 os ombros. - Precisamos de encontrar a criada; 
 possvel que tenha consigo a caixa de marroquim. Se
, tiver, o homem de quem a vtima falou a mademoiselle
 deve estar envolvido no caso e, ento, parece-me que
 temos um crime passional. Quanto a mim, porm, parece-me
mais aceitvel a hiptese do roubo. Estes celerados tm-se
tornado, ultimamente, muito atrevidos.
 - Mademoiselle, no viu nem ouviu nada durante a noite? - perguntou, de sbito, Poirot a Katherine.
 - Nada.
 - Creio que no precisamos de demorar esta senhora mais tempo, comissrio.
 O polcia concordou, com um aceno de cabea, e perguntou:
 - Importa-se de deixar-nos a sua morada?
 Katherine indicou-lhes a vila de Lady Tamplin e
 Poirot inclinou-se, numa pequena vnia.
 - Permite que volte a v-la, mademoiselle? Ou
 tem tantos amigos que ficar com o tempo todo tomado?
 - Pelo contrrio - respondeu Katherine -, sobrar-me- muito
tempo e ficarei encantada por voltar a
 v-lo.
 - Excelente - replicou Poirot, com um sorriso
cordial. - Este ser um roman olicier  nous!
Investig-lo-emos juntos.



XII

NA VILA MARGUERITE


 - Ento estiveste, realmente, no mago da questo! exclamou Lady Tamplin, com uma pontinha
de inveja. - Minha querida, que emocionante! -- Abriu muito os
olhos de porcelana azul e soltou um
suspirozinho.
 - Um assassnio a srio! - exclamou Mr. Evans,
delicado.
 - Claro que Chubby no fez ideia do que se tratava prosseguiu Rosalie Tamplin. - No conseguiu
imaginar o que a Polcia te quereria. Minha cara, que
oportunidade! Suponho... sim, acho que devemos tirar qualquer
partido disto! - e um olhar calculista
turbou-lhe a ingenuidade dos olhos azuis.
 Katherine sentia-se pouco  vontade. Acabavam de
almoar e ela observou, sucessivamente, as trs pessoas
sentadas  mesa: Lady Tamplin, frtil em estratagemas
prticos; Mr. Evans, sorridente e cheio de
ingnuo contentamento; e Lenox, com um sorriso estranho e
dbio no rosto moreno.
 - Que sorte maravilhosa! - continuou Chubby,
ainda fascinado pelo que ouvira. - Quem me dera ter
ido consigo e visto todas as provas! - Falava em tom
pesaroso e infantil.
 Katherine no disse nada. A Polcia no lhe pedira segredo e
era evidentemente impossvel tentar
ocultar a verdade dos factos, mas gostaria de ter podido
calar-se.

 - Sim - disse Lady Tamplin, como se acordasse
bruscamente de um sonho -, creio que devemos fazer
alguma coisa. Um pequeno relato inteligentemente redigido, o
depoimento de uma testemunha ocular, com
um toque feminino... Por exemplo: Como conversei
com a vitima sem pensar sequer...
 - Parvoce! - interrompeu Lenox.
 - No fazem ideia do que os jornais pagam por
coisinhas dessas - afirmou Lady Tamplin, em voz
suave e vida. - Escritas, evidentemente, por algum
de situao social impecvel. Creio que no gostarias
de escrev-la tu prpria, Katherine, mas d-me os tpicos e eu
redigirei a histria em teu nome. Monsieur
de Haviland  um amigo especial meu, temos um
entendimentozinho... Que te parece a ideia, Katherine?
 - Prefiro no me meter em tal coisa - replicou a
interpelada, francamente.
 Lady Tamplin ficou desconcertada com a inflexvel
recusa, suspirou e resolveu pedir mais pormenores do
caso.
 - Disseste que era uma mulher que dava nas vistas, no
disseste? Pergunto a mim mesma quem seria... No ouviste o seu
nome?
 - Mencionaram-no na minha presena, mas no
me lembro. Estava muito transtornada, como deves
calcular.
 - Fao ideia - disse Mr. Evans. - Deve ter sido
um choque terrvel.
 Resta saber se Katherine diria o nome da vtima,
mesmo que dele se lembrasse. O implacvel interrogatrio de
Lady Tamplin comeava a irrit-la. Lenox,
que era observadora  sua maneira, compreendeu-o e
ofereceu-se para mostrar o quarto  prima. L a deixou,
dizendo-lhe antes de sair:
 - No ligue importncia  minha me; se pudesse
ganhar algum dinheiro  custa da prpria av moribunda, no
hesitaria!
 A rapariga voltou  sala de jantar e encontrou a
me e o padrasto a falarem da recm-chegada.
 -  bastante apresentvel - dizia Lady Tamplin
- e veste bem. Aquele modelo cinzento  o mesmo
que Gladys Cooper usou em Palmeiras no Egipto.
 - Reparaste nos seus olhos? - perguntou Mr.
Evans.
 - Deixa os olhos da rapariga em paz, Chubby! -- ripostou a
mulher, irritada. - Estamos a falar de coisas que realmente
interessam.
 - Ah, com certeza! - concordou Mr. Evans, recolhendo  sua
concha.
 - No me pareceu muito... malevel - observou
Rosalie Tamplin, com certa hesitao na escolha do
termo apropriado.
 - Tem todos os instintos de uma verdadeira senhora, como
dizem nos livros - comentou Lenox,
com um sorriso velhaco.
 - Vistas estreitas... - murmurou a me. - Mas
isso era inevitvel, nas circunstncias.
 - Calculo que fars o impossvel para lhas alargar,
mas perders o teu tempo - afirmou a rapariga.
- Ainda h bocado, como certamente reparaste, fincou os ps,
atirou as orelhas para trs e recusou ceder.
 - Seja como for, no me parece mesquinha - prosseguiu Lady
Tamplin, em tom esperanoso. - Certas
pessoas, quando se apanham com dinheiro, atribuem-lhe
demasiada importncia.
 - Oh, no ters dificuldade em lhe apanhar o que
quiseres! - afirmou Lenox. - No fim de contas,  isso apenas
que interessa, no achas? Foi para isso que
veio.
 -  minha prima! - declarou Lady Tamplin,
com dignidade.
 - Prima, hem? - comentou Mr. Evans, levantando-se. - Creio
que posso trat-la por Katherine, no
achas?
 - A maneira como a tratares no ter importncia
nenhuma, Chubby - redarguiu a mulher.
 - ptimo, ento ser Katherine. - E acrescentou,
esperanado: - Achas que saber jogar tnis?

 - Claro que no! J te disse que foi dama de companhia e as
damas de companhia no jogam tnis nem
golfe. Talvez joguem croquet, mas sempre ouvi dizer
que passam a maior parte do tempo a dobar l e a dar
banho a ces.
 - Meu Deus! - exclamou Mr. Evans, estupefacto. - Isso 
verdade?
 Lenox voltou ao quarto de Katherine e perguntou-lhe, por
delicadeza:
 - Posso ajud-la nalguma coisa?
 Katherine respondeu que no e a rapariga sentou-se na borda
da cama, a observ-la pensativamente.
 - Porque veio? - perguntou-lhe, por fim. - Quero dizer,
porque veio para nossa casa? No somos do
seu gnero.
 - Oh, estava ansiosa por entrar na sociedade!
 - No seja idiota! - redarguiu Lenox, ao v-la
sorrir. - Percebeu muito bem o que eu quis dizer.
No  nada, mas nada, como eu imaginei que seria.
Trouxe roupas decentes - suspirou e concluiu: - As
boas roupas no me servem de nada, pois nasci desajeitada...  
uma pena, alis, pois adoro-as.
 - Tambm eu - confessou Katherine. - Mas
at agora no me valeu de muito ador-las. Acha este
vestido bonito?
 Discutiram vrios modelos, com artstico fervor, e
de sbito Lenox afirmou:
 - Simpatizo consigo. Vim c acima para lhe dizer
que no se deixasse levar pela minha me, mas creio
que no  preciso.  uma pessoa muito sincera, muito
justa e todas essas coisas, mas no  idiota. Diabo, que
ser agora?
 A voz de Lady Tamplin chamava-a, do vestbulo:
 - O Derek telefonou, Lenox. Quer vir jantar connosco esta
noite. Achas bem? Quero dizer, no temos
nada complicado, como codornizes, por exemplo?
 Lenox tranquilizou-a e voltou para junto de Katherine com ar
menos sombrio.
 - Ainda bem que o Derek vem c! - exclamou.
- Gostar dele.
 - Quem  Derek?
 - E filho de Lorde Leconbury e casado com uma
americana rica. As mulheres perdem a cabea por ele.
 - Porqu?
 - Ora, pelos motivos habituais: bonito e um patifrio muito
razovel... Toda a gente perde a cabea
por ele.
 - Voc tambm?
 - s vezes... Outras penso que gostaria de casar com um cura simptico, viver na provncia e cultivar 
trepadeiras... - Fez uma pausa, antes de acrescentar:
- Preferia que o cura fosse da Irlanda, pois assim poderia
caar.
 Mas, passado um minuto ou dois, voltou ao primeiro tema:
 - Derek  estranho... Toda aquela famlia , alis,
um pouco amalucada... jogadores inveterados, compreende?
Noutros tempos costumavam apostar as
mulheres e as propriedades e fazer coisas ainda mais
doidas, s pelo amor da aventura. Derek daria um
perfeito ladro de estrada, donairoso e alegre... Encaminhou-se para a porta e concluiu: - Desa quando
lhe apetecer.
 Sozinha, Katherine entregou-se aos seus pensamentos. Por
enquanto, sentia-se pouco  vontade e
perturbada pelo ambiente que a rodeava. A sinistra
descoberta do comboio e a maneira como os seus novos amigos
haviam recebido a triste notcia feriam-lhe
a susceptibilidade. Pensou longamente na pobre mulher
assassinada. Lamentava Ruth, mas no podia afirmar
com sinceridade que tivesse gostado dela. Adivinhara
sem dificuldade o implacvel egosmo que constitua a
nota principal da sua personalidade e que a repelira.
 Sentira-se um bocadinho ferida com a maneira como a outra a
despedira, quando j no precisava dela,

e embora tivesse a certeza de que a desconhecida tomara uma
deciso, gostaria de saber qual fora. Fosse
qual fosse, porm, a morte metera-se de permeio e
tornara inteis e sem significado todas as decises. Era
estranho que tivesse sido assim e que um crime brutal
houvesse assinalado a fatdica viagem. De sbito, porm,
lembrou-se de um pequeno facto que talvez devesse ter
comunicado  Polcia, mas que no momento
no lhe ocorrera. Teria, na realidade, alguma importncia?
Parecera-lhe ver um homem entrar no compartimento da vtima,
mas podia muito bem ter-se enganado, podia tratar-se do
compartimento seguinte e o
homem no ser nenhum ladro... Recordava-se perfeitamente
dele, tal como o vira nas duas ocasies precedentes - uma vez
no Savoy e outra no escritrio da
Cook. Enganara-se, com certeza; o homem no entrara
no compartimento e talvez tivesse sido uma sorte no
se lembrar de informar a Polcia do pormenor. Quem
sabe o mal que lhe teria feito.
 Foi juntar-se aos outros, no terrao, e enquanto
admirava o Mediterrneo azul, atravs dos ramos das
mimosas, e ouvia distraidamente a tagarelice de Lady
Tamplin, sentia-se satisfeita por ter vindo. Aquilo era
muito melhor do que St. Mary Mead!
  tardinha vestiu o vestido a que a modista chamara soupir
d'automne e, depois de sorrir  imagem reflectida no espelho,
desceu novamente, com a primeira
sensao de timidez da sua vida.
 A maioria dos convidados de Lady Tamplin tinham
j chegado, e como o barulho era condio essencial
das reunies da anfitri, a algazarra era j ensurdecedora.
Chubby correu para Katherine, meteu-lhe um
cocktail na mo e tomou-a sob a sua proteco...
 - At que enfim chega, Derek! - exclamou Lady
Tamplin, quando a porta se abriu e entrou o ltimo
convidado. - Agora podemos, finalmente, comer. Estou
esfomeada!
 Katherine olhou para o recm-chegado e estremeceu. Aquele
era, ento, Derek! Singularmente, no se
surpreendia; sempre tivera a ntima certeza de que,
um dia, reencontraria o homem que vira j trs vezes,
graas a to curiosa srie de coincidncias. Pareceu-lhe
que ele tambm a reconhecera, pois interrompeu bruscamente o
que dizia a Lady Tamplin e s com esforo
prosseguiu. Ao jantar encontrou-se sentada ao seu
lado.
 - Sabia que havia de reencontr-la em breve -- observou
Derek, com um sorriso simptico -, mas
nunca sonhei que fosse aqui. Estava escrito que nos
voltaramos a encontrar, sabe? Uma vez no Savoy, outra na
Cook... e no h duas sem trs! No me diga
que no se lembra de mim nem que no reparou na
minha pessoa... Garanto que, pelo menos, fingiu que
reparava em mim.
 - E reparei, de facto. No entanto, esta no  a
terceira vez que o vejo, mas, sim, a quarta. Vi-o tambm no
Comboio Azul.
 - No Comboio Azul!
 Um no sei qu de indefinvel transformou a sua
atitude; foi como se lhe tivesse acontecido um revs.
Logo perguntou, porm, descuidado:
 - Que alarido foi aquele, esta manh? Morreu algum, no
morreu?
 - Morreu, morreu algum - respondeu Katherine, devagar.
 - Ningum devia morrer num comboio - observou Derek, em tom
petulante. - Causa uma srie de
complicaes legais e internacionais e d ao comboio
uma desculpa para chegar ainda mais atrasado do que
habitualmente.
 - Mister Kettering... - chamou uma robusta senhora
americana, sentada na sua frente, com a pronncia deliberada
da sua nacionalidade. - Creio que
se esqueceu de mim, Mister Kettering, e eu que o
considerava um homem to encantador!

 Derek inclinou-se para a frente, a fim de lhe responder, e
Katherine sentiu-se quase tonta. Kettering!
Era esse o nome, lembrava-se agora! Mas que irnica e
estranha situao! Ali estava um homem que vira entrar no
compartimento onde a mulher viajava, na vspera, um homem que
a deixara viva e de sade...
E agora jantava ao seu lado, inconsciente da tragdia
que sobre ela se abatera... Sim, pois no lhe restavam
dvidas de que ele de nada sabia.
 Um criado aproximou-se de Derek, estendeu-lhe
uma carta e murmurou algumas palavras, muito baixo.
Derek pediu licena a Lady Tamplin, abriu-a e no rosto
estampou-se-lhe uma expresso de puro espanto.
 -  extraordinrio! - exclamou, olhando a anfitri. Lamento, Rosalie, mas tenho de deix-la.
O prefeito da Polcia deseja falar-me imediatamente,
embora no possa imaginar porqu.
 - Os seus pecados foram descobertos - comentou Lenox.
 - Talvez. Estou convencido de que se trata de
qualquer idiotice, mas no tenho outro remdio seno
correr  Prefeitura. Como se atreveu o indivduo a
interromper-me o jantar? Deve tratar-se, com certeza,
de assunto muito srio, para se atrever...
 Riu-se, empurrou a cadeira e levantou-se da mesa.



XIII

VAN ALDIN RECEBE UM TELEGRAMA


 Na tarde de 15 de Fevereiro descera sobre Londres
um nevoeiro espesso e amarelo. Rufus Van Aldin encontrava-se
na sua suite no Savoy e tentava vingar-se
das condies atmosfricas trabalhando a dobrar, o
que encantava Knighton. Ultimamente tivera dificuldade em
levar o patro a concentrar-se no trabalho e
quando se atrevia a insistir recebia uma resposta seca.
Mas agora Van Aldin parecia mergulhar a fundo nas
tarefas que o aguardavam e o secretrio aproveitava o
melhor possvel a oportunidade. Sempre diplomtico,
enterrava as esporas com tanta subtileza que Van Aldin nem
suspeitava.
 No entanto, no meio de toda a sua absoro nos assuntos
comerciais, um pequeno facto perturbava o esprito de Van
Aldin. Uma observao casual de Knighton, feita
inconscientemente, era a culpada da angstia
que, lentamente, se apoderava do americano. Por fim,
quase maquinalmente, teve de render-se  sua insistncia.
 Escutava, com o habitual ar atento, quanto Knighton dizia,
mas na realidade o seu crebro no retinha
uma nica palavra. Acenou, porm, distraidamente, e
o secretrio procurou outro papel.
 - Importa-se de me repetir isso, Knighton? -- perguntou-lhe
o patro, de sbito.
 - Refere-se a isto? - indagou Knighton, pegando
numa folha coberta de caligrafia apertada.
 - No, no. Referia-me ao que me disse a respeito de ter
visto a criada de Ruth em Paris, a noite passada. No
compreendo, deve ter-se enganado.
 - No me enganei, pois falei com ela.
 - Conte-me tudo outra vez.
 Knighton fez-lhe a vontade:
 - Depois de arrumar o assunto com Bartheimers
voltei ao Ritz, a fim de preparar as malas antes do jantar,
para apanhar o comboio das nove na Gare du
Nord. Na recepo encontrava-se uma mulher na qual
reconheci a criada de Mistress Kettering, aproximei-me e
perguntei-lhe se a senhora estava no hotel.
 - Sim, sim, naturalmente - interrompeu-o, impaciente, Van
Aldin. - E ela respondeu-lhe que Ruth
seguira para a Riviera e a mandara aguardar ordens no
Ritz?

 - Exactamente, senhor.
 -  estranho, muito estranho mesmo... A menos
que a mulher tenha sido impertinente ou coisa parecida.
 - Nesse caso, Mistress Kettering ter-lhe-ia pago determinada
quantia e mandado regressar a Inglaterra -- objectou Knighton.
- No me parece que a tivesse
mandado para o Ritz.
 - Tem razo - murmurou o milionrio -, no
parece lgico.
 Ia acrescentar mais qualquer coisa, mas deteve-se.
Estimava Knighton e confiava nele, mas no lhe ficaria bem
discutir com ele a vida privada da filha. A falta de franqueza
de Ruth magoara-o e a informao casual dada pelo secretrio
no o tinha ajudado nada a
libertar-se dos desagradveis pressentimentos que o
angustiavam.
 Porque se livrara Ruth da criada, em Paris? Que
possvel objectivo ou motivo a levara a proceder assim?
 Pensou, por momentos, nas curiosas partidas do
acaso. Jamais ocorreria a Ruth que a primeira pessoa
que a sua criada encontraria em Paris seria o secretrio
do pai... Mas tudo podia acontecer e era assim que se
descobriam muitas coisas.
 O ltimo pensamento f-lo estremecer, embora lhe
tivesse ocorrido com absoluta naturalidade. Haveria,
ento, alguma coisa para descobrir? Doa-lhe fazer semelhante
pergunta a si mesmo, pois sabia de cincia
certa qual era a resposta: Armand de la Roche.
 Custava-lhe que uma filha sua se deixasse ludibriar
por semelhante indivduo, mas tinha de admitir que
Ruth se encontrava em boa companhia, pois outras
mulheres bem-nascidas e inteligentes tinham sucumbido com
igual facilidade aos encantos do conde. Os homens percebiam-no
 lgua, mas as mulheres no.
 Procurou uma frase susceptvel de afastar qualquer suspeita
que o secretrio pudesse albergar e
disse:
 - Ruth muda constantemente de ideias, sem mais
nem menos... - E perguntou, em tom despreocupado: - A criada
no indicou qualquer... razo para essa mudana de planos?
 Knighton teve o cuidado de responder em voz o
mais natural possvel:
 - Disse-me que Mistress Kettering encontrara
uma pessoa amiga, inesperadamente.
 - Ah!
 Os ouvidos experientes do secretrio captaram a
nota de tenso oculta sob a exclamao casual.
 - Compreendo... Homem ou mulher?
 - Creio que ela me disse um amigo, senhor.
 Van Aldin acenou com a cabea. Confirmavam-se
os seus piores receios. Levantou-se e comeou a andar
de um lado para o outro, hbito de quando se sentia inquieto. Incapaz de conter por mais tempo os seus
sentimentos, explodiu:
 - Uma coisa que nenhum homem pode fazer  obrigar uma mulher a dar ouvidos  razo!  como se
no tivesse senso de espcie nenhuma! E h quem alardeie
prospias acerca do instinto feminino, quando 
sabido em todo o mundo que uma mulher  o alvo
mais seguro para as manobras de qualquer vigarista!
No h uma em dez que reconhea um patife quando
o encontra! Qualquer tipo bem-parecido e de falinhas
mansas as ludibria! A minha vontade...
 Interrompeu-o um mandarete com um telegrama.
Van Aldin abriu-o e o seu rosto tornou-se da cor da
cal. Agarrou-se s costas de uma cadeira, para se amparar, e
fez sinal ao rapaz para sair.
 - Que aconteceu, Mister Van Aldin? - perguntou Knighton,
levantando-se, inquieto.
 - Ruth! - exclamou o milionrio, em voz rouca.
 - Mistress Kettering?
 - Morta!
 - Um acidente no comboio?
 Van Aldin abanou a cabea.

 - No... parece que tambm foi roubada. No
usam a palavra, Knighton, mas a minha pobre filha
foi assassinada.
 - Oh, meu Deus!
 O americano bateu com o indicador no telegrama e
acrescentou:
 - Isto  da Polcia de Nice. Tenho de seguir para
l no primeiro comboio.
 Eficiente como sempre, Knighton olhou para o relgio e
informou:
 - Parte um s cinco horas, da estao de Vitria.
 - Ir comigo, Knighton. Informe Archer, o meu
criado, e prepare as suas coisas. Trate de tudo. Quero
ir primeiro  Curzon Street.
 O telefone tocou e o secretrio levantou o auscultador.
 - Quem fala?
 Passado um momento, voltou-se para Van Aldin e
disse-lhe:
 - Mister Goby, senhor.
 - Goby? No posso atend-lo agora... Espere, temos ainda
bastante tempo. Diga que o mandem subir.
 Van Aldin era um homem forte; por isso, recuperara a calma e
ningum notaria qualquer diferena na
maneira como cumprimentou Mr. Goby.
 - Disponho de pouco tempo, Goby. Tem alguma
coisa importante para me comunicar?
 Mr. Goby tossiu, antes de responder:
 - Averiguei os movimentos de Mister Kettering,
como me recomendou.
 - E ento?
 - Mister Kettering partiu ontem de manh de
Londres para a Riviera.
 - O qu?!
 Qualquer coisa na sua voz devia ter assustado
Mr. Goby, pois o digno cavalheiro esqueceu a sua norma de
nunca olhar para a pessoa com quem falava e
olhou sorrateiramente o milionrio.
 - Em que comboio partiu ele? - inquiriu Van
Aldin.
 - No Comboio Azul. - Mr. Goby tossiu novamente e
acrescentou, de olhos fixos no relgio da chamin: Mademoiselle Mirelle, a bailarina do Parthenon, partiu 
no
mesmo comboio.



XIV

A HISTRIA DE ADA MASON


 - No tenho palavras para exprimir-lhe, monsieur,
o nosso horror, a nossa consternao e a sinceridade
dos nossos psames - disse M. Carrge, o juiz de instruo, a
Van Aldin.
 M. Caux, o comissrio, emitiu pequenos sons guturais, que
pretendiam exprimir concordncia, e Van
Aldin afastou a consternao, o horror e os psames
com um gesto brusco. Encontravam-se no gabinete do
juiz de instruo, em Nice, e alm deles estava presente uma
quarta pessoa, que falou a seguir:
 - Monsieur Van Aldin deseja aco, aco rpida e
eficiente.
 - Ah! - exclamou o comissrio. - Ainda no o
apresentei... Monsieur Van Aldin, apresento-lhe Monsieur
Hercule Poirot, de quem por certo tem ouvido
falar. Embora tenha abandonado h alguns anos a sua
profisso, o seu nome  ainda smbolo de um dos
maiores detectives vivos.
 - Prazer em conhec-lo, Monsieur Poirot - disse
Van Aldin, readoptando maquinalmente uma frmula
que havia muito esquecera. - Abandonou a sua profisso?
 -  verdade, monsieur. Agora gozo a vida - respondeu o
homenzinho, com um gesto grandloquo.
 - Quis o acaso que Monsieur Poirot viajasse

tambm no Comboio Azul - explicou o comissrio - e
tivesse a amabilidade de nos ajudar com a sua vasta
experincia.
 O milionrio fitou o detective com ateno e disse,
inesperadamente:
 - Sou um homem muito rico, Monsieur Poirot.
Costuma dizer-se que os ricos esto convencidos de
que podem comprar tudo e todos; no  verdade. Sou
um grande homem,  minha maneira, e um grande
homem pode pedir um favor a outro grande homem.
 - Muito bem dito, Monsieur Van Aldin - comentou Poirot,
inclinando aprovadoramente a cabea. - Estou ao seu inteiro
dispor.
 - Obrigado - agradeceu o americano. - Acrescento apenas que
recorra a mim quando quiser, pois
no me achar ingrato. Agora, cavalheiros, ao trabalho.
 - Tenciono interrogar a criada, Ada Mason -- disse M.
Carrge. - Creio que veio consigo?
 - Sim, fomos busc-la, ao passarmos por Paris.
Ficou muito transtornada ao saber da morte da senhora, mas
conta a sua histria de maneira coerente.
 - Vamos ouvi-la, ento - decidiu M. Carrge.
 Tocou a campainha que tinha na secretria e minutos depois Ada Mason entrou no gabinete, 
correctamente vestida de preto e com a ponta do nariz vermelha. Trocara as luvas cinzentas, de viagem, por 
outras
de camura preta. Olhou nervosamente  sua volta, mas pareceu tranquilizar-se ao ver o pai da patroa.
O juiz de instruo, que se orgulhava da afabilidade
do seu trato, fez o possvel para que se sentisse  vontade,
no que foi auxiliado por M. Poirot, que actuou
como intrprete e cuja cordialidade acalmou a inglesa.
 - Chama-se Ada Mason, no  verdade?
 - Ada Beatrice  o meu nome de baptismo, senhor - esclareceu
Mason, minuciosa.
 - Muito bem. Compreendemos, Mason, que tudo
quanto aconteceu foi muito deprimente para si.
 - Oh, sim, muito! Trabalhei para muitas senhoras, creio ter
dado sempre satisfao e nunca sonhei
que pudesse acontecer uma coisa destas a uma patroa
minha.
 - Com certeza, com certeza - murmurou M. Carrge.
 - Naturalmente tenho lido notcias de casos semelhantes nos
jornais de domingo e sempre ouvi dizer
que os comboios estrangeiros... - calou-se bruscamente, ao
lembrar-se de que os cavalheiros com quem
falava eram da mesma nacionalidade dos comboios...
 - Vamos ao que interessa - interveio M. Carrge. - Quando
partiram de Londres no tinham a inteno de a deixar em
Paris, pois no?
 - No, senhor. Tencionvamos ir direitas a Nice.
 - J alguma vez estivera no estrangeiro com a sua

patroa?
 - No, senhor. Era sua criada havia apenas dois meses.
 - Notou-lhe alguma diferena, quando iniciaram a viagem?
 - Pareceu-me um pouco preocupada e inquieta
e... enfim, irritvel e difcil de contentar.
 - Diga-me agora, Mason, quando soube que ficaria em Paris?
 - Foi num local a que chamam Gare de Lyon, senhor. A minha senhora tencionava apear-se e passear pelo 
cais, mas mal saiu do compartimento soltou uma
exclamao e voltou a entrar, acompanhada por um cavalheiro.
Fechou a porta de comunicao entre os dois
compartimentos, para eu no ver nem ouvir nada, e passado um bocado abriu-a outra vez e disse-me que 
tinha mudado de planos. Deu-me dinheiro e mandou-me apear e ir
para o Ritz; conheciam-na l bem, afirmou, e arranjar-me-iam
um quarto. Devia esperar que
me telegrafasse a dizer o que devia fazer. Mal tive tempo de arrumar as minhas coisas e saltar do comboio, 
antes que ele partisse.
 - Enquanto Mistress Kettering lhe dava essas ordens, onde estava o cavalheiro?

 - No outro compartimento, junto da janela.
 - Poder descrev-lo?
 - O senhor sabe, eu mal o vi; esteve a maior parte do tempo de costas voltadas para mim. S sei dizer que 
era alto e moreno, usava sobretudo azul-escuro e
chapu cinzento, como qualquer outro cavalheiro.
 - Era passageiro do comboio?
 - No creio, senhor. Pareceu-me que fora  estao para ver
Mistress Kettering, de passagem. Mas
podia ser, claro, um dos passageiros; no tinha pensado nisso.
 Mason parecia um pouco perturbada com a ideia.
 - Sabemos que a sua senhora recomendou a seguir ao condutor que no a acordasse cedo - prosseguiu 
M. Carrge, mudando de
assunto. - Acha o pedido normal da sua parte?
 - Acho, sim, senhor. A minha senhora nunca tomava o pequeno-almoo e, como no dormia bem de noite, 
gostava de dormir de manh.
 M. Carrge mudou outra vez de assunto:
 - Entre a bagagem de Mistress Kettering havia
uma caixa de marroquim encarnado, no havia? O guarda-jias da sua senhora?
 - Havia, sim.
 - Levou essa caixa para o Ritz?
 - Se eu levei o guarda-jias da senhora para o Ritz?! Oh, no! - exclamou, em tom horrorizado.
 - Deixou-o, ento, na carruagem?
 - Com certeza, senhor.
 - Sabe se a sua senhora levava muitas jias consigo?
 - Bastantes, senhores. s vezes at me sentia um
bocado inquieta, s de pensar no que se ouve dizer
acerca de roubos em pases estrangeiros. Sei que estavam no
seguro, mas mesmo assim era correr um grande risco. S os rubis valiam, segundo me disse a senhora, 
vrias centenas de milhar de libras!
 - Os rubis?! Que rubis? - gritou Van Aldin.
 - Creio que foi o senhor que lhos deu, no h ainda muito tempo - respondeu-lhe Mason.
 - Meu Deus! - exclamou o americano. - Quer
dizer que ela levava os rubis? Mas eu dissera-lhe que
os deixasse no banco!
 Mason fez ouvir uma tossezinha que devia ser parte do seu
capital de criada de senhoras e que, desta
vez, era bastante significativa. Exprimia por exemplo,
mais claramente do que quaisquer palavras poderiam
faz-lo, que a patroa fora uma senhora muito amiga de
levar a sua avante.
 - Ruth devia estar doida! - murmurou Van Aldin. - Que
loucura a teria atacado?
 M. Carrge tossiu por sua vez, com uma tosse
igualmente significativa, que desviou para ele a ateno do
americano.
 - Por agora, creio que chega - disse o juiz de instruo 
criada. - Na sala ao lado ler-lhe-o as perguntas e as
respostas e a mademoiselle assinar o depoimento.
 Mason saiu e Van Aldin perguntou, acto contnuo,
ao magistrado:
 - De que se trata?
 M. Carrge abriu uma gaveta da secretria, tirou
uma carta e estendeu-a ao milionrio.
 - Encontrmos isto na mala de mo de madame.
 A carta dizia:

 Chre amie: Obedecer-lhe-ei, serei prudente, discreto,
todas essas coisas que um apaixonado detesta. Paris seria
talvez insensato, mas as Isles d'Or ficam muito longe do
mundo e pode ter a certeza de que nada constar. E prpro de
si e da sua divina compreenso mostrar-se to interessada na
obra que estou a escrever acerca de pedras
preciosas clebres. Ser, na realidade, um privilgio
extraordinrio poder ver e tocar esses histricos rubis.
Dedicarei um captulo especial ao "Corao de Fogo. Minha
querida! Em breve a recompensarei de todos estes tristes
anos de separao e vcuo. Do sempre adorador,
 Armand

XV


O CONDE DE LA ROCHE



 Van Aldin leu a carta em silncio, mas o rosto tornou-se-lhe
escarlate de clera. Os homens que o observavam viram-lhe as
veias da testa engrossar, como se
fossem rebentar, e as mos enclavinharem-se-lhe,
inconscientemente. Devolveu a carta, sem dizer uma palavra. M.
Carrge olhava atentamente para a secretria, M. Caux tinha os
olhos fixos no tecto e M. Poirot
sacudia, com cuidado, um grozinho de poeira da
manga do casaco. Todos eles se esforavam, em suma,
por no olhar para Van Aldin.
 Foi M. Carrge quem, consciente do seu cargo e
dos seus deveres, abordou o desagradvel assunto:
 - Talvez o senhor saiba por quem esta carta foi
escrita? - perguntou, hesitante.
 - Sei, sim - respondeu o americano, friamente.

 - Quem?
 - Um patife que a si prprio se apelida de conde
de la Roche.
 Seguiu-se uma pausa, finda a qual M. Poirot endireitou uma
rgua na secretria do juiz e depois se dirigiu directamente
ao milionrio:
 - Monsieur Van Aldin, avaliamos todos, e lamentamos
profundamente, a dor que lhe deve causar falar
destes assuntos, mas, creia-me, no  altura de ocultar
seja o que for. Para que seja feita justia precisamos de
saber tudo. O senhor mesmo compreender, se reflectir, a
verdade da minha afirmao.
 Van Aldin ficou silencioso, durante alguns momentos, e por
fim, relutante, acenou afirmativamente.
 - Tem razo, Monsieur Poirot. Por muito que me
doa, no tenho o direito de ocultar seja o que for.
 O comissrio soltou um suspiro de alvio e o juiz
de instruo recostou-se na cadeira e ajustou o pince-nez no
nariz comprido.
 - Talvez queira dizer-nos por palavras suas quanto sabe
acerca desse cavalheiro - convidou o magistrado.
 - Comeou tudo h onze ou doze anos, em Paris.
Minha filha era ento uma jovem cheia de ideias romnticas e
tolas, como todas as raparigas, e, sem que
eu soubesse, travara conhecimento com o tal conde de
la Roche. Devem ter ouvido falar dele?
 O comissrio e Poirot confirmaram, com um aceno
de cabea.
 - Intitula-se conde de la Roche, mas duvido que tenha qualquer direito ao ttulo.
 - No encontraria o seu nome, se o procurasse, no Almanac de Gotha - assentiu o comissrio.
 - J sabia - declarou Van Aldin. - O indivduo
era um patife bem-parecido, que exercia fatal fascnio nas mulheres. Minha filha apaixonou-se por ele, mas
eu apressei-me a pr cobro a tamanho destempero, pois o indivduo no era mais do que um vulgar 
trapaceiro.
 - Tem razo - aquiesceu M. Caux. - Conhecemos bem o conde de
la Roche e, se pudssemos,
h muito que o teramos apanhado. Mas, ma foi!,
no  nada fcil. O patife  esperto e todos os seus
negcios se processam com senhoras de elevada
posio social. Se consegue apanhar-lhes dinheiro
sob falsos pretextos ou por chantagem, elas no se
queixam nem o denunciam, naturalmente. Passar por
idiotas aos olhos do mundo? Oh, no! Alm disso, o
cavalheiro tem extraordinrio poder sobre as mulheres.
 - Exactamente - concordou o milionrio. - Como dizia, acabei
com o romance sem perda de tempo,
disse a Ruth o que ele era e minha filha teve de acreditar-me.
Cerca de um ano depois conheceu o marido e
casaram. Que eu soubesse, o romance terminara; mas,
h uma semana, apenas, descobri que minha filha reatara o seu
conhecimento com o conde de la Roche.
Encontraram-se frequentemente em Londres e Paris.
Censurei-lhe a imprudncia, pois devo dizer-lhes, cavalheiros,
que, por insistncia minha, Ruth preparava-se para apresentar
uma aco de divrcio contra o
marido.
 - Interessante - murmurou Poirot, docemente,
de olhos fitos no tecto.
 Van Aldin olhou-o, irritado, e prosseguiu:
 - Demonstrei-lhe a tolice de continuar a encontrar-se com o
conde, nas circunstncias em que se encontrava, e pensei que
ela concordava comigo.
 O magistrado tossiu delicadamente e insinuou:
 - Mas, a julgar por esta carta...
 - Bem sei, so inteis os subterfgios. Por muito
desagradveis que os factos sejam, h que enfrent-los.
Tudo parece indicar que Ruth combinara encontrar-se
em Paris com de la Roche, mas que, depois das minhas
advertncias, escreveu ao conde a sugerir outro
local de rendez-vous.
 - As Isles d'Or - lembrou o comissrio, pensativo - ficam
situadas mesmo defronte de Hyres e so
um lugar remoto e idlico.
 - Meu Deus, como pde Ruth ser to tola? -- perguntou o americano, amargurado. - Toda essa conversa de 
estar a escrever um livro acerca de pedras
preciosas... O que ele queria eram os rubis!
 - Existem uns rubis famosos, que originariamente
fizeram parte das jias da coroa da Rssia, nicos no
gnero e quase fabulosamente valiosos - murmurou
Poirot. - Constou que, h pouco tempo, foram adquiridos por um
americano. No nos enganamos ao
concluir que foi o senhor quem os comprou?
 - Sim, adquiri-os em Paris h cerca de dez dias.
 - Perdoe, monsieur, mas negociou a aquisio durante algum
tempo, no  verdade?
 - Pouco mais de dois meses. Porqu?
 - Essas coisas sabem-se; h sempre muita gente
na pista de jias como essas - respondeu Poirot.
 - Lembro-me de uma piada que disse a minha filha, quando
lhas ofereci - murmurou Van Aldin,
com um esgar de dor. - Disse-lhe que no as trouxesse para a
Riviera, pois no queria que a assaltassem e
assassinassem por causa dos rubis. Meu Deus, que
coisas dizemos sem imaginarmos que viro a ser verdade!
 Seguiu-se um momento de silncio compreensivo,
que Poirot interrompeu de maneira despreocupada:
 - Classifiquemos os factos de que temos conhecimento com
ordem e preciso. De acordo com a presente hiptese, a ordem 
a seguinte: o conde de la
Roche tem conhecimento da compra das jias, efectuada pelo
senhor; graas a um estratagema simples, induz Madame
Kettering a trazer as pedras com ela.
 ele, portanto, o homem que Mason viu no comboio,
em Paris.
 Os outros trs acenaram, aquiescentes.
 - Madame fica surpreendida, ao v-lo, mas o conde resolve
facilmente a situao: Mason  afastada e
encomendado um cesto com o jantar. Sabemos, por
informao do condutor, que armou a cama do primeiro
compartimento, mas que no entrou no segundo,
onde podia muito bem estar escondido um homem.
At agora, o conde no teria dificuldade em esconder-se. No
comboio ningum est ao corrente da sua presena, excepto
madame, e teve o cuidado de evitar que
a criada lhe visse o rosto. Mason sabe apenas que era
alto e moreno, descrio que , muito convenientemente, vaga.
Esto ss, enquanto o comboio avana,
veloz, atravs da noite... No haver nenhum grito,
nenhuma luta, pois o homem , julga-o a vtima, seu
apaixonado. ..
 Voltou-se para Van Aldin e acrescentou, em tom
suave:

 - A morte deve ter sido quase instantnea, monsieur. No nos
deteremos a descrev-la. O conde apodera-se do guarda-jias,
que est ao alcance da sua
mo, e pouco depois o comboio entra em Lyon.
 Mr. Carrge abanou a cabea, aprovador.
 - O condutor apeia-se. Seria fcil ao nosso homem abandonar
o comboio sem ser visto, assim como
meter-se noutro comboio para Paris ou para onde quisesse... e
o crime atribuir-se-ia a vulgar roubo de comboio. No fora a
carta encontrada na mala de madame,
o conde nem seria mencionado.
 - Foi um descuido da sua parte no ter revistado
a mala - declarou o comissrio.
 - Pensou, naturalmente, que a senhora tinha destrudo a
carta. Foi, perdoe, monsieur, uma imprudncia imperdovel
conserv-la.
 - Uma imprudncia, todavia, que o conde devia
ter previsto - murmurou Poirot.
 - Que quer dizer?
 - Quero dizer que todos concordmos que o conde de la Roche
conhece um assunto a fundo: mulheres. Como  ento possvel
que, conhecendo mulheres
como conhece, no previsse que madame conservaria a
sua carta?
 - Sim, h qualquer coisa no que diz - declarou o
magistrado, pouco convencido. - No entanto, nessas
ocasies um homem no  senhor de si mesmo, no raciocina
calmamente. Mon Dieu - acrescentou, com
esprito -, se os nossos criminosos conservassem a cabea no
seu lugar e procedessem com inteligncia, como os
apanharamos?
 Poirot sorriu.
 - O caso parece-me claro, mas difcil de provar -- continuou
M. Carrge. - O conde  matreiro, e a no
ser que a criada possa identific-lo...
 - O que  muito pouco provvel - interveio
Poirot.
 - Decerto, decerto - concordou o juiz de instruo,
esfregando o queixo. - Vai ser difcil.
 - Se ele cometeu de facto o crime... - comeou
o detective, mas o comissrio interrompeu-o:
 - Diz se?
 - Sim, senhor comissrio, digo se.
 O outro olhou-o com ateno, mas acabou por confessar:
 - Tem razo, estamos a andar muito depressa.
 possvel que o conde tenha um libi e, se nos precipitssemos, pareceramos idiotas.
 - Ah, a par exemple no tem a mnima importncia! - afirmou Poirot. - Naturalmente, se  ele o criminoso, 
ter um libi; um homem com a experincia
do conde no se esquece de tomar precaues. No, eu disse se por uma razo muito definida.
 - Qual?
 Poirot agitou pomposamente um indicador e sentenciou:
 - Psicologia!
 - O qu? - admirou-se o comissrio.
 - Psicologicamente, no bate certo. O conde  um
celerado, sem dvida; o conde  um trapaceiro, com
certeza; o conde ludibria mulheres, est provado; o
conde tencionava roubar as jias de madame, no custa
a crer. Mas ser do tipo de homens capazes de cometer
um assassnio? Afirmo que no! Um homem como o
conde  sempre um cobarde, no corre riscos. Joga
 pelo seguro, mesquinhamente, com batota; mas assassinar: cem
vezes no! - e abanou a cabea, des contente.
 O juiz de instruo no parecia, porm, inclinado a concordar com ele, pois observou sabiamente:
 - Chega sempre um dia em que pessoas dessa estirpe perdem a cabea e vo demasiado longe. Foi sem
 dvida o que aconteceu neste caso. Sem querer discordar de
si, Monsieur Poirot...
 - Expus apenas uma opinio - apressou-se o
detective a explicar. - O caso est nas suas mos,
evidentemente, e o senhor far o que lhe parecer
acertado.

 - Estou convencido de que o conde de la Roche
 o homem que procuramos - afirmou M. Carrge.
- Concorda comigo, comissrio?
 - Absolutamente.
 - E o senhor, Monsieur Van Aldin?
 - No me restam dvidas de que o indivduo 
um patife da pior espcie - replicou o milionrio.
 - Receio que seja difcil deitar-lhe a mo, mas faremos o
possvel - prometeu o magistrado. - Telegrafaremos
imediatamente as instrues necessrias.
 - Permitam que os ajude - pediu Poirot. - No
ser difcil encontrar o conde.
 - Porqu?
 Olharam-no todos, mas o homenzinho sorriu-lhes e
explicou:
 - No se esqueam de que a minha profisso  saber coisas! O
conde  um homem inteligente. Neste
momento encontra-se numa moradia que alugou, na
Villa Marina, em Antibes.



XVI

POIROT DISCUTE O CASO


 Fitaram-no todos, com respeito; no havia dvida
de que marcara pontos. O comissrio riu-se, com muito pouca
vontade e comentou:
 - D-nos lies a todos, Monsieur Poirot; sabe
mais do que a Polcia.
 Poirot olhou complacentemente para o tecto, com
um ar de irnica modstia, e murmurou:
 - Que querem, o meu passatempo  saber coisas... Claro que
tenho tempo para me dedicar a ele,
pois no estou sobrecarregado de trabalho...
 - Pois eu... - comeou o comissrio, meneando
a cabea e abrangendo num gesto teatral a montanha
de cuidados que tinha sobre os ombros.
 Poirot voltou-se de sbito para o americano e interpelou-o:
 - Concorda com a opinio, monsieur? Tem a certeza de que o
conde de la Roche  o assassino?
 - Bem, tudo parece indicar que sim...
 Havia na resposta um certo tom de reserva que
atraiu a ateno do magistrado, o qual olhou curiosamente o
americano. Van Aldin pareceu aperceber-se da
curiosidade de que era alvo e perguntou, como se fizesse
um esforo para se libertar de qualquer preocupao:

 - E o meu genro? J o informaram do acontecido? Sei que est
em Nice.
 - Certamente, monsieur. - O comissrio hesitou,
mas por fim decidiu-se a murmurar, discretamente:
- Est, sem dvida, ao corrente de que Monsieur
Kettering viajou, tambm, no Comboio Azul daquela
noite?
 - Soube-o antes de partir de Londres - declarou, lacnico.
 - Disse-nos - continuou o comissrio - no fazer ideia de
que a esposa viajava no mesmo comboio.

 - Aposto que no fazia, de facto - replicou Van
Aldin, em tom taciturno. - Teria sido muito desagradvel para
ele se minha filha o visse.
 Os outros trs fitaram-no, curiosos, e Van Aldin
disse, brutalmente:
 - No estarei com subterfgios... Ningum sabe
o que a minha pobre pequena lhe aturou. Derek Kettering no
viajava s; acompanhava-o uma senhora.
 - Uma senhora?
 - Mirelle, a bailarina.
 M. Carrge e M. Caux entreolharam-se e acenaram com a
cabea, como a confirmarem qualquer conversa anterior. O juiz
recostou-se na cadeira, juntou as
 mos e olhou para o tecto.
 - Ah, bem nos parecia! - exclamou. - Ouvramos boatos...

 - Essa senhora  muito conhecida - comentou
M. Caux.
 - E muito cara, tambm - aduziu Poirot, docemente.
 Van Aldin deu um murro na secretria, rubro de
clera.
 - O meu genro  um patife! - gritou, olhando-os
sucessivamente. - Bonitote, encantador e despreocupado, chegou
a convencer-me, em tempos. Suponho que fingiu ficar com o
corao destroado, quando lhe levaram a notcia? Se  que j
no a conhecia...
 - Foi uma surpresa para ele, ficou estupefacto.
 - Grandssimo hipcrita! - disparatou Van Aldin. - Simulou
grande dor, creio?
 - N-no... - respondeu o comissrio, cauteloso.
- No foi o que me pareceu. E a si, Monsieur Carrge?
 O magistrado uniu as pontas dos dedos e semicerrou os olhos.
 - Surpresa, espanto, horror... sim, manifestou-os declarou, judiciosamente. - Grande dor... enfim, no me
pareceu.
 - Permita-me uma pergunta, Monsieur Van Aldin - interveio,
uma vez mais, Poirot. - Monsieur
Kettering beneficia com a morte da esposa?
 - Beneficia da bonita quantia de dois milhes -- replicou o
milionrio.
 - Dlares?
 - Libras. Doei essa soma a Ruth, quando se casou, e como no
fez testamento nem deixou filhos, o
dinheiro passar para o marido.
 - Para o marido de quem ela ia divorciar-se -- murmurou o
detective. - Ah, sim, prcisment!
 O comissrio voltou-se e fitou-o, com interesse.
 - Quer dizer...
 - No quero dizer nada. Coordeno os factos,
apenas.
 Van Aldin olhou-o tambm, com crescente interesse, e Poirot
levantou-se.
 - No creio que possa prestar-lhe mais algum servio, senhor
doutor juiz - disse delicadamente, inclinando a cabea a M.
Corrge. - Seria uma amabilidade
se me mantivesse informado do decorrer dos acontecimentos.
 - Com certeza, Monsieur Poirot, com certeza...
 Van Aldin levantou-se tambm e perguntou:
 - No precisam mais de mim, neste momento?
 - No, monsieur; de momento temos todas as informaes de
que precisvamos.
 - Nesse caso sairei com Monsieur Poirot, se ele
no se importar.
 - Terei muito prazer, monsieur - afirmou o detective, com
uma inclinao de cabea.
 Van Aldin acendeu um enorme charuto, depois de
oferecer um a Poirot, que recusou e acendeu um dos
seus cigarros. Homem de carcter forte, o americano
parecia ter voltado a ser o homem calmo e normal de
sempre. Depois de caminharem em silncio durante
um ou dois minutos, o milionrio perguntou:
 - Suponho, Monsieur Poirot, que j no exerce a
sua profisso?
 - Exactamente, monsieur. Gozo a vida!
 - No entanto, auxilia a Polcia neste caso...
 - Se um mdico passeia numa rua quando acontece um acidente
diz para consigo: Abandonei a minha
profisso, continuarei o meu passeio e deixa o sinistrado
esvair-se em sangue aos seus ps? Se eu j me
 encontrasse em Nice e a Polcia me mandasse chamar
 e me pedisse que a ajudasse, teria recusado. Mas foi o
 bom Deus que colocou este caso no meu caminho...
 - O senhor estava no local do crime - murmurou Van Aldin,
pensativo. - Examinou o comparti mento, no  verdade?
 Poirot acenou afirmativamente.
 - Sem dvida encontrou coisas que lhe pareceram... digamos,
sugestivas?
 - Talvez.

 - Compreende aonde quero chegar, suponho? O caso contra o tal conde de la Roche parece muito claro, 
mas eu no sou idiota. Observei-o no gabinete,
durante a ltima meia hora, e compreendi que, por qualquer motivo que s o senhor conhece, no concorda 
com a
hiptese.
 - Talvez esteja enganado - redarguiu Poirot, encolhendo os
ombros.
 - Chegmos ao favor que quero pedir-lhe: trabalhar neste
caso para mim?
 - Para si pessoalmente?
 -  isso que desejo.
 Poirot conservou-se silencioso, durante alguns momentos; e
depois perguntou:
 - Avalia o que est a pedir-me?
 - Creio que sim.
 - Muito bem, aceito. Mas, para tal, exijo respostas francas
s minhas perguntas.
 -  natural. Fica entendido.
 A atitude de Poirot modificou-se; tornou-se de sbito brusco
e prtico.
 - A respeito do divrcio: foi o senhor quem aconselhou sua
filha a pedi-lo?

 - Fui.
 - Quando?
 - H cerca de dez dias. Recebera uma carta dela,
a queixar-se do comportamento do marido, e fiz-lhe
ver que o divrcio era a nica soluo.
 - Em que sentido se queixava ela do comportamento do marido?
 - Era muito visto com uma senhora deveras notria, a
bailarina de quem h pouco falmos: Mirelle.
 - Ah! E Madame Kettering objectava? Era muito
devotada ao esposo?
 - Eu no o diria - respondeu o americano, hesitante.
 - Quer dizer, no era o seu corao que sofria,
mas o seu orgulho?
 - Sim, suponho que sim.
 - Deduzo que o casamento no foi feliz, desde o
princpio?
 - Derek Kettering  patife at  medula, incapaz
de fazer qualquer mulher feliz.
 - Trs bien! Aconselhou madame a pedir o divrcio, ela concordou e o senhor consultou os seus 
advogados. Quando soube Monsieur Kettering o que se preparava? - Mandei-o chamar e expliquei-lhe 
pessoalmente o que pretendia fazer.
 - E que respondeu ele? - perguntou Poirot, de mansinho.
 Van Aldin corou, ao lembrar-se da entrevista.
 - Foi de uma impudncia inverosmil.
 - Desculpe a pergunta, monsieur, mas aludiu, por
acaso, ao conde de la Roche?
 - No mencionou o seu nome, mas mostrou-se ao
corrente do caso - resmungou, contrafeito.
 - Qual era, se me permite, a situao financeira
de Monsieur Kettering, nesse momento?
 - Como queria que o soubesse? - perguntou Van
Aldin, aps breve hesitao.
 - Parece-me natural que se tenha informado a esse respeito.
 - Bem, tem razo; informei-me. Verifiquei que
estava praticamente arruinado.
 - E agora herdou dois milhes de libras! La vie 
uma coisa muito estranha, no ?
 - Que quer dizer?
 - Oh, moralizo, reflicto, filosofo!... Mas voltemos
ao que interessa: Monsieur Kettering no tencionava
permitir o divrcio sem se defender, pois no?
 Van Aldin no respondeu logo.
 - No sei exactamente quais eram as suas intenes - disse
por fim.
 - No voltou a comunicar com ele?
 Nova pausa breve.

 - No.
 Poirot parou, tirou o chapu e estendeu a mo:
 - Bons dias, monsieur. No posso fazer nada por si.
 - Que quer dizer com isso? - inquiriu o americano, furioso.
 - Como no me diz a verdade, nada posso fazer.
 - No compreendo.
 - Creio que compreende muito bem. Pode ter a
certeza, Monsieur Van Aldin, de que sei ser discreto.
 - Seja, confesso que no disse a verdade - replicou o
milionrio. - Voltei a comunicar com o meu
genro.
 - E ento?
 - Para ser exacto, mandei o meu secretrio, major
Knighton, oferecer-lhe a importncia de cem mil libras em
dinheiro se no contestasse o divrcio.
 - Bonita quantia - comentou Poirot, apreciador.
- E qual foi a resposta do senhor seu genro?
 - Mandou-me dizer que fosse para o inferno -- replicou o
milionrio, sucintamente.
 - Ah! - exclamou, sem trair qualquer emoo;
naquele momento coordenava mais uma vez, metodicamente, os
factos que apurara. - Monsieur Kettering disse  Polcia que
no viu nem falou  esposa durante a viagem. Acredita nesta
declarao, monsieur?
 - Acredito. Creio que faria o possvel por no se
atravessar no caminho da minha filha.
 - Porqu?
 - Porque vinha com a tal mulher.
 - Mirelle?

 - Sim.
 - Como o soube?
 - Um homem que encarreguei de vigiar o meu
genro informou-me de que partiram ambos no mesmo
comboio.
 - Compreendo. Nesse caso, como o senhor muito
bem disse, no seria provvel que Monsieur Kettering
tentasse comunicar com a esposa.
 O detective ficou silencioso e Van Aldin no interrompeu a
sua meditao.



XVII

UM ARISTOCRTICO CAVALHEIRO


 - J tinhas estado na Riviera, George? - perguntou Poirot ao criado, na manh seguinte.
 George era um indivduo de rosto inspido, intensamente ingls.
 - J, sim, senhor. Estive c h dois anos, quando
trabalhava para Lorde Edward Frampton.
 - E hoje ests c com Hercule Poirot - murmurou o detective.
- Como se sobe na vida!
 O criado no comentou a observao e, aps pausa conveniente, perguntou:
 - O fato castanho, senhor? Est um ventinho fresco...
 - Tem uma ndoa no colete - objectou Poirot.
- Deixei cair um morceau de fillet de sole  la eanette, quando almocei no Ritz na tera-feira passada.
 - J tirei a ndoa, senhor - respondeu George, com ar ofendido.
 - Trs bien! Estou satisfeito contigo, George.
 - Obrigado, senhor.
 Houve uma pausa, antes de Poirot murmurar, sonhador:
 - Supe, meu bom George, que tinhas nascido na mesma esfera social do teu falecido senhor, que, 
pobretana, casaras com uma mulher riqussima, mas que
essa mulher pretendia divorciar-se e tinha excelentes razes para isso. Que farias?
 - Tentaria convenc-la a mudar de ideias, senhor.
 - Por mtodos pacficos ou coercivos?

 George arvorou uma expresso chocada.
 - Desculpar, senhor, mas um cavalheiro aristocrtico no se comportaria como um rufio de Whitechapel. 
No procederia com baixeza.
 - No, George? Talvez tenhas razo...

 Bateram  porta e George foi atender e abriu apenas uns
discretos cinco ou dez centmetros. Travou-se
um dilogo murmurado e em seguida o criado reuniu-se de novo a
Poirot.
 - Uma carta, senhor.
 Era de M. Caux, o comissrio da Polcia, e dizia:

 Vamos interrogar o conde de la Roche. O juiz de instruo
solicita a sua presena.

 - O meu fato, depressa, George. Estou atrasado!
 Um quarto de hora depois, de ponto em branco no
seu fato castanho, Poirot entrou no gabinete do juiz de
instruo. M. Caux e M. Carrge cumprimentaram-no
com delicado empressement.
 - O caso  um tanto ou quanto desencorajador -- murmurou o
comissrio. - Parece que o conde chegou a Nice um dia antes do
assassnio.

 - Se for verdade, fica com o assunto resolvido, no
que a ele se refere - declarou Poirot.
 - No devemos aceitar o seu libi sem proceder a
cuidadoso inqurito - declarou M. Carrge, pigarreando e
premindo a campainha da secretria.
 Pouco depois entrou no gabinete um indivduo alto
e moreno, muito bem vestido e com um certo ar altivo. To
aristocrata parecia o conde que seria heresia
segredar, sequer, que seu pai fora um obscuro vendedor de
cereais de Nantes - o que, alis, era a pura
verdade. Quem o olhasse juraria que inmeros antepassados seus
tinham por certo sido guilhotinados durante a Revoluo
Francesa...

 - Aqui me tm, cavalheiros - disse o conde, altivamente. Posso saber o que me querem?

 - Queira sentar-se, senhor conde - convidou o
juiz, delicadamente. - Solicitmos a sua presena
porque estamos a investigar a morte de Madame Kettering.
 - A morte de Madame Kettering? No compreendo.
 - Creio que o senhor conde era, enfim, que conhecia essa
senhora?
 - Claro que a conhecia. Que tem isso a ver com o
caso?
 Ajustou o monculo e passou o olhar frio pela sala,
demorando-se mais em Poirot, que o observava com
uma espcie de admirao simples e ingnua, assaz
desvanecedora para a vaidade do conde. M. Carrge
recostou-se na cadeira e pigarreou de novo.
 - Talvez ignore, senhor conde, que Madame Kettering foi
assassinada?
 - Assassinada? Mon Dieu, que horror!
 A surpresa e a mgoa pareceram sinceras, to primorosa foi a
representao.
 - Madame Kettering foi estrangulada entre Paris e Lyon prosseguiu o juiz - e as suas jias
roubadas.
 -  espantoso! - exclamou o conde, calorosamente. - A
Polcia devia fazer qualquer coisa para
acabar com esses bandidos dos comboios. Hoje em
dia, no se pode viajar com segurana.
 - Encontrmos na malinha de mo da vtima uma
carta que o senhor lhe escrevera. Tinham combinado
encontrar-se, suponho?
 O conde encolheu os ombros, abriu as mos e perguntou, com
um grande ar de sinceridade:
 - Para qu esconder a verdade? Somos todos homens do mundo.
Particularmente, entre ns, admito
que sim.
 - Quer dizer que se encontrou com ela em Paris e
fizeram o resto da viagem juntos?
 - Fora isso que combinramos, mas, por desejo

de madame, mudmos de plano. Fiquei de encontrar-me com ela em
Hyres.
 - No se lhe juntou no comboio, na Gare de
Lyon, na tarde do dia catorze?

 - Pelo contrrio, cheguei a Nice na manh desse
mesmo dia, pelo que  impossvel o que sugere.
 - Sem dvida - concordou M. Carrge. - Por
uma questo de formalidade, agradecia-lhe me enumerasse os
seus movimentos durante a tarde e a noite do
dia catorze.
 - Jantei em Monte Carlo, no Caf de Paris - respondeu o
conde, depois de reflectir. - A seguir fui ao
Sporting, onde ganhei alguns milhares de francos -- sublinhou
a informao com um desdenhoso encolher
de ombros - e voltei para casa talvez  uma hora da
manh.
 - Perdo, monsieur, mas como regressou a casa?
 - No meu automvel de dois lugares.
 - Ningum o acompanhou?
 - Ningum.
 - Pode apresentar testemunhas que confirmem a
 sua declarao?
 - Jantei s, mas sem dvida muitos amigos meus
 me viram.
 - Foi o seu criado que lhe abriu a porta, quando
 regressou a casa?
 - Abri eu prprio, pois tenho chave.
 - Ah! - murmurou o magistrado. Premiu nova mente a
campainha e um contnuo atendeu o chama mento. - Mande entrar
Mason, a criada.
 - Muito bem, senhor doutor juiz.
 Quando Mason chegou, M. Carrge dirigiu-se-lhe:
 - Agradeo-lhe, mademoiselle, que olhe bem para
este senhor. Parece-lhe o mesmo que entrou no compartimento da
sua ama, em Paris?
 - Pode ser e pode no ser...  difcil dizer, pois,
 como j expliquei, s o vi de costas. Mas penso que
 sim, que foi este cavalheiro.
 - No entanto, no tem a certeza?
 - N-no - confessou, contrafeita -, no tenho a
certeza.
 - Alguma vez viu este cavalheiro na Curzon
Street?
 - Geralmente no via os visitantes da Curzon
Street, a no ser quando l ficavam.
 - E tudo - comentou o juiz de instruo, evidentemente
decepcionado.
 - Um momento - interveio Poirot. - Gostaria
de fazer uma pergunta a mademoiselle, se me permite.
 - Faa favor, Monsieur Poirot.
 - Que aconteceu aos bilhetes? - perguntou o detective 
criada.
 - Aos bilhetes, senhor?
 - Sim, aos bilhetes de Londres a Nice. Era voc
que os tinha ou a sua ama?
 - A minha senhora tinha o seu bilhete do Pullman; os outros
tinha-os eu.
 - Que lhes aconteceu?
 - Entreguei-os ao condutor do comboio francs;
ele disse que era o costume... Fiz mal, senhor?
 - De maneira nenhuma. Fiz a pergunta por uma
simples questo de pormenor.
 M. Caux e M. Carrge olharam-se curiosos. Mason
ficou parada, hesitante, um ou dois minutos, at que o
magistrado a mandou sair, com um aceno de cabea.
Poirot escreveu qualquer coisa num papel e entregou-o
a M. Carrge, cujo rosto se animou, ao l-lo.
 - Cavalheiros, precisaro de demorar-me mais
tempo? - indagou o conde, arrogantemente.
 - Oh, no! - apressou-se a responder o juiz,
cheio de afabilidade. - Est tudo esclarecido, no que
respeita  sua situao neste caso. Claro que, como
compreender, no pudemos deixar de interrog-lo,
em virtude da carta que encontrmos.
 O conde levantou-se, pegou na elegante bengala e,
com uma vnia seca, saiu do gabinete.

 - Tem razo, Monsieur Poirot,  melhor deix-lo
convencer-se de que no  suspeito - afirmou o juiz
de instruo. - Dois agentes segui-lo-o noite e dia,
ao mesmo tempo que investigaremos a veracidade do
libi. Para j, parece-me... muito frgil.
 - Possivelmente... - concordou Poirot, pensativo.
 - Pedi a Monsieur Kettering que viesse aqui esta
manh - continuou o magistrado -, embora, para
ser franco, no me parea que tenhamos muito que
perguntar-lhe. Todavia, uma ou duas circunstncias
suspeitas... - calou-se, a esfregar o nariz.
 - Como, por exemplo? - inquiriu o detective.
 - Bem... - M. Carrge tossicou, mais uma vez.
- A senhora com quem consta que viajou - Mademoiselle Mirelle
- est num hotel e ele noutro. Parece-me... enfim, parece-me
estranho.
 - Dir-se-ia que esto a ser cautelosos - concordou M. Caux.
 - Exactamente! - exclamou o juiz, triunfante.
- E porque haviam de ser cautelosos, hem?
 - Um excesso de cautela  suspeito... - insinuou
Poirot.
 - Prcisment.
 - Creio que podamos, de facto, fazer uma ou
duas perguntas a Monsieur Kettering - concordou o
detective.
 O magistrado deu as necessrias instrues e, pouco depois,
Derek Kettering entrou no gabinete, afvel
como sempre.
 - Bons dias, monsieur - saudou-o o juiz, cortesmente.
 - Bons dias - respondeu Derek Kettering. - Mandaram-me
chamar. H alguma novidade?
 - Queira sentar-se, monsieur.
 Derek sentou-se e atirou o chapu e a bengala para
cima da mesa.
 - Ento? - perguntou, impaciente.
 - At agora, no possumos mais elementos -- disse M.
Carrge, cauteloso.
 - Que interessante! - comentou o ingls, secamente. Mandaram-me chamar para mo dizerem?
 - Pensmos, naturalmente, que gostaria de ser informado dos
progressos do caso - volveu o magistrado, aborrecido.
 - Progressos que, alis, no existem...
 - Desejvamos tambm fazer-lhe algumas perguntas.
 - Pois perguntem.
 - Tem a certeza de que no viu sua esposa nem
falou com ela no comboio?
 - J respondi a essa pergunta. No vi nem falei.
 - Teve, sem dvida, as suas razes...
 Derek olhou-o, desconfiado, e explicou, espaando
as palavras, como se falasse a algum de compreenso
lenta:
 - Ignorava... que... ela... estivesse... no... comboio.
 - Foi isso que disse, de facto.
 Derek franziu a testa e declarou:
 - Gostaria de saber onde quer chegar, Monsieur
Carrge. Sabe o que penso?
 - Que pensa, monsieur?
 - Penso que a Polcia francesa exagera a sua competncia!
Deve possuir informaes acerca das quadrilhas de ladres de
comboios.  indecente que acontea
o que aconteceu num train de luxe e que a Polcia seja
impotente para resolver o assunto!
 - Resolv-lo-emos, monsieur, esteja descansado.
 - Consta-me que Madame Kettering no deixou
testamento - interveio Poirot, de sbito, com as pontas dos
dedos juntas e os olhos atentamente fixos no
tecto.
 - Creio que no fez nenhum - respondeu Kettering. - Porqu?
 - O senhor herda, assim, uma bonita fortuna...
uma fortunazinha muito bela... - Embora continuasse a olhar
para o tecto, conseguiu ver a onda de sangue
que escureceu o rosto de Derek.

 - Que quer dizer e quem  o senhor?
 O detective descruzou as pernas, sem pressa, desviou o olhar
do tecto e fitou o jovem no rosto.
 - Chamo-me Hercule Poirot e devo ser o maior
detective do mundo - respondeu, imperturbvel.
- Tem a certeza absoluta de que no viu nem falou a
sua mulher no comboio?
 - Aonde quer chegar? Pretende... pretende insinuar que...
que a matei? - Desatou a rir, inesperadamente, e acrescentou:
- No, no devo perder a calma!  tudo to absurdo! J pensou
que, se a matasse,
no precisaria de lhe roubar as jias?
 -  verdade - murmurou Poirot, de monco cado. - No tinha
pensado nisso.
 - Se h casos claros e evidentes de assassnio e
roubo, este  um deles - continuou o ingls. - Pobre Ruth,
foram os malditos rubis que a condenaram!
Deve ter constado que os trazia... Creio que no foi a
primeira vez que se cometeu um crime de morte por
causa daquelas pedras.
 Poirot endireitou-se na cadeira e uma tnue luz
verde brilhou-lhe nos olhos. Parecia-se extraordinariamente
com um gato matreiro e bem alimentado.
 - S mais uma pergunta, Monsieur Kettering: pode
indicar-me em que dia viu sua esposa pela ltima vez?
 - Ora deixe ver... Deve ter sido... sim, deve ter
sido h mais de trs semanas. Lamento, mas no posso indicar a data exacta.
 - No tem importncia - afirmou Poirot, secamente. - Era s isso que queria saber.
 - Precisam de mais alguma coisa? - perguntou Derek Kettering, impaciente.
 Olhou para M. Carrge, este procurou inspirao
olhando para Poirot e recebeu-a sob a forma de um leve aceno de cabea.
 - No, Monsieur Kettering, creio que no precisamos de incomod-lo mais. Bons dias, monsieur.
 - Bons dias. - Derek saiu e bateu com a porta.
 Poirot inclinou-se para a frente e perguntou vivamente, assim que o jovem saiu:
 - Quando falou a Monsieur Kettering nos rubis?
 - No lhe falei neles - respondeu M. Carrge.
- S ontem  tarde tivemos conhecimento da sua existncia, por intermdio de Monsieur Van Aldin.
 - Sim, mas a carta do conde mencionava-os...
 - Mas eu no referi essa carta a Monsieur Kettering afirmou o juiz de instruo, ofendido. - Teria sido 
imprudente, na presente conjuntura.
 - Ento como sabia ele da existncia das pedras? -- perguntou suavemente Poirot, batendo no tampo da
mesa. - Madame no podia ter-lho dito, pois h trs
semanas que no se viam, e parece-me pouco provvel
que Monsieur Van Aldin ou o secretrio as tivessem
mencionado; as entrevistas de ambos com ele visaram
assuntos muito diferentes. Os jornais tambm no falaram nas
jias.
 Levantou-se, pegou na bengala e murmurou, como
se monologasse:
 - E todavia o nosso homem sabe tudo a seu respeito. Muito
estranho, meus senhores, muito estranho!



XVIII

DEREK ALMOA


 Derek Kettering foi direito ao Negresco, pediu dois cocktails e bebeu-os depressa. Depois olhou para o 
maravilhoso mar azul e sentiu-se presa de uma grande melancolia. Observou
maquinalmente os transeuntes e achou-os uma multido soturna,
mal vestida e de uma sensaboria arrepiante. Nos tempos que
corriam, no se
via nada que valesse a pena... Semelhante opinio
modificou-se, porm, quando viu uma mulher sentar-se a
uma mesa a pequena distncia dele. Trazia um conjunto
maravilhoso, cor de laranja e preto, e um chapeuzinho que lhe
mergulhava o rosto em sombra. Pediu terceiro cocktail e voltou
a olhar para o mar, mas
de sbito sobressaltou-se. Assaltou-lhe as narinas um
perfume familiar, virou a cabea e viu a senhora de cor
de laranja e preto de p ao seu lado. Agora que podia
ver-lhe a cara o reconhecimento foi imediato: Mirelle.
Sorria-lhe, com aquele sorriso insolente e sedutor to
seu conhecido.
 - Derek! Ests contente por me ver? - Sentou-se
na sua frente e acrescentou, trocista: - D-me as
boas-vindas, estpido!
 -  um prazer inesperado. Quando partiste de
Londres?
 - H um dia ou dois - respondeu, com um encolher de ombros.
 - E o Parthenon?
 - Dei-lhes... Como  que vocs dizem? Dei-lhes
com a tampa!
 - Sim?
 - No ests a mostrar-te muito amvel, Dereek!
 - Esperavas o contrrio?
 Mirelle acendeu um cigarro e soprou vrias fumaas antes de
perguntar:
 - Pensas, talvez, que no  prudente, to cedo?
 Derek fitou-a, encolheu os ombros e indagou formalmente:
 - Almoas aqui?
 - Mais oui. Almoo contigo!
 - Lamento muito, mas tenho um encontro importante.
 - Mon Dieu, vocs, homens, so como as crianas! - exclamou
a bailarina. - Comportas-te comigo
como uma criana mimada, amuaste desde aquele dia
em que saste, furioso, do meu apartamento em Londres. Ah,
mais c'est inoui!
 - Minha querida pequena, confesso que no sei
de que ests a falar. Em Londres chegmos  concluso de que
os ratos abandonam o navio que se afunda.
E  tudo.
 Apesar de falar de maneira descuidada, o seu rosto
estava tenso e plido.
 - A mim no enganas tu! - murmurou Mirelle
 ,
inclinando-se para ele. - Sei o que fizeste por mim!
 Derek fitou-a, estupefacto, alertado pelo tom estranho da
sua voz.
 - No tenhas medo; sou discreta. s maravilhoso, tens uma coragem soberba, mas lembra-te de que fui eu 
quem te deu a ideia, naquele dia, ao dizer-te que,
s vezes, sucedem acidentes... No corres perigo?
A Polcia no suspeita de ti?
 - Que diabo...
 - Fala baixo! - Levantou a mozinha morena e
esguia, com uma grande esmeralda no dedo mnimo.
- Tens razo, no devia ter-te falado assim num lugar
pblico. No voltaremos a aludir ao assunto, mas as
nossas preocupaes acabaram, a nossa vida, juntos,
ser maravilhosa!
 De sbito, Derek desatou a rir  gargalhada, de
maneira spera e desagradvel.
 - Os ratos voltam ao navio, hem? Claro que dois
milhes fazem uma grande diferena! Eu j devia sab-lo. Riu-se de novo. - Ajudar-me-s a gast-los,
hem, Mirelle? Nenhuma mulher sabe gastar dinheiro
melhor do que tu! - e voltou a rir.
 - Fala baixo! - repetiu a bailarina. - Que mosca te mordeu?
No vs que comeam a voltar-se, para
te olharem?
 - Vou dizer-te que mosca me mordeu: acabaste
para mim, Mirelle! Ouviste bem? Acabaste!
 Mirelle, porm, no recebeu a notcia como ele esperava;
olhou-o, sorriu docemente e exclamou:
 - Que criana! Ests zangado, magoado, e tudo,
afinal, porque sou prtica. No te disse sempre que te

adorava? - Fez uma pausa e prosseguiu: - Mas eu
conheo-te, Derek. Olha para mim,  a Mirelle que te
fala... Sabes muito bem que no podes viver sem ela.
Se antes te amava, agora amar-te-ei cem vezes mais!
A tua vida comigo ser maravilhosa, simplesmente
maravilhosa! No h ningum como a Mirelle.
 Os seus olhos fitavam os dele, como duas verrumas
escaldantes. Viu-o empalidecer, suster a respirao, e
sorriu, triunfante. No ignorava a magia que exercia
nos homens.
 - Est combinado... - murmurou, docemente, e
soltou uma gargalhadinha. - E agora, Dereek, no me
ofereces almoo?
 - No! - Levantou-se, lvido de clera, e acrescentou: Lamento, mas j te tinha dito que tenho
um encontro.
 - Vais almoar com outra pessoa? No acredito!
 - Vou almoar com aquela senhora, alm.
 Dirigiu-se a uma senhora de branco, que acabava
de subir a escada, e perguntou-lhe, ofegante:
 - Miss Grey, d-me a honra de almoar comigo?
Fomos apresentados em casa de Lady Tamplin, como
deve lembrar-se.
 Katherine fitou-o, um momento, com os seus inteligentes
olhos cinzentos, que diziam tantas coisas, e
respondeu:
 - Obrigada. Terei muito prazer.



XIX

VISITflNTE INESPERADA


 O conde de la Roche acabara o seu almoo, composto de omelette fines herbes, um entrec"te bearnaise e
um savarin au rhum. Limpou delicadamente o bonito
bigode preto, levantou-se da mesa e atravessou o salo,
olhando com apreo os poucos objets d'art descuidadamente
espalhados por ele. A caixinha de rap
Lus XV, o sapatinho de cetim usado por Maria Antonieta e
outras bagatelas histricas faziam parte da mise
en scne do conde. Eram, costumava explicar s suas
bonitas visitantes, heranas de famlia. Chegado ao
terrao, o conde olhou para o Mediterrneo sem o ver;
no estava com disposio para apreciar as belezas da
paisagem. Um estratagema to bem amadurecido fora
brutalmente reduzido a nada, tinha de recomear do
princpio. O senhor de la Roche instalou-se numa confortvel
cadeira de verga, com um cigarro entre os dedos brancos, e
mergulhou em profunda cogitao.
 Pouco depois, Hipolyte, o criado, trouxe-lhe caf e
vrios licores, e o conde decidiu-se por uma excelente
aguardente velha. Quando o homem se preparava para
sair, mandou-o esperar, com um pequeno gesto, e Hipolyte
aguardou, respeitosamente. O rosto do criado
estava longe de ser simptico, mas a correco da sua
atitude compensava largamente essa deficincia. Naquele
momento, por exemplo, era o retrato vivo da
ateno respeitosa.
 -  possvel que, nos prximos dias, venham c a casa vrios desconhecidos e tentem travar 
conhecimento contigo e com a Marie. Perguntar-lhes-o coisas a meu respeito, talvez.
 - Sim, senhor conde.
 - Ou j tero vindo?
 - No, senhor conde.
 - Muito bem - comentou de la Roche, secamente. - No entanto,
tenho a certeza de que viro e de
que faro perguntas.
 Hipolyte olhava o patro, com ar inteligente, e o
conde falou devagar, sem contudo o olhar:
 - Como sabes, cheguei aqui na ltima tera-feira de
manh. Se a Polcia ou qualquer outra pessoa to perguntar, no
te esqueas de que cheguei na tera-feira, dia
catorze, e no na quarta, dia quinze. Compreendes?

 - Perfeitamente, senhor conde.
 -  sempre preciso ser discreto em assuntos relacionados com
uma senhora. Tenho a certeza, Hipolyte, de que tambm o
sabers ser.
 - Com certeza, monsieur, serei discreto.
 - E Marie?
 - Tambm, monsieur. Respondo por ela.
 - Estamos entendidos, ento.
 Ao ficar s, o conde bebeu o caf, com ar pensativo. de vez
em quando franzia a testa, uma vez abanou
levemente a cabea e outras duas acenou, devagar. Hipolyte
veio, de novo, interromper as suas cogitaes:
 - Uma senhora, monsieur.
 - Uma senhora?
 O conde estava surpreendido. Claro que a visita de
uma dama  Villa Marina no era caso raro, mas naquele momento
o conde no imaginava quem poderia
ser a visitante.
 - Suponho que no  uma senhora conhecida de
monsieur - murmurou o criado, ao compreender a sua
perplexidade.
 - Manda-a entrar para aqui, Hipolyte - ordenou
o senhor de la Roche, ainda mais perplexo.
 Momentos depois, entrou no terrao uma maravilhosa viso de
cor de laranja e preto, acompanhada de
um forte perfume de flores exticas.
 - O senhor conde de la Roche?
 - s suas ordens, mademoiselle - respondeu, com uma vnia cavalheiresca.
 - Chamo-me Mirelle. Deve ter ouvido falar de
mim.
 - Com certeza, mademoiselle! Quem no se ter
deliciado com a maravilhosa arte de Mademoiselle Mirelle?
 A bailarina agradeceu o cumprimento com um breve sorriso
maquinal.
 - A minha visita  muito pouco cerimoniosa...
 - Peo-lhe que se sente, mademoiselle - disse o
conde, oferecendo-lhe uma cadeira.
 Apesar da galantaria da sua atitude, observava-a
atentamente. Havia muito poucas coisas que o conde
ignorasse acerca de mulheres. Era certo que a sua experincia
no se alargara muito a senhoras como Mirelle, as quais eram,
em si mesmas, predatrias. Ele e
a bailarina podiam considerar-se, de certo modo, da
mesma igualha e os seus artifcios no surtiriam efeito
em Mirelle, que era parisiense e astuta. Uma coisa,
porm, o conde reconhecia imediatamente, fosse em
que tipo de mulher fosse: a clera. E neste caso no
lhe restavam dvidas de que estava perante uma mulher
colrica, e uma mulher colrica, ensinara-lho a
experincia, fala mais do que a prudncia aconselha e,
s vezes,  uma fonte de proventos para um homem
com a cabea bem assente e que saiba conservar-se
calmo.
 - Foi muito amvel, mademoiselle, em honrar a
minha pobre morada com a sua visita.
 - Temos amigos mtuos em Paris que me tm falado de si, mas
estou aqui por outro motivo. Quero dizer, desde que cheguei a
Nice ouvi falar a seu respeito,
mas num sentido diferente do habitual. Compreende?
 - Sim? - murmurou o conde, suavemente.
 - Serei brutal, mas acredite que pretendo defender o seu
bem-estar. Consta em Nice que o senhor
conde  o assassino da senhora inglesa morta no comboio,
Madame Kettering.
 - Eu? Eu, o assassino de Madame Kettering?
Que absurdo! - exclamou com mais indiferena do
que indignao, certo de que assim a provocaria mais.
 - Garanto-lhe que  verdade, que  isso que dizem.
 - As pessoas gostam de falar - comentou, despreocupado. Rebaixar-me-ia se tomasse a srio acusaes 
to idiotas.
 - No compreende? - Mirelle inclinou-se para
ele, com os olhos escuros a faiscar. - No se trata de
boatos ociosos, de rua;  a Polcia!

 - A Polcia? - o conde estremeceu, novamente
alerta.
 - Sim, sim - afirmou Mirelle, acenando vrias
vezes com a cabea. - Compreende, tenho amigos em
toda a parte... O prprio prefeito... - deixou a frase
por acabar, com um eloquente encolher de ombros.
 - Haver algum capaz de ser discreto, quando
tem uma bela mulher por confidente? - murmurou o
conde, delicadamente.
 - A Polcia cr que o senhor matou Madame Kettering, mas
engana-se.
 - Com certeza que se engana - concordou o conde,
indiferente.
 - O senhor conde afirma-o, mas ignora a verdade.
Eu conheo-a.
 - Sabe quem matou Madame Kettering? - perguntou-lhe de la
Roche, olhando-a com curiosidade.
-  isso que quer dizer, mademoiselle?
 -  - afirmou, com novo aceno vigoroso de cabea.
 - Quem foi?
 - O marido. - Inclinou-se mais para o conde e
acrescentou, em voz que vibrava de clera e excitao:
- Foi o marido que a matou.
 O conde recostou-se na cadeira, com o rosto inexpressivo
como uma mscara.
 - Permite-me que lhe pergunte como o soube,
mademoiselle?
 - Como o soube?! - exclamou a bailarina, levantando-se e
soltando uma gargalhada. - Vangloriou-se
de que o faria, antes de a assassinar! Estava arruinado,
falido, desonrado, s a morte da mulher podia salv-lo.
Disse-mo ele prprio. Viajavam no mesmo comboio, mas ela no
devia sab-lo. Porqu, no me dir?
Para que pudesse entrar-lhe sorrateiramente no compartimento,
pela calada da noite... Ah! - fechou os
olhos, emocionada. - At parece que estou a ver!
 - Talvez, talvez... - murmurou o conde, com
uma tossezinha discreta. - Mas, nesse caso, no lhe
roubaria as jias, no acha?
 - As jias! - exclamou Mirelle, em tom apaixonado. - As
jias! Ah, aqueles rubis!
 Os olhos humedeceram-se-lhe, adquiriram como
que uma luz distante, e o conde fitou-a, curioso, admirado
mais uma vez da mgica influncia das pedras
preciosas no sexo feminino.
 - Que deseja que faa, mademoiselle? - perguntou-lhe,
chamando-lhe de novo a ateno para assuntos prticos.
 -  simples: vai  Polcia e diz que Mister Kettering
cometeu o crime!
 - E se no me acreditarem, se pedirem provas? -- inquiriu,
sem desviar os olhos dos dela.
 Mirelle riu docemente e aconchegou a charpe cor
de laranja e preta.
 - Mande-os ter comigo, senhor conde. Dar-lhes-ei as provas
que quiserem.
 E saiu como um p-de-vento, cumprida a sua misso. O conde
viu-a partir, com as sobrancelhas levemente franzidas.
 Est furiosa, murmurou para consigo. Que lhe
ter acontecido para ficar em tal estado? Mas mostra
demasiado o jogo... Acreditar, de facto, que Mister
Kettering matou a esposa? Pelo menos quer que eu o
acredite. Pareceu, at, interessada em que a Polcia
o acredite...
 Sorriu. No tinha inteno nenhuma de procurar a
Polcia, mas via vrias outras possibilidades - e agradveis,
a julgar pelo seu sorriso.
 O semblante no tardou, porm, a carregar-se-lhe.
Segundo Mirelle afirmara, a Polcia suspeitava dele, o
que podia ser ou no verdade. Uma mulher furiosa,
do temperamento da bailarina, no se prendia com a
estrita verdade das suas afirmaes. Por outro lado,
podia muito bem ter obtido informaes... internas, e
nesse caso impunham-se certos cuidados.

 Entrou em casa e interrogou novamente Hipolyte,
para saber se tinham aparecido alguns desconhecidos.
O criado foi positivo na resposta: no. Em seguida o
conde subiu ao seu quarto e dirigiu-se a uma velha
escrivaninha encostada  parede. Levantou a tampa e os
seus dedos delicados procuraram uma mola, no fundo
de um dos cacifos. Abriu-se uma gaveta secreta, na
qual se encontrava um embrulhinho de papel castanho. O conde
pegou-lhe, sopesou-o cuidadosamente e,
com uma careta, levantou a mo e arrancou um cabelo. Colocou-o
na aresta da gaveta, fechou-a devagar e,
com o embrulhinho na mo, dirigiu-se  garagem,
onde tinha um automvel encarnado, de dois lugares. Dez
minutos depois percorria a estrada de Monte Carlo.
 Passou algumas horas no Casino, deu uma volta
pela cidade, meteu-se outra vez no automvel e seguiu
na direco de Menton. Ao princpio da tarde notara
que o seguia um carro cinzento, vulgar, o qual se encontrava
novamente atrs de si. Sorriu e pisou o acelerador. A estrada
subia, ngreme, mas o pequeno automvel vermelho fora
construdo segundo modelo
especial do conde e tinha um motor muito mais potente de que o
seu aspecto permitia supor.
 Pouco depois olhou para trs e sorriu; o carro cinzento
continuava a segui-lo. Envolto em poeira, o automovelzinho
encarnado galgava a estrada a uma velocidade perigosa, mas o
senhor de la Roche era um
bom volante. Comearam a descer a encosta, sempre
aos ziguezagues, e por fim a velocidade abrandou e o
automvel parou defronte de um posto dos Correios.
O conde apeou-se, levantou a tampa da caixa de ferramentas,
tirou o embrulhinho castanho e entrou apressadamente no posto.
Dois minutos depois ia outra vez
a caminho de Menton. Quando o automvel cinzento
chegou, o conde bebia ch no terrao de um dos hotis.
 Mais tarde foi jantar a Monte Carlo e seguiu para
casa, onde chegou s onze horas. Hipolyte recebeu-o
com semblante perturbado.
 - Ainda bem que chega, senhor conde! O senhor
conde telefonou?
 O senhor de la Roche abanou a cabea, negativamente.
 - Mas, s trs horas, recebi um telefonema do senhor, a
mandar-me procur-lo em Nice, no Negresco!
 - Sim? E foste?
 - Com certeza, senhor. Mas no Negresco disseram-me que no
sabiam nada, que o senhor conde no
estivera l.
 - Ah! E naturalmente, a essa hora, a Marie tinha
sado, para fazer compras?
 - E verdade, senhor conde.
 - No tem importncia, Hipolyte. Deve ter sido
engano.
 Subiu ao seu quarto, a sorrir, trancou a porta e
olhou atentamente  sua volta. Parecia tudo como de
costume. Abriu vrias gavetas e armrios e abanou a
cabea: as coisas tinham sido repostas nos seus lugares, mas
com ligeiras diferenas. No lhe restavam dvidas de que fora
efectuada uma busca minuciosa.
 Dirigiu-se  escrivaninha, carregou na mola oculta
e a gaveta abriu-se, mas o cabelo j no estava onde o
deixara.
 A nossa Polcia francesa  excelente, murmurou,
abanando vrias vezes a cabea. Excelente... Nada
lhe escapa...



XX

KATHERINE ARRANA UM AMIGO


 Na manh seguinte, Katherine e Lenox sentaram-se no terrao
da Villa Marguerite. Comeava a lig-las
um sentimento muito parecido com a amizade, apesar

da diferena de idades. No fora a companhia de Lenox,
Katherine acharia a vida na Villa Marguerite intolervel. O
caso Kettering era o tpico obrigatrio de
todas as conversas e Lady Tamplin explorava o mais
que podia a ligao que a prima tivera com o assunto.
Por muito mordazes e aceradas que fossem as rplicas
de Miss Grey, no conseguiam trespassar a carapaa
de egosmo de Rosalie Tamplin nem ferir-lhe o amor-prprio.
Lenox adoptava uma atitude desinteressada,
embora parecesse divertir-se com as manobras da me
e, ao mesmo tempo, compreender os sentimentos da
prima. Chubby no ajudava nada a desanuviar a situao e
apresentava-a a todos, com uma vaidade ingnua:
 - Esta  Miss Grey. Ouviu falar no caso do Comboio Azul?
Esteve envolvida nele at s orelhas! Travou uma longa
conversa com Ruth Kettering, poucas
horas antes do assassnio. Que sorte, hem?
 Algumas observaes do gnero tinham obrigado
Katherine a replicar de maneira invulgarmente rspida, e
quando se encontraram ss Lenox comentou, na
sua voz arrastada:
 - No est habituada a que a explorem, hem,
Katherine? Tem muito que aprender!
 - Estou arrependida de ter perdido a calma; no
costuma acontecer-me.
 - J  tempo de aprender a desabafar. Chubby 
apenas um idiota inofensivo, mas com a minha me o
caso muda de figura.  irritante, mas voc pode perder a
pacincia  vontade que no lhe causar mossa.
Abrir uns grandes e tristes olhos azuis e ficar na
mesma.
 Katherine no comentou a observao filial e Lenox
prosseguiu, aps uma pausa:
 - Eu sou um bocado como o Chubby; delicio-me
com um bom crime. Alm disso... bem, como conheo Derek, ainda
mais me interessa.
 Miss Grey limitou-se a acenar com a cabea e a rapariga
acrescentou, pensativa:
 - Ontem almoou com ele... Gosta dele, Katherine?
 - No sei... - respondeu a interpelada, muito
devagar depois de reflectir um momento.
 - E muito atraente.
 - Sim,  atraente.
 - Que lhe desagrada nele?
 Katherine no respondeu, pelo menos directamente.
 - Falou da morte da mulher, afirmou que no fingiria que a tragdia fora, para si, mais do que um
bambrrio de sorte...
 - E isso escandalizou-a, creio... - Fez uma pausa, antes de
acrescentar, num estranho tom de voz:
- Ele gosta de si, Katherine.
 - Ofereceu-me um excelente almoo - redarguiu
Miss Grey, a sorrir, mas Lenox recusou-se a mudar de
assunto.
 - Compreendi-o na noite em que jantou c, pela
maneira como a olhou - murmurou, pensativa. - E voc
no  o seu tipo, pelo contrrio. Enfim, suponho que 
como a religio; ataca as pessoas em certa idade.
 - Chamam Mademoiselle Grey ao telefone - informou Marie, da
janela do salo. - Monsieur Hercule Poirot diz que precisa de
lhe falar.
 - Mais novidades! - exclamou Lenox. - V,
Katherine, v aturar o seu detective.
 A voz de Mr. Hercule Poirot soou ntida e precisa
ao ouvido de Katherine:
 -  Mademoiselle Grey quem fala? Bon, mademoiselle, tenho um
pedido a fazer-lhe, da parte de Mister Van Aldin, o pai de
Madame Kettering, Ele deseja
muito falar-lhe, quer na Villa Marguerite, quer no hotel, como
o preferir.
 Katherine achou que a ida de Mister Van Aldin 
Villa Marguerite seria penosa e desnecessria; Lady
Tamplin ficaria encantada com o acontecimento, pois
nunca perdia a oportunidade de estreitar relaes com

milionrios. Disse, por isso, a Poirot que preferia ir a
Nice.
 - Excelente, mademoiselle. Irei eu prprio busc-la, de
automvel. Daqui a trs quartos de hora est
bem?
 Poirot chegou pontualmente e partiram sem perda
de tempo.
 - Ento, mademoiselle, como vo as coisas?
 Katherine fitou-lhe os olhos maliciosos e sentiu
confirmar-se a sua primeira impresso de que havia em Mr. Hercule Poirot algo muito atraente.
 - Este  o nosso romance policial, lembra-se? -- continuou o
detective. - Prometi-lhe que o investigaramos juntos, e nunca falto a uma promessa.
 -  muito amvel.
 - Ah, mademoiselle, est a troar de mim! Mas
quer, ou no, ouvir as novidades relacionadas com o
caso?
 Katherine admitiu que queria e Poirot comeou
por esboar-lhe um retrato do conde de la Roche.
 - Supe que foi ele quem a matou? - murmurou
Miss Grey, pensativa.
 -  essa a teoria aceite - redarguiu Poirot, cauteloso.
 - Mas o senhor acredita nela?
 - No disse tal coisa! E a mademoiselle, que pensa?
 - Que hei-de pensar? No percebo nada dessas
coisas, mas diria que...
 - Diria que?... - encorajou-a o detective.
 - Bem, pelo que me contou, o conde no me parece do tipo de
homem capaz de matar algum.
 - Ah, muito bem! Estamos de acordo, pois isso
foi precisamente o que eu prprio disse. - Olhou-a
com ateno e inquiriu: - Conhece Mister Derek
Kettering?
 - Foi-me apresentado em casa de Lady Tamplin e
almocei com ele.
 - Um mauvais sujet - comentou Poirot, abanando a cabea -,
mas les femmes gostam disso, hem?
 Katherine no pde conter o riso.
  daquelas pessoas que se tornam notadas seja onde for prosseguiu o detective. - Sem dvida reparou 
nele no Comboio Azul?
 - Reparei.
 - Na carruagem-restaurante?
 - No,  hora das refeies no o encontrei. Vi-o
apenas uma vez, a entrar no compartimento da esposa.
 - Estranho... Se a memria no me atraioa, creio
t-la ouvido dizer que estava acordada e que olhou pela janela
em Lyon? No viu nenhum homem alto e
moreno como o conde de la Roche abandonar o comboio?
 - No me parece que tenha visto algum abandonar o comboio.
Vi de facto sair um rapaz de bon e sobretudo, mas no creio
que abandonasse o comboio;
pareceu-me que foi apenas passear no cais. Vi tambm
um francs gordo, com um sobretudo por cima do pijama, que
queria uma chvena de caf. Alm deles, s
reparei nos empregados da companhia.
 Poirot acenou vrias vezes e, por fim, confidenciou:
 - Sabe, o conde de la Roche tem um libi... e um
libi  uma coisa pestilencial, sempre susceptvel de levantar
graves suspeitas. Mas... c estamos!
 Seguiram directamente para a suite de Van aldin,
onde encontraram Knighton, que Poirot apresentou a
Katherine. Aps breve troca de banalidades, o secretrio
disse:
 - Vou avisar Mister Van Aldin de que Miss Grey
j chegou.
 Entrou por uma porta de comunicao num aposento contguo,
ouviu-se um murmrio de vozes e Van
Aldin apareceu, estendeu a mo a Katherine e observou-a, ao
mesmo tempo, com um olhar penetrante.
 - Tenho muito prazer em conhec-la, Miss Grey -- disse
simplesmente. - Estou ansioso por ouvir o que
tem a dizer-me acerca de Ruth.
 A calma simplicidade do milionrio agradou muito
a Katherine, que se sentiu na presena de uma dor autntica,
tanto mais genuna quanto despida de exteriorizaes.
 - Sente-se, por favor, e conte-me tudo - pediu-lhe o
milionrio, puxando uma cadeira.
 Poirot e Knighton retiraram-se discretamente para
a outra sala e Katherine e Van Aldin ficaram ss. Simples e
naturalmente, sem qualquer dificuldade, Miss
Grey contou a conversa que tivera com Ruth Kettering, quase
palavra por palavra. O americano ouviu-a
em silncio, recostado na cadeira, com uma das mos
a ocultar os olhos. Quando ela acabou, agradeceu, serenamente:
 - Obrigado, minha querida.
 Ficaram silenciosos alguns momentos, pois Katherine
adivinhava que seriam deslocadas quaisquer palavras de
comiserao. Quando o milionrio voltou a falar, f-lo num tom
muito diferente:
 - Estou-lhe muito grato, Miss Grey, pois creio
que ajudou a serenar o esprito da minha pobre Ruth
nas ltimas horas da sua vida. Agora desejava fazer-lhe
umas perguntas, se mo permite... Est informada,
pois Mister Poirot deve ter-lho dito, acerca do patife
por quem a minha pobre pequena se enamorara. Era
ele o homem de quem ela lhe falou, aquele a quem ia
juntar-se. Na sua opinio, acha que Ruth teria mudado de
ideias, depois de conversar consigo? Acha que
resolvera faltar ao prometido?
 - Francamente, no sei. Fiquei convencida, no
entanto, de que tomara uma deciso e que, por isso, se
sentia mais feliz.
 - No lhe deu a entender onde tencionava encontrar-se com o
celerado, se em Paris, se em Hyres?
 - Nada me disse a esse respeito.
 - E, infelizmente, esse  um ponto importante! 
exclamou, pesaroso, Van Aldin. - Enfim, o tempo o
dir.
 Levantou-se, abriu a porta de comunicao e Poirot e
Knighton reuniram-se-lhes. Katherine declinou o
convite para almoar com o milionrio e o secretrio
acompanhou-a ao automvel, que esperava.
 Quando voltou, encontrou Van Aldin e Poirot em
animada conversa.
 - Se soubssemos, ao menos, qual foi a deciso de
Ruth! - dizia o milionrio, pensativo. - Mas podem
ter sido tantas! Pode ter decidido abandonar o comboio em
Paris e telegrafar-me; seguir para o Sul de
Frana e ter uma explicao com o conde... Estamos
s escuras, absolutamente s escuras. No entanto, a
criada disse que ela ficou assustada e inquieta, quando
o conde apareceu, na estao de Paris. Portanto, isso
no fazia parte do plano preconcebido. No concorda
comigo, Knighton?
 - Peo desculpa, Mister Van Aldin; no estava a
ouvir.
 - A sonhar acordado, hem? - brincou o americano. - No 
costume... Est-me a parecer que aquela
rapariga lhe deu volta  cabea...
 Knighton corou e Van Aldin acrescentou:
 - Pessoalmente, achei-a muito simptica. Reparou, por acaso,
nos seus olhos?
 - Qualquer homem teria reparado nos seus olhos -- afirmou o
major.



XXI

NO T NIS


 Decorreram vrios dias. Certa manh, ao regressar
de um passeio solitrio, Katherine encontrou Lenox a
esper-la, com um sorriso ansioso.

 - O seu rapaz telefonou, Katherine!
 - Quem  o meu rapaz?
 - Desta vez  um novo: o secretrio de Rufus Van
Aldin. Parece ter-lhe causado uma grande impresso.
Est a tornar-se uma demolidora de coraes, Katherine:
primeiro, Derek Kettering; agora, esse jovem
Knighton! O engraado  que me lembro muito bem
dele, pois estava no hospital de guerra que minha me
instalou aqui. Nessa altura andava eu pelos meus oito
anos, era uma mida...
 - Foi um ferido grave?
 - Tinha levado um tiro numa perna, se no me
engano, mas o caso esteve feio. Creio que os mdicos
complicaram um bocado as coisas, pois disseram que
no ficaria a coxear, mas quando o rapaz saiu ia coxo.
 Lady Tamplin juntou-se-lhes, nesse momento, e
perguntou:
 - Estiveste a falar a Katherine acerca do major
Knighton? Um rapaz to simptico! Ao princpio no
me recordei, eram tantos!, mas depois lembrei-me de
tudo.
 - Antes, o major Knighton no merecia ser lembrado, pois
tinha muito pouca importncia - comentou Lenox, com a acidez
habitual. - Mas agora as
coisas mudaram muito de figura, pois  secretrio de
um milionrio americano!
 - Querida! - exclamou Lady Tamplin, no seu
vago tom de censura.
 - Mas, afinal, porque telefonou o major Knighton? perguntou Katherine.
 - Perguntou se queria ir ao tnis, esta tarde, pois
viria busc-la de automvel. A me e eu aceitmos em
seu nome, com empressement. Enquanto voc se entretiver com o
secretrio de Van Aldin, talvez me d uma
oportunidade de cair nas graas do milionrio, Katherine.
Suponho que Mister Van Aldin tem cerca de sessenta anos;
portanto, deve interessar-se por uma rapariga simptica e
terna como eu.
 - Gostaria de conhecer Mister Van Aldin - confessou Rosalie
Tamplin, com fervor. - Dizem-se tantas coisas a seu respeito!
So to fascinantes esses rudes homens do Oeste!
 - O major Knighton teve o cuidado de sublinhar
que o convite era de Mister Van Aldin - esclareceu
Lenox. - Mas disse-o tantas vezes que desconfiei.
Voc e Knighton fariam um belo par, Katherine...
Deus os abenoe, meus filhos.
 Katherine riu-se e foi para o seu quarto mudar de
roupa.
 Knighton chegou pouco depois do almoo e resistiu virilmente
aos transportes de reconhecimento de
Lady Tamplin. J a caminho de Canes, observou a
Katherine:
 - Parece impossvel como Lady Tamplin mudou
to pouco!
 - Em atitude ou aparncia?
 - Em ambas as coisas. Deve ter muito mais de
quarenta anos, suponho, mas  ainda uma mulher notavelmente
bonita.
 -  , de facto - concordou Katherine.
 - Agrada-me muito que tenha aceite o convite -- continuou o
major. - Mister Poirot tambm estar
presente.  um homenzinho extraordinrio! Conhece-o bem, Miss
Grey?
 - Conheci-o apenas no comboio, quando vinha
para c. Comeou a conversar comigo, ao ver-me ler
um romance policial e eu observei-lhe que na vida real
no aconteciam as coisas narradas nos livros... Claro
que no fazia ideia nenhuma de quem ele era.
 -  uma pessoa extraordinria e tem feito coisas notveis. Possui uma espcie de gnio para desvendar
as coisas at ao mago, sem que faamos a mnima
ideia do que est a pensar. Uma vez estava numa casa
no Yorkshire quando roubaram as jias de Lady Clan ravon. Ao
princpio o roubo pareceu simples, mas a
 Polcia local viu-se em palpos de aranha. Lembro-me
 de que aconselhei a que chamassem Hercule Poirot,

pois era o nico homem capaz de os ajudar, mas preferiram
confiar na Scotland Yard...
 - E que aconteceu? - perguntou Katherine,
curiosa.
 - As jias nunca foram recuperadas - replicou
Knighton, secamente.
 - Acredita, realmente, nele?
 - Acredito. O conde de la Roche  um indivduo
muito manhoso, que tem conseguido escapar de muitas
complicaes, mas creio que encontrou em Hercule
Poirot um adversrio da sua envergadura.
 - O conde de la Roche... - murmurou Katherine, pensativa. Pensa, realmente, que foi ele?
 - Claro! - exclamou, surpreendido. - No concorda?
 - Oh, sim! - apressou-se a afirmar. - Quero dizer, se no
foi apenas um vulgar roubo de comboio...
 - Podia ser, claro... Mas parece-me que o conde
de la Roche se ajusta perfeitamente neste caso.
 - No entanto, tem um libi.
 - Ora, libis! - O rosto de Knighton transformou-se,
iluminado por um sorriso quase infantil.
- Confessou que l romances policiais, Miss Grey;
portanto, deve saber que quem possui um perfeito libi levanta
sempre graves suspeitas.
 - Acha que, na vida real,  assim tambm? - inquiriu
Katherine, correspondendo ao sorriso.
 - Porque no? Afinal a fico baseia-se nos factos.
 - Mas -lhes superior - insinuou Katherine.
 - Talvez. Enfim, a verdade  que, se fosse um
criminoso, no gostaria de ter Hercule Poirot na minha pista!
 - Nem eu! - afirmou Katherine, risonha.
  chegada encontraram o detective que, em virtude de o dia
estar quente, vestia fato branco, de linho, com uma camlia tambm branca na botoeira.
 - Bonjour, mademoiselle - cumprimentou-a. - Pareo muito
ingls, no acha?
 - Parece formidvel! - respondeu Katherine,
bem-disposta.
 - Est a troar de mim, mas no faz mal. O pap
Poirot  sempre o ltimo a rir!
 - Onde est Mister Van Aldin? - perguntou-lhe
Knighton.
 - Ir ter connosco aos nossos lugares. Para lhe dizer a
verdade, meu amigo, no est muito satisfeito
comigo... Oh, estes americanos! No sabem o que  o
repouso, a calma. Mister Van Aldin queria que corresse todos
os becos de Nice  procura de criminosos!
 - No me parece m a ideia - observou Knighton.
 - Engana-se - afirmou o detective. - Nestes assuntos no  a
energia que conta, mas a astcia. No
tnis, por exemplo, encontra-se toda a gente, e isso 
to importante! Olhem, chegou Mister Kettering!
 Derek aproximou-se, com ar irritado e atrevido,
como se qualquer coisa o tivesse perturbado. Knighton e ele
saudaram-se com certa frieza e s Poirot pareceu inconsciente da tenso reinante e tagarelou 
cordialmente, num esforo
louvvel para pr todos  vontade.
 -  surpreendente a facilidade e a correco com que fala francs, Mister Kettering - elogiou. - Fala to 
bem que poderia ser tomado por francs, se quisesse.  uma
qualidade muito rara entre ingleses.
 - Tem razo - concordou Katherine. - O meu
francs, por exemplo,  tristemente britnico!
 Instalaram-se nos seus lugares e, quase no mesmo
instante, o major viu o patro a fazer-lhe sinais, do outro
lado do court, e foi ao seu encontro.
 - Simpatizo com aquele rapaz - disse Poirot,
seguindo o secretrio com um sorriso desvanecedor. - E a
mademoiselle?
 - Gosto muito dele.
 - E o senhor, Mister Kettering?
 Derek ia a responder bruscamente, mas viu qual
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quer coisa nos olhos brilhantes de Poirot que o fez dominar-se
e ficar atento. Respondeu portanto cautelosamente, escolhendo
as palavras:
 - Knighton  muito bom tipo.
 Por instantes, Katherine teve a impresso de que o
detective pareceu decepcionado.
 -  um grande admirador seu, Mister Poirot...
 Relatou a conversa que tivera com o major, divertida por ver
o homenzinho empertigar-se todo, como
um pavo, dilatar o peito e arvorar uma expresso de
irnica modstia, que no iludiria ningum.
 - Agora me lembro, mademoiselle - disse, de sbito -, de que
gostaria de discutir consigo determinado assunto. Suponho que,
quando conversou com a pobre senhora no comboio, deixou cair uma cigarreira?
 - No dei por isso - respondeu Katherine, surpreendida, e Poirot tirou da algibeira uma cigarreira de macio 
cabedal azul, com a inicial K de ouro.
- No, no  minha.
 - Ah, mil desculpas! Nesse caso deve ser da vtima, pois K  tambm a inicial de Kettering. 
Estvamos na dvida, pois madame tinha outra cigarreira na mala e pareceu-nos estranho que trouxesse 
duas. -- Voltou-se para Derek e perguntou-lhe: - Sabe se esta cigarreira era de sua esposa?
 Derek pareceu momentaneamente perplexo e gaguejou um pouco, ao responder:
 - N-no sei... suponho que sim.
 - No , por acaso, sua?
 - Certamente que no! Se fosse minha, no estaria no compartimento de minha mulher.
 Poirot arvorou um ar ainda mais ingnuo e infantil e insinuou, em tom de grande sinceridade:
 - Pensei que talvez a tivesse deixado cair quando
esteve no compartimento de sua esposa...
 - No estive no compartimento de minha mulher!
J o repeti  Polcia uma dzia de vezes!
 - Mil perdes! - murmurou Poirot, com o seu ar
mais repeso. - Foi mademoiselle quem mencionou que o vira entrar...
 Calou-se, com um semblante revelador de grande embarao, e Katherine fitou Derek. Pareceu-lhe plido, 
mas
talvez fosse imaginao sua, e soltou uma gargalhada bastante natural.
 - Enganou-se, Miss Grey - afirmou, despreocupado. - Pelo que a Polcia me disse, deduzi que o meu 
compartimento ficava apenas a uma porta ou
duas afastado do de minha mulher, facto de que nunca suspeitei. Deve ter-me visto entrar, sim, no meu 
compartimento.
 Levantou-se bruscamente, ao ver aproximar-se Van Aldin e Knighton, e anunciou:
 - Agora deixo-os. No posso tolerar o meu sogro por preo nenhum.
 Van Aldin cumprimentou Katherine cortesmente, mas via-se que estava mal-humorado.
 - Parece muito amigo de ver jogar tnis, Mister
Poirot - observou, carrancudo.
 -  um prazer para os meus olhos! - confessou o
detective muito calmo.
 - Ainda bem que est em Frana, pois nos Estados Unidos somos feitos de material mais rijo - comentou 
Van Aldin. - L,
vm primeiro os negcios e depois o prazer.
 Poirot no se ofendeu. Pelo contrrio, sorriu suave e confiantemente.
 - No se irrite, peo-lhe; cada um tem os seus
mtodos prprios. Pelo meu lado, achei sempre encantador e agradvel combinar trabalho com prazer.
 Olhou para os outros dois, que conversavam animadamente, absortos um no outro. Acenou com a cabea, 
satisfeito, e incninou-se para o milionrio, a quem disse, em voz baixa:
 - No estou aqui apenas por uma questo de prazer, Mister Van Aldin. Repare naquele velho alto, aqui

defronte de ns... aquele de rosto macilento e barba venervel.
 - J reparei. E ento?
 - Ento,  Mister Papopolous.

 - Grego?
 - Exactamente, grego.  tambm um antiqurio
de fama mundial, tem uma pequena loja em Paris e a Polcia suspeita de que  qualquer coisa mais...

 - O qu?
 - Receptador de mercadorias roubadas, sobretudo de jias. No h nada relacionado com a relapidao e 
o reengaste de pedras preciosas que ele no conhea. Tem negcios com as pessoas mais importantes da 
Europa e com o
rebotalho do baixo mundo.
 Van Aldin escutava-o e fitava-o com redobrada ateno.
 - E ento? - repetiu, mas em tom diferente.
 - Pergunto a mim mesmo... - Bateu dramaticamente no peito e prosseguiu: - Eu, Hercule Poirot, pergunto 
a mim mesmo por que motivo veio Mister Papopolous
subitamente a Nice?
 Van Aldin estava impressionado. Chegara a duvidar de Poirot, a suspeitar que dera o que tinha a dar,
profissionalmente, e no passava j de um poseur. Agora, porm, recuperara a confiana e a opinio 
primitiva acerca do pequeno detective.
 - Apresento-lhe as minhas desculpas, Mister Poirot.
 Poirot esboou um gesto extravagante e exclamou:
 - Ora, isso no tem importncia nenhuma! Agora escute, Mister Van Aldin; tenho notcias para si.

 O milionrio olhou-o vivamente, cheio de interesse, e Poirot
comentou:
 - J sabia que se interessaria. No ignora, Mister
Van Aldin, que o conde de la Roche est sob vigilncia
 desde a sua entrevista com o juiz de instruo. No dia
 seguinte, na sua ausncia, a Villa Marina foi revistada
 pela Polcia.
 - Encontraram alguma coisa? Aposto que no!
 - A sua perspiccia merece parabns, Mister Van
Aldin - comentou o detective, com uma pequena vnia. - No
encontraram nada de natureza incriminadora, nem alis era de
esperar que encontrassem.
O conde de la Roche, como expressivamente costuma
dizer-se, no nasceu ontem;  um cavalheiro astuto,
com grande experincia.
 - Continue - pediu o americano, impaciente.
 -  possvel, sem dvida, que o conde no precisasse de esconder nada de natureza comprometedora;
mas no devemos ignorar a possibilidade. Portanto, se
tinha alguma coisa que esconder, onde a escondeu?
No em casa, pois a Polcia revistou-a minuciosamente; no na
sua pessoa, pois sabe que corre o risco de
ser preso de um momento para o outro. Falta... o seu
automvel. Como disse, tem estado vigiado. Nesse
dia, foi seguido at Monte Carlo, de onde seguiu, por
estrada, para Menton, conduzindo ele prprio. O seu
automvel tem um motor potentssimo, que lhe permitiu
distanciar-se dos seus perseguidores, os quais o
perderam por completo de vista durante cerca de um
quarto de hora...
 - E o senhor pensa que, nesse quarto de hora, o
conde escondeu qualquer coisa, na berma da estrada? perguntou o milionrio, incapaz de disfarar o
seu interesse.
 - Na berma da estrada, no; a n'est pas pratique.
Mas escute. Eu, Poirot, apresentei uma soluo a
Monsieur Carrge, que simpaticamente a aprovou, e
assim procurou-se em todos os postos de correio das
cercanias se algum conhecia de vista o conde de la
Roche... O senhor compreende, a melhor maneira de
esconder uma coisa  expedi-la pelo correio.
 - E ento? - insistiu Van Aldin, impaciente.
 - Ento... voil! - com um floreado dramtico
 ,
tirou da algibeira um embrulhinho castanho, ao qual
fora retirado o cordel. - Nesse quarto de hora de intervalo, o
nosso cavalheiro expediu isto.

 - Para que morada?
 - Podia dizer-nos alguma coisa, de facto, mas
infelizmente no diz. O embrulho foi enviado a um
daqueles pequenos quiosques de venda de jornais, de
Paris, que guardam cartas e volumes at serem reclamados,
mediante uma pequena comisso.

 - Mas que contm o pacote? - quis saber o americano, cada
vez mais impaciente.

 Poirot retirou o papel castanho, que ocultava uma
caixinha quadrada, de carto, e olhou  sua volta.

 -  boa altura, agora - disse, calmamente. - Todos os olhos
esto postos no jogo. Veja, monsieur...
 Levantou a tampa da caixa uma fraco de segundo apenas e
Van Aldin soltou uma exclamao de indizvel espanto:
 - Meu Deus, os rubis!
 Sentou-se, lvido e estonteado, enquanto Poirot
guardava a caixinha e sorria placidamente. De sbito,
como se despertasse de um transe, Van Aldin inclinou-se para a
frente e apertou to calorosamente a mo do
detective que este se torceu de dor.
 - Formidvel! - exclamou. - Formidvel! O senhor  o melhor
que h!
 - Oh, so favores! - afirmou, modestamente. Ordem mtodo, estar preparado para eventualidades... E 
apenas isso que  preciso.
 - Suponho que o conde de la Roche foi preso? -- inquiriu Van Aldin, ansioso.

 - No.
 - No? - repetiu o milionrio, cheio de espanto. - Mas porqu? Que mais querem?
 - O libi do conde continua vlido.
 - Mas isso  uma tolice!
 - Tambm o creio, mas infelizmente crer no basta;  preciso provar.
 - E, entretanto, ele escapar-lhes- por entre os dedos!
 - No escapar! - afirmou, enrgico. - O conde no pode
dar-se ao luxo de sacrificar a sua posio social. Custe o que custar, ficar e arrostar as consequncias.
 - Mas no compreendo...
 - Conceda-me um momento, monsieur - interrompeu-o Poirot, levantando a mo. - Tenho uma ideiazinha, 
sabe? Muitos se tm rido das ideiazinhas
de Hercule Poirot... e arrependido.
 - Bem, de que ideia se trata?
 Poirot deixou passar um momento antes de responder:
 - Procur-lo-ei no seu hotel, amanh, s onze horas da manh. At l, no diga nada a ningum.



XXII

M. PAPOPOLOUS ALMOA


 M. Papopolous tomava o pequeno-almoo, sentado  mesa com sua filha, Zia, quando bateram  porta da 
sala e um mandarete entrou e lhe entregou um carto.
M. Papopolous leu-o, ergueu as sobrancelhas e estendeu-o  filha.
 - Hercule Poirot... - murmurou, coando pensativamente a orelha esquerda. - Que querer? - Pai e filha 
entreolharam-se e o antiqurio acrescentou:
- Vi-o ontem, no tnis... Zia, isto no me agrada nada.
 - Foi-lhe muito til, em tempos - recordou-lhe a filha.
 -  verdade - concordou M. Papopolous. -- Alm disso, diz-se que se retirou do trabalho activo...
 Pai e filha tinham falado na sua lngua ptria, mas a seguir M. Papopolous disse ao mandarete, em 
francs:

 - Faites monter ce monsieur.
 Poucos minutos depois, elegantemente vestido e a balanar uma bengala, com ar garboso, M. Poirot 
entrou na sala.
 - Meu caro, M. Papopolous!
 - Meu caro, M. Poirot!
 - Mademoiselle Zia... - saudou-a com uma vnia corts.
 - Queira desculpar continuarmos a almoar -- disse o grego, deitando uma chvena de caf. - A sua visita 
... um pouco matinal.
 - Escandalosamente matinal, mas, compreende, estou cheio de pressa.
 - Ah! - exclamou o grego. - Anda a investigar algum caso?
 - Um caso muito srio: a morte de Madame Kettering.
 - Ora deixe ver... - M. Papopolous olhou inocentemente para o tecto. - No foi a senhora que morreu no 
Comboio Azul? Vi a notcia nos jornais, mas no havia qualquer indicao de crime...

 - Pareceu melhor ocultar o facto, no interesse da justia - esclareceu Poirot.

 - E em que posso ser-lhe til, M. Poirot? - indagou o
antiqurio, delicadamente, aps uma pausa.
 - Serei breve e explcito - prometeu o detective.
 Tirou da algibeira a caixa que mostrara ao americano, em
Canes, abriu-a, retirou os rubis e estendeu-os a
Papopolous.
 Embora Poirot olhasse atentamente o grego, no
viu mover-se um nico msculo do seu rosto. Papopolous pegou
nas pedras, examinou-as com um certo ar
indiferente e depois olhou, interrogador, para o detective.
- Soberbas, no acha? - perguntou este.
- Excelentes.
- Quanto lhe parece que valem?
O rosto do grego tremeu um pouco.
 -  necessrio dizer-lho, Monsieur Poirot?
 -  inteligente, M. Papopolous. No, no  preciso dizer-mo.
No valem, por exemplo, quinhentos mil
dlares?
 O grego desatou a rir e Poirot fez-lhe companhia.
 - Como imitao, so excelentes, como j disse -- observou
Papopolous, devolvendo-lhe as pedras. - Seria indiscrio
perguntar-lhe, Monsieur Poirot, onde
as arranjou?
 - De modo nenhum. No me importo nada de o
dizer a um velho amigo como o senhor. Estavam em
poder do conde de la Roche.
 M. Papopolous ergueu eloquentemente as sobrancelhas e
murmurou:
 - Deveras?
 Poirot inclinou-se para a frente, com o seu ar mais
inocente e enganador.
 - Porei as cartas na mesa, Monsieur Papopolous.
- As pedras que serviram de modelo a estas, as originais,
foram roubadas a Madame Kettering, no Comboio Azul. Antes de
mais nada, quero afirmar-lhe o
seguinte: no estou empenhado na recuperao delas; isso
 com a Polcia. Tambm no trabalho para a Polcia,
mas para Monsieur Van Aldin, e pretendo apenas deitar a mo ao
indivduo que matou Madame Kettering.
As jias interessam-me simplesmente pela possibilidade de me
conduzirem ao assassino. Compreende?
 A ltima palavra foi pronunciada de maneira significativa e
M. Papopolous, imperturbvel, disse apenas:
 - Continue.
 - Parece-me provvel, monsieur, que as jias mudem de mos
em Nice... se j no mudaram.
 - Ah! - exclamou M. Papopolous, sorvendo o
seu caf e parecendo um pouco mais nobre e patriarcal
do que de costume.
 - Disse para comigo: cQue sorte! - continuou
Poirot, entusiasmado. - O meu velho amigo, Monsieur
Papopolous, est em Nice e ajudar-me-!

 - E como lhe parece que poderei ajud-lo? - inquiriu o
grego, friamente.

 - Calculei que, sem dvida, Monsieur Papopolous estava em
Nice para tratar de negcios...
 - De modo nenhum! - exclamou o antiqurio.

- Estou aqui por causa da minha sade, por ordem dos mdicos - e tossiu cavernosamente.
 - Desola-me a notcia - confessou Poirot, com falsa sinceridade. - Mas, continuando: quando um gro-
duque russo, uma arquiduquesa austraca ou um prncipe italiano desejam dispor das jias da famlia, quem 
procuram? Monsieur Papopolous, no  verdade? O negociante famoso em todo o mundo pela discrio 
com que trata destas coisas. 
 O outro esboou uma leve inclinao da cabea e murmurou:
 - Lisonjeia-me.

 - A discrio  uma grande coisa - afirmou Poirot, o que lhe valeu um sorriso fugidio do grego.
- Eu tambm sei ser discreto.
 Os olhos dos dois homens encontraram-se e Poirot
continuou a falar, devagar e escolhendo bem as palavras.
 - Disse para comigo: "Se estas jias mudaram de mos em Nice, Monsieur Papopolous deve ter ouvido
falar no assunto. Tem conhecimento de tudo quanto
se passa no mundo das jias.
 - Ah! - exclamou o antiqurio, servindo-se de
um croissant.
 - Mas a Polcia nada tem a ver com o caso, compreende? afirmou Poirot. -  um assunto meramente 
pessoal.
 - Correm boatos, sem dvida - admitiu M. Papopolous,
cauteloso.
 - Como, por exemplo?
 - Existe alguma razo para que lhos confie?

 - Penso que sim. Lembre-se, Monsieur Papopolous, de que h
dezassete anos teve nas suas mos determinado artigo, que lhe
fora confiado, por uma
questo de segurana, por... enfim, uma pessoa proeminente...
Lembre-se de que, de sbito, esse mesmo
artigo desapareceu e o senhor ficou, se me permite a
expresso, em muito maus lenis.
 Fitou docemente a rapariga, que afastara o prato e
a chvena, apoiara os cotovelos na mesa e o queixo na
palma das mos, e escutava avidamente.
 - Nessa altura encontrava-me em Paris e o senhor
mandou-me chamar - prosseguiu o detective, sem
desfitar Zia. - Colocou-se nas minhas mos e disse-me que, se
conseguisse restituir-lhe esse artigo, poderia contar com a
sua eterna gratido. Eh bien, consegui
restituir-lho !
 - Foi o momento mais desagradvel da minha
carreira - confessou o grego, com um profundo suspiro.
 - Dezassete anos  muito tempo - continuou
Poirot, pensativo -, mas creio no me enganar ao dizer que um
homem da sua raa no esquece.
 - Um grego? - perguntou Papopolous, com um
sorriso irnico.
 - No era  nacionalidade grega que me referia -- redarguiu
o detective.
 Seguiu-se um momento de silncio, findo o qual o
velho negociante se endireitou e volveu, orgulhosamente:
 - Tem razo, Monsieur Poirot, sou judeu. E, como disse, os
da minha raa no esquecem.
 - Ajudar-me-, ento?
 - No que se refere s jias, monsieur, nada posso
fazer. - Era agora o grego quem, como Poirot fizera
antes, escolhia cuidadosamente as palavras. - No sei
nada, no ouvi nada. Mas talvez possa prestar-lhe outro favor,
se, por acaso, se interessar por corridas de
cavalos.
 - Em certas circunstncias, talvez me interesse -- respondeu
o detective, olhando-o com ateno.

 - Corre em Longchamps um cavalo em que, parece-me, valeria a pena tentar. No tenho a certeza, porm, 
pois, como compreende, estas notcias passam
por muitas mos...

 Fez uma pausa e fitou o detective, como se quisesse
certificar-se de que o outro o compreendia.
 - Perfeitamente, perfeitamente - redarguiu Poirot.
 - O nome do cavalo - continuou o grego, recostando-se na
cadeira e unindo as pontas dos dedos - 
O Marqus. Penso, mas no tenho a certeza, que
 um cavalo ingls. Que dizes tu, Zia?
 - Tambm me parece - respondeu a rapariga.
 - Agradeo-lhe, monsieur - disse Poirot, levantando-se. -  uma grande coisa ter, como dizem os ingleses 
em gria de hipdromo, uma achega da cavalaria... At  vista, monsieur, e muito obrigado.
 Voltou-se para a rapariga e despediu-se:
 - Au revoir Mademoiselle Zia. - Ainda me parece que foi ontem que a vi em Paris! Dir-se-ia que passaram 
dois anos, no mximo.

 - H uma diferena maior entre dezasseis e trinta e trs - redarguiu Zia, melanclica.
 - No seu caso, no h - afirmou Poirot, galanteador. - Espero que a senhora e o seu pai jantem comigo, 
uma noite destas.
 - Teremos muito prazer - volveu a rapariga.
 - Havemos de combinar. E agora... je me sauve!
 Na rua, Poirot comeou a trautear baixinho uma cano, enquanto balouava garbosamente a bengala.
Uma ou duas vezes sorriu serenamente, para consigo.
Entrou o primeiro posto dos correios que encontrou e expediu um telegrama. Levou algum tempo a redigi -
lo, mas servia-se de um cdigo e teve de recorrer  memria.
 Aparentemente, referia-se a um alfinete de peito perdido e era dirigido ao inspector Japp, da Scotland Yard; 
na realidade, era breve e incisivo: ccTelegrafe tudo
 quanto souber acerca homem cuja alcunha  O Marqus.

XXIII

NOVA HIPTESE

 Eram exactamente onze horas quando Poirot se apresentou no hotel de Van Aldin. Encontrou o milionrio 
s.
 -  pontual, Monsieur Poirot - comentou o
americano, levantando-se e cumprimentando-o, com
um sorriso.
 - Sou sempre pontual, respeito sempre a exactido. Sem ordem e mtodo... - Calou-se bruscamente
e depois acrescentou: -  possvel que j lhe tenha dito tudo isto. Comecemos imediatamente pelo assunto 
da minha visita.
 - A tal ideiazinha?
 - Sim, a tal ideiazinha - confirmou o detective, a sorrir. - Antes de mais nada, monsieur, gostaria de 
entrevistar mais uma vez a criada, Ada Mason. Est c?
 - Est.
 Van Aldin fitou-o, curioso, tocou uma campainha e mandou um empregado procurar Mason.
 Poirot saudou a rapariga com a habitual delicadeza, que nunca deixava de produzir efeitos naquele tipo de 
pessoas.
 - Boas tardes, mademoiselle. Queira sentar-se, se
monsieur permitir...
 - Sim, sim, pequena, sente-se - aquiesceu o
americano.
 - Obrigado, senhor - agradeceu Mason, cerimoniosamente, e
sentou-se  pontinha da cadeira.
 - Vim fazer-lhe mais perguntas - anunciou Poirot; precisamos de deslindar este assunto. Volto,
novamente,  questo do homem do comboio. Viu o
conde de la Roche e disse que pode ter sido ele, mas
no tem a certeza.
 - Como expliquei ao senhor, no vi a cara do cavalheiro. Por
isso  difcil...

 - Claro, compreendo a dificuldade - tranquilizou-a Poirot,
risonho. - Disse-nos tambm, mademoiselle, que esteve dois
meses ao servio de Madame
Kettering, no  verdade? Durante esses meses viu
muitas vezes o seu patro?
 Mason pensou, um momento, antes de responder:
 - Uma vez ou duas, senhor.
 - Perto ou longe dele?
 - Uma vez foi na Curzon Street; eu estava no primeiro andar,
olhei por cima do corrimo e vi o senhor
no vestbulo, em baixo. Sentia uma certa curiosidade,
compreende, pois sabia como as coisas estavam...Mason concluiu
com uma tossezinha discreta.
 - E a outra vez?
 - Encontrava-me no parque com Annie, uma das
criadas, e ela apontou-me o senhor, que passeava com
uma senhora estrangeira.
 - Agora escute, Mason: como sabe que esse homem que viu na
carruagem, a falar com a sua ama na
Gare de Lyon, no era o seu patro?
 - O patro? No creio que fosse.
 - Mas no tem a certeza - tentou o detective.
 - Bem, nunca pensei na possibilidade... - Era
evidente que a sugesto perturbara profundamente a
rapariga.
 - Deve ter ouvido dizer que o seu patro viajava
no mesmo comboio. Nada mais natural, portanto, que
fosse ele que se juntasse  sua senhora.
 - Mas o cavalheiro que falou com a senhora deve
ter vindo do exterior; vestia trajo de rua, sobretudo e
chapu mole.
 - Pois sim, mademoiselle, mas pense bem. O comboio tinha
acabado de chegar  Gare de Lyon e muitos
passageiros foram passear no cais. A sua patroa ia tambm
faz-lo e, para tal, vestira, sem dvida, o casaco
 de peles...
 -  verdade, senhor - concordou Mason.
 - O seu patro teria procedido de igual modo,
pois embora no interior do comboio estivesse calor, na estao estava frio. Vestiu, pois, o sobretudo, ps o 
chapu, apeou-se e comeou a passear pelo cais. Ao olhar para as janelas iluminadas, viu de sbito 
Madame
Kettering, que ignorava encontrar-se no comboio.
Naturalmente, ela solta uma exclamao de surpresa,
ao v-lo, e fecha a porta de comunicao entre os dois
compartimentos, pois  possvel que a conversa a travar entre
ambos seja de natureza ntima.
 Recostou-se na cadeira,  espera que a sua sugesto
produzisse, lentamente, efeito. Ningum sabia melhor
que Hercule Poirot que a classe a que Mason pertencia
no podia ser apressada. Tinha de dar-lhe tempo para
se libertar das suas prprias ideias preconcebidas. Ao
fim de trs minutos a rapariga falou, finalmente:
 - Bem, podia, de facto, ter sido; nunca pensei
nessa possibilidade. O senhor  alto e moreno, mais ou
menos da estatura do cavalheiro que vi. Confesso que foi
o sobretudo e o chapu que me fizeram pensar que vinha do
exterior... Sim, podia ter sido o senhor.
 - Muito obrigado, mademoiselle. No precisarei
mais de si. Um momento, s mais uma coisa! - Tirou
da algibeira a cigarreira que mostrara j a Katherine e perguntou: -  a da sua ama?
 - No, senhor, no  a da minha ama. Pelo menos...
 Pareceu subitamente perturbada, como se uma ideia tentasse impor-se aos seus pensamentos confusos.
 - Ento? - encorajou-a Poirot.
 - Creio... no tenho a certeza, mas creio que  uma cigarreira que a senhora comprou para dar ao senhor.
 - Ah! - exclamou Poirot, sem se dar por achado.
 - Mas se lha deu ou no, ignoro, evidentemente.
 - Com certeza, com certeza - murmurou o detective. -  tudo, mademoiselle, boas tardes.
 Ada Mason retirou-se discretamente, fechando a porta sem fazer barulho, e Poirot olhou para Van Aldin, 
com um
leve sorriso. O milionrio estava estupefacto.

 - Pensa... pensa que foi Derek? Mas... tudo indica que foi o
outro. Se o conde foi at apanhado em flagrante com as jias!

 - No.
 - Mas o senhor disse-me...
 - Que lhe disse eu, afinal?
 - Aquela histria das jias... mostrou-mas.

 - No.
 - Pretende dizer que no mas mostrou? - espantou-se o
americano.
 - No mostrei.
 - Ontem, no tnis...

 - No.
 -  o senhor que est doido, Monsieur Poirot, ou serei eu?
 - Nem o senhor, nem eu. Fez-me uma pergunta, respondi-lhe; perguntou-me se no lhe mostrei as jias, 
ontem; respondi-lhe que no. O que lhe mostrei,
Monsieur Van Aldin, foi uma imitao de primeira categoria,
difcil de distinguir das verdadeiras, a no
ser por um perito.



XXIV

POIROT ACONSELHA


 O milionrio levou alguns minutos a compreender.
Olhava para Poirot com uma expresso aparvalhada e
este acenava-lhe, suavemente, com a cabea.
 - Isto modifica tudo, no acha?
 - Imitao! - Van Aldin inclinou-se para a frente
e perguntou: - Teve sempre essa ideia, Monsieur
Poirot? Tem sido a que quer chegar, desde o princpio? Nunca
acreditou que o conde de la Roche fosse o
assassino?
 - Tive as minhas dvidas, e disse-lho. Roubo
com violncia e assassnio... - abanou a cabea,
energicamente, e afirmou: - No,  difcil de conceber;
no se coaduna com a personalidade do conde de la
Roche.
 - Mas acredita que ele tencionava roubar os
rubis?
 - Acredito; a esse respeito no restam dvidas.
Recapitularei o caso, como me parece que aconteceu.
O conde soube da existncia dos rubis e traou os seus
planos para se apoderar deles: inventou a histria romntica
do livro que estava a escrever, a fim de induzir a sua filha a
traz-los; arranjou um duplicado exacto das famosas pedras.  
claro, portanto, que a sua
inteno era substituir as verdadeiras pelas falsas. Sua
filha no era perita em pedras preciosas e provavelmente s
daqui a muito tempo descobriria o logro... e
quando o descobrisse... enfim, no creio que denunciasse o
conde. Ficaria a saber-se muitas coisas, pois
ele teria, com certeza, vrias cartas de madame em seu
poder. Oh, tratava-se de um plano muito inteligente e
seguro, do ponto de vista do conde, que provavelmente j o
experimentou algumas vezes.
 - Parece-me evidente, sim... - concordou Van
Aldin, como se falasse consigo mesmo.
 - Coaduna-se, de resto, com a personalidade do
conde de la Roche - afirmou Poirot.
 - Sim, mas agora... - Olhou interrogativamente
o detective e pediu-lhe: - Diga-me, Monsieur Poirot.
 -  simples - respondeu o detective, com um encolher de
ombros. - Algum se antecipou ao conde.
 Seguiu-se uma longa pausa, durante a qual Van
Aldin pareceu examinar mentalmente todos os pormenores.
 - H quanto tempo suspeitava do meu genro,
Monsieur Poirot? - perguntou por fim, sem rodeios.
 - Desde o princpio. Ele tinha motivo e oportunidade. Toda a
gente se convenceu de que o indivduo

que estivera no compartimento de madame, em Paris,
fora o conde de la Roche. Eu prprio pensava o mesmo, at que
o ouvi dizer que, uma vez, tomara o conde pelo seu genro. Isso
levou-me a crer que eram da
mesma altura e estatura e meteu-me na cabea algumas ideias
curiosas. Como a criada estava havia pouco
tempo ao servio da sua filha, era natural que no conhecesse
Monsieur Kettering bem de vista, pois ele
no vivia na Curzon Street. Alm disso, o indivduo em
questo tivera o cuidado de conservar o rosto voltado.

 - Acredita que ele... a matou - murmurou o
americano, em voz rouca.
 Poirot ergueu apressadamente uma das mos e protestou:
 - Um momento, eu no afirmei semelhante coisa!
Mas  possvel, muito possvel. Monsieur Kettering
encontrava-se em grandes apuros, ameaado de runa,
e o crime podia salv-lo.
 - Mas porque se apoderaria das jias?
 - Para que se pensasse que fora um roubo vulgar,
efectuado por ladres de comboios. De contrrio, as suspeitas recairiam imediatamente nele.
 - Se assim foi, que fez dos rubis?
 - Resta saber, mas h vrias possibilidades. Est em Nice um homem que talvez possa ajudar-nos, o 
indivduo que lhe apontei no tnis.
 Levantou-se, Van Aldin imitou-o e ps-lhe a mo num ombro:
 - Encontre o assassino de Ruth - murmurou, em voz rouca de emoo. -  s o que peo.
 - Confie em Hercule Poirot e nada tema - sentenciou Poirot, empertigando-se. - Descobrirei a verdade.
 Sacudiu um grozinho de poeira do chapu, sorriu tranquilizadoramente ao milionrio e deixou-o. No 
entanto, enquanto descia a escada, parte da confiana que alardeara desapareceu.

 Parece tudo muito fcil, comentou para consigo, mas h grandes dificuldades a vencer.
 Ao sair do hotel, estacou, de sbito. Defronte da porta parara um automvel que conduzia Katherine Grey, 
e Derek Kettering, de p do lado de fora, conversava animadamente com ela. Passado cerca de um
minuto o automvel partiu e Derek continuou parado,
a segui-lo com uma estranha expresso. Depois encolheu os
ombros, impaciente, soltou um suspiro fundo
e, ao voltar-se, encontrou Hercule Poirot ao seu lado.
Estremeceu, mau grado seu, enquanto os seus olhares
se cruzavam - o de Poirot firme e imperturbvel, o
do ingls com uma espcie de despreocupado desafio.
Kettering ergueu as sobrancelhas e perguntou, sarcstico:
 -  uma querida, no ?
 - Sim, essa frase descreve muito bem Mademoiselle
Katherine - concordou Poirot, pensativo. -  uma
frase muito inglesa e Miss Grey , tambm, muito inglesa. Derek continuou imvel, sem responder. - 
Mesmo assim, 
simptica, no acha?
 - Sim, no h muitas como ela - concordou Derek, docemente,
quase como se pensasse em voz alta.
 Poirot acenou significativamente e depois falou em
tom diferente, numa voz serena e grave que Derek
Kettering no lhe conhecia:
 - Perdoe a um velho, monsieur, se considerar impertinente o
que ele vai dizer-lhe, mas h um provrbio ingls que diz ser
bom terminar o amor antigo antes de iniciar um novo.
 Kettering fitou-o, furioso, e perguntou-lhe:
 - Que diabo quer dizer?
 - Zangou-se comigo, como alis j esperava - redarguiu o
detective, sem se perturbar. - Quanto ao
que quero dizer... enfim, quero dizer apenas que, se
voltar a cabea, ver um segundo automvel, tambm
com uma senhora.
 Derek girou nos calcanhares e o seu rosto ficou rubro de
clera.
 - Mirelle, diabos a levem! - resmungou. - Preferia...

 Poirot segurou-lhe num brao e perguntou-lhe:
 - Acha sensato o que ia fazer?
 Havia um brilho de advertncia no seu olhar, mas
Derek estava to furioso que no via nada. A clera
desarmava-o por completo.
 - Acabei definitivamente com ela, e ela sabe-o! -- afirmou,
fora de si.
 - O senhor acabou com ela, de acordo; mas acabou ela
consigo?
 - S obrigada  que Mirelle renunciar a dois milhes de
libras, disso pode ter a certeza! - exclamou
brutalmente, com uma gargalhada spera.
 -  um cnico, Monsieur Kettering - comentou
Poirot, erguendo as sobrancelhas.
 - Acha? - No havia alegria no sbito sorriso
que lhe entreabriu os lbios. - Vivo h tempo suficiente para
saber, Monsieur Poirot, que todas as mulheres so iguais. - O
rosto suavizou-se-lhe, de sbito, e acrescentou: - Todas menos
uma. - Olhou
Poirot de maneira provocante e, inclinando a cabea
na direco do cabo Martin, concluiu: - Aquela.
 - Ah! - exclamou Poirot, num tom que pretendia apenas
provocar o temperamento impetuoso do seu
interlocutor.
 - Sei o que vai dizer! - afirmou Derek, nervosamente. - Vai
referir-se  vida que tenho levado, ao
facto de no ser digno dela. Dir que no tenho sequer
o direito de pensar em tal coisa, que no  decente falar
assim com a minha mulher morta h to poucos
dias, e para mais assassinada...
 Fez uma pausa para tomar flego e Poirot aproveitou-a para observar, lamentoso:
 - Mas eu no disse nada!
 - Mas dir!
 - Direi?
 - Dir que no tenho a mnima probabilidade de
casar com Katherine!
 - No diria tal coisa, acredite - afirmou Poirot.
- A sua reputao  m, sem dvida, mas nunca me
constou que isso detivesse as mulheres. Se o senhor
fosse um homem de excelente carcter, de absoluta
moralidade, que no tivesse feito nada que no devesse
fazer e, possivelmente, tudo quanto devesse fazer, nesse caso,
sim, teria graves dvidas quanto ao seu xito.
Uma moral irrepreensvel no  romntica, como sabe,
embora s vezes seja apreciada... pelas vivas.
 Derek Kettering fitou-o, perplexo, girou nos calcanhares e
seguiu na direco do automvel parado.
Poirot ficou a olh-lo com certo interesse, viu a encantadora
mulher debruar-se do carro e falar, mas o
ingls no parou. Levantou o chapu e seguiu o seu
caminho.
 a y est, murmurou Hercule Poirot, para consigo. So
horas de voltar para casa.
 Encontrou o imperturbvel George a passar calas
a ferro.
 - Um dia agradvel, George, um pouco fatigante,
mas no sem interesse.
 George ouviu o comentrio com a habitual cara de
pau.
 - Ainda bem, senhor.
 - A personalidade de um criminoso  interessante, George. H
muitos criminosos que possuem grande
encanto pessoal.
 - Sempre ouvi dizer que o doutor Crippen era um
cavalheiro de falas agradveis, e no entanto cortou a mulher aos bocadinhos.
 - Os teus exemplos so sempre edificantes, George.
 O telefone tocou, nesse momento, e Poirot atendeu:
 - Sim, sim,  Hercule Poirot que fala.
 - Aqui, Knighton. Um momento, Monsieur Poirot, pois Mister Van Aldin deseja falar-lhe.
 Pouco depois, a voz do milionrio soava ao ouvido do detective:
 - Monsieur Poirot? Queria apenas dizer-lhe que Mason me procurou, por sua prpria iniciativa. Diz

que esteve a pensar e que tem quase a certeza de que o homem que viu em Paris era Derek Kettering. Na 
ocasio notou nele um no sei qu familiar, que no conseguiu, no entanto, identificar. Mas agora tem a 
certeza.
 - Muito obrigado, Monsieur Van Aldin. Isso ajuda-nos.
Desligou e ficou um momento parado, com um curioso sorriso. George teve de falar-lhe duas vezes antes 
de obter resposta.
 - O qu? Que disseste?
 - Perguntei se almoava em casa ou fora.
 - Nem uma coisa, nem outra. Irei para a cama e tomarei uma tisana. O esperado aconteceu, e quando o 
esperado acontece emociona-me sempre.



XXV

DESAFIO


 Quando Derek Kettering passou pelo automvel, Mirelle debruou-se e disse-lhe:
 - Dereek, preciso de falar contigo um momento...
 Mas Derek limitou-se a tirar-lhe o chapu e a seguir o seu caminho, sem parar.
 Ao chegar ao hotel, o porteiro saiu do cubculo de madeira e informou:
 - Est um cavalheiro  sua espera, monsieur.

 - Quem ?
 - No indicou o nome, monsieur, mas disse ter
um assunto importante a tratar com o senhor e que esperaria.
 - Onde est?
 - Na saleta, monsieur. Preferiu-a  antecmara,
pois disse que era mais ntima.
 Derek agradeceu e dirigiu-se para a saleta, onde
apenas se encontrava o visitante. Este levantou-se, ao
v-lo entrar, e saudou-o com corts inclinao de cabea.
Derek vira o conde de la Roche apenas uma vez,
mas no teve dificuldade em reconhecer o aristocrtico
personagem, o que lhe provocou um irritado franzir
de sobrancelhas. Era o cmulo da impertinncia!
 - O conde de la Roche, suponho? Creio que perdeu o seu tempo
vindo aqui.
 - Espero que no - discordou o conde, mostrando os dentes
brancos num sorriso.
 Regra geral, o encanto do senhor de la Roche no surtia efeito quando aplicado a representantes do seu 
prprio sexo, pois todos os homens, sem excepo, nutriam por ele profunda antipatia. Derek Kettering
sentia um grande desejo de correr com ele a pontap e s o deteve a conscincia de que um escndalo, 
nas presentes circunstncias, seria prejudicial. Mais uma vez o surpreendeu que Ruth pudesse ter gostado 
daquele indivduo, como sem dvida gostara. Era um salafrrio da pior espcie.
 - Estou aqui para discutir um pequeno assunto de interesse e creio que seria aconselhvel ouvir-me.
 Derek olhou-lhe para as mos delicadamente tratadas e sentiu-se novamente tentado a correr com ele a 
pontap, mas mais uma vez se conteve. Notara a insinuao ameaadora das palavras do outro, mas 
interpretou-a  sua
maneira, pois julgava haver vrios motivos para ser aconselhvel ouvir o que o conde tinha a dizer.
 Sentou-se a tamborilar impacientemente na mesa e perguntou, irritado:
 - De que se trata?
 No era, no entanto, hbito do conde explicar-se com clareza, sem rodeios.
 - Permita-me, monsieur, que lhe apresente as minhas
condolncias pela sua recente perda.
 - Advirto-o de que, se armar em impertinente,
sai por essa janela - ameaou Derek, serenamente,
indicando com a cabea a janela existente ao lado do
conde, que se mexeu na cadeira, inquieto.

 - Enviar-lhe-ei os meus amigos, monsieur, se  isso que
deseja - redarguiu, no entanto, altivamente.
 - Um duelo, hem?! - exclamou Derek, a rir. -- Meu caro
conde, para isso era preciso que eu o tomasse a srio.
Contudo, com prazer o correria a pontap
pelo Promenade des Anglais abaixo!
 O conde achou melhor no se ofender. Limitou-se
a erguer as sobrancelhas e a murmurar:
 - Os ingleses so brbaros.
 - Mas, afinal, que quer dizer-me?
 - Serei franco e breve - comeou o senhor de la
Roche. - Convm-nos a ambos, no  verdade?
 Sorriu novamente, com o seu sorriso blandicioso,
mas Derek redarguiu, em tom seco:
 - Continue.
 O conde olhou para o tecto, juntou as pontas dos
dedos e murmurou, docemente:
 - Herdou uma quantidade de dinheiro, monsieur...
 - Que diabo tem voc com isso?
 O conde endireitou-se, indignado, e exclamou:
 - Mancharam o meu nome, monsieur! Sou suspeito... acusado...
de um crime sujo...
 - A acusao no partiu de mim - volveu Derek,
friamente. - Como parte interessada, no exprimi
qualquer opinio.
 - Estou inocente! - afirmou de la Roche. - Juro perante o
cu - levantou a mo para o cu - que
estou inocente!
 - Creio que o juiz de instruo encarregado de resolver o
caso  Monsieur Carrge - insinuou Derek,
mas o conde fez ouvidos de mercador.
 - No s sou injustamente suspeito de um crime
que no cometi como tenho tambm grande necessidade de
dinheiro.
 Tossiu suave e sugestivamente e Derek levantou-se.
 - J esperava por isso, seu chantagista reles! -- vociferou.
- Mas daqui no leva um centavo! Minha
mulher est morta, nenhum escndalo que porventura
provoque a atingir. Calculo que lhe tenha escrito cartas
idiotas, mas se eu lhas comprasse agora por uma
conta redonda, tenho a certeza de que guardaria uma
ou duas, para mais tarde. A minha resposta, Monsieur
de la Roche,  que chantagem  uma palavra muito
feia, tanto em Inglaterra como aqui. Boas tardes.
 - Um momento - pediu o conde, estendendo a
mo, quando Derek fez meno de lhe voltar as costas. Engana-se, monsieur, engana-se redondamente;
sou, espero, um gentleman! - Derek no conteve uma
gargalhada. - As cartas que recebo de senhoras so
para mim sagradas. - Atirou a cabea para trs, num
belo gesto de nobreza, e continuou: - A proposta que
tencionava fazer-lhe era de natureza inteiramente diferente.
Estou, como j disse, muito precisado de dinheiro e a minha
conscincia pode impelir-me a fornecer  Polcia certas
informaes...
 - Que quer dizer? - perguntou Derek, voltando-se devagar.
 - Certamente no  preciso entrar em pormenores? - perguntou
de la Roche, exibindo de novo o seu
sorriso cativante. - cProcurem quem beneficia com o
crime, no  o que costumam dizer? Ora, como eu
disse, o senhor herdou uma quantidade de dinheiro...
 Derek soltou uma gargalhada e comentou, desdenhoso:
 - Se  s isso...
 - No  s isto, meu caro senhor! No viria procur-lo se
no possusse informaes muito mais precisas e
pormenorizadas. No  agradvel, monsieur, ser
preso e julgado por homicdio.
 Derek aproximou-se com tal expresso de clera
que, involuntariamente, o conde recuou um ou dois
passos.
 - Est a ameaar-me? - perguntou o jovem ingls, furioso.
 - No direi mais nada - garantiu o conde.
 - No me lembro de intrujice maior!

 - Engana-se, no se trata de intrujice. Para o convencer da
minha boa-f, acrescento que obtive as informaes por intermdio de certa dama.  ela que
possui a prova irrefutvel de que o senhor cometeu o assassnio.
 - Ela? Quem?
 - Mademoiselle Mirelle.
 Derek recuou, como se lhe tivessem batido, e murmurou:
 - Mirelle...
 O conde apressou-se a aproveitar o que julgou ser
uma vantagem:
 - Uma bagatela de cem mil francos... No peo
mais.
 - O qu? - perguntou Derek, distrado.
 - Dizia, monsieur, que uma bagatela de cem mil
francos satisfaria a minha... conscincia.
 Derek pareceu recompor-se, fitou o conde e inquiriu:
 - Quer a minha resposta agora?
 - Se fizesse o favor...
 - Ento aqui a tem: v para o inferno! Entendeu?
 Girou nos calcanhares e saiu da saleta, deixando o
conde mudo de espanto.
 Uma vez na rua, meteu-se num txi e mandou seguir para o
hotel de Mirelle. Entregou o carto 
porteira, que o informou de que a bailarina acabava
de chegar.
 - Leve isto a mademoiselle e pergunte-lhe se pode
receber-me.
 Pouco depois, convidaram-no a acompanhar um
mandarete.
 Uma onda de perfume extico entrou-lhe pelas narinas ao
chegar aos aposentos da bailarina, que estavam cheios de
cravos, orqudeas e mimosas. Mirelle
encontrava-se junto da janela, envolta num peignoir de
renda.
 - Voltaste, Dereek! - exclamou, indo ao seu encontro de mos
estendidas. - Eu sabia que voltarias!
 Derek afastou-lhe as mos e olhou-a com severidade.
 - Porque mandaste o conde de la Roche procurar-me?
 Fitou-o com um espanto que o jovem ingls julgou
sincero.
 - Eu? Mandei-te o conde de la Roche? Mas para qu?
 - Aparentemente, para fazer chantagem - redarguiu, irritado.
 Mirelle continuou com o mesmo ar de espanto,
mas de sbito sorriu e abanou a cabea.
 - Claro, era de esperar! Ce type l no podia fazer
outra coisa; devia ter adivinhado. No, Dereek, no o
mandei.
 Olhou-a de maneira penetrante, como pretendesse
ler-lhe os pensamentos, e Mirelle continuou:
 - Explicar-te-ei tudo. Estou envergonhada, mas
explicar-te-ei. Outro dia, compreendes, estava cega de
raiva, completamente cega! O meu temperamento no
 nada paciente... Queria vingar-me de ti e, por isso,
procurei o conde de la Roche e disse-lhe que fosse 
Polcia e dissesse isto e aquilo... Mas nada receies, Dereek;
perdi a cabea, mas no por completo, e a prova
continua comigo. A Polcia nada poder fazer sem a
minha palavra, compreendes?
 Encostou-se a ele, fitando-o com olhos ternos, mas
Derek afastou-a brutalmente. Ficou imvel, com o
seio a arfar e os olhos semicerrados, semelhantes aos
de uma gata.
 - Tem cuidado, Dereek, tem muito cuidado! Voltaste para mim,
no voltaste?
 - Jamais voltarei para ti! - afirmou, com firmeza.
 - H, ento, outra mulher? - perguntou, parecendo-se mais do
que nunca com uma gata. - Aquela com quem almoaste, outro dia...  verdade ou no ?
 - Tenciono pedir a essa senhora que case comigo. Por isso, tanto me faz que saibas como no.

 - Aquela inglesa empertigada! Imaginas que eu o tolerarei por um momento que seja? Ah, no! - exclamou, 
com o belo corpo a vibrar. - Lembras-te da
conversa que tivemos em Londres, Dereek? Disseste que a nica coisa que te salvaria seria a morte da tua 
mulher e lamentaste que ela fosse to saudvel. Depois ocorreu-te a ideia de um acidente... de mais, at, 
que
um acidente.
 - Suponho que foi essa conversa que repetiste ao conde de la Roche? - perguntou Derek, desdenhoso.
 - Achas-me idiota? - perguntou Mirelle, a rir.
- A Polcia faria alguma coisa baseada numa histria vaga como essa? Dar-te-ei outra oportunidade: 
desistirs da inglesa, voltars para mim e ento, chri, jamais, jamais direi...
 - Dirs o qu?
 - Julgaste que ningum te viu... - insinuou, a rir docemente.
 - Que queres dizer?
 - Julgaste que ningum te viu, mas eu vi-te, Dereek, mon ami. Vi-te sair do compartimento de madame tua 
esposa, naquela noite, antes de o comboio chegar a Lyon. Mas sei mais do que isso: sei que, quando 
saste
do seu compartimento, ela estava morta.
 Derek fitou-a e, como um homem a sonhar, voltou-se devagar e saiu do aposento, cambaleante.



XXVI

UM AVISO


 - E assim somos bons amigos e no temos segredos um para o outro - disse Poirot.
 Katherine voltou-se para o olhar, pois notara-lhe na voz um tom de seriedade que nunca lhe ouvira.
 Estavam sentados nos jardins de Monte Carlo, onde Katherine
fora com os amigos. Logo  chegada tinham encontrado Knighton e Poirot. Lady Tamplin apoderara-se do 
primeiro e avassalara-o com interminvel
desfiar de reminiscncias a maioria das quais,
suspeitava Katherine, eram inventadas. Por fim dera-lhe o
brao e afastara-se com ele e o pobre major
olhara uma ou duas vezes para trs, por cima do ombro, com tal
expresso que Poirot sorrira.
 - Claro que somos amigos - confirmou Katherine.
 - Simpatizmos um com o outro desde o princpio - recordou o
detective.
 - Quando me disse que na vida real tambm
ocorrem romances policiais...
 - E no me enganei, pois no? - perguntou,
apontando enfaticamente o indicador. - C estamos,
plantados no meio de um! Para mim  natural,  o
meu mtier, mas para si  diferente. Sim - repetiu
pensativo -, para si  diferente.
 Katherine olhou-o vivamente; era como se estivesse a
avis-la, a sublinhar alguma ameaa em que no
reparara.
 - Porque diz que estou no meio de um?  verdade que tive
aquela conversa com Mistress Kettering,
pouco antes de a matarem, mas agora... agora acabou -se. J
no tenho nada a ver com o caso.

 - Ah, mademoiselle, mademoiselle, poderemos dizer, alguma
vez, acabei com isto ou com aquilo?

 - De que se trata? - perguntou-lhe Katherine,
 francamente. - Compreendo que est a tentar dizer -me
qualquer coisa, ou melhor, a insinuar, mas no
 sou forte em charadas nem em perceber insinuaes.
 Preferia que dissesse claramente o que tem a dizer, seja o
que for.
 Poirot fitou-a tristemente e comentou:
 - Ah, mais c'est anglais, a! Sempre o preto no
branco, sempre tudo bem claro e definido. A vida no
 assim, mademoiselle, certas coisas no so ainda,

embora projectem j a sua sombra... - Enxugou a
testa com um grande leno de seda e murmurou:
- Cus, estou a tornar-me potico. Sejamos concretos,
como diz. Para comear, que pensa do major Knighton?
 - Simpatizo bastante com ele - confessou Katherine. -  
encantador.
 Poirot suspirou e Miss Grey inquiriu:
 - Que se passa?
 - Respondeu com tanto entusiasmo! Se tivesse dito, em tom
indiferente, Oh,  simptico..., confesso
que ficaria mais satisfeito.
 Katherine sentiu-se um pouco constrangida e no
fez comentrios.
 - No entanto, quem sabe? - prosseguiu o detective, sonhador.
- Les femmes tm tantas maneiras de
ocultar os seus verdadeiros sentimentos que o entusiasmo pode
ser apenas aparente. - Novo suspiro.
 - No percebo... - comeou Katherine, mas
Poirot interrompeu-a:
 - No percebe porque estou a ser to impertinente,
mademoiselle? Sou velho e, de vez em quando, mas
pouco frequentemente, encontro algum cujo bem-estar me 
querido. Somos amigos, mademoiselle, disse-o
pelas suas prprias palavras. Por isso gostaria que fosse
feliz.
 Confusa, Katherine comeou a fazer desenhos no
saibro, com a ponta da sombrinha de cretone.
 - Fiz-lhe uma pergunta acerca do major Knighton;
permita agora que lhe faa outra: Gosta de Mister Derek
Kettering?
 - Mal o conheo...
 - Isso no  resposta.
 - Parece-me que .
 Poirot fitou-a, surpreendido com o tom da sua voz,
e depois meneou lenta e gravemente a cabea.
 - Talvez tenha razo, mademoiselle. Aqui onde me
v, conheo muito do mundo e sei que h duas grandes verdades:
um bom homem pode perder-se pelo
amor a uma m mulher, mas o contrrio tambm 
susceptvel de acontecer: um mau homem pode igualmente
perder-se pelo seu amor a uma boa mulher.
 Katherine levantou bruscamente a cabea.
 - Quando diz perder-se...
 - Refiro-me a perder-se do ponto de vista dele.
Pode ser-se sincero no crime como em qualquer outra
coisa.
 - Compreendo que est a tentar advertir-medisse Katherine,
numa voz baixa. - Mas contra quem?
 - No posso ler no seu corao, mademoiselle, e
mesmo que pudesse, creio que no mo permitiria. Direi apenas
que h homens que inspiram uma grande
fascinao s mulheres.
 - O conde de la Roche - comentou Katherine, a
sorrir.
 - H outros mais perigosos que o conde de la Roche, outros
possuidores de qualidades fascinantes:
atrevimento, ousadia, temeridade... Vejo que est fascinada,
mademoiselle, mas creio que  apenas isso. Espero que seja. Os
sentimentos deste homem de quem
falo so sinceros, mas mesmo assim...
 - Mesmo assim?
 Levantou-se, fitou-a e declarou, em voz baixa e
clara:
 - Talvez pudesse amar um ladro, mademoiselle,
mas no um assassino.
 Afastou-se bruscamente, deixando-a s, e nem se quer se
voltou ao ouvir a exclamao abafada de Katherine. Dissera o
que quisera dizer, agora devia dei x-la digerir a ltima e
inequvoca frase.
 Derek Kettering, que saa do Casino, viu-a s e
juntou-se-lhe.
 - Estive a jogar e no tive sorte - anunciou, com
uma gargalhada de despreocupao. - Perdi tudo...
Isto , perdi tudo quanto trazia.
 Katherine olhou-o, perturbada, consciente de que

havia na sua atitude algo novo, uma excitao oculta
que se traa em inmeras e diferentes manifestaes
imperceptveis.
 - J devia ter compreendido que  um jogador.
Atrai-o o esprito do jogo.
 - Talvez tenha razo, mademoiselle. No encontra
um no sei qu de estimulante no jogo? No h nada
como arriscar tudo numa parada!
 Apesar de se considerar uma pessoa calma e estlida,
Katherine experimentou uma vaga excitao.
 - Preciso de lhe falar... e quem sabe quando terei
outra oportunidade de o fazer? - prosseguiu Derek.
- Comea a tomar vulto a ideia de que assassinei a
minha mulher... No, por favor no me interrompa.
 absurdo, claro. - Fez uma pausa, antes de prosseguir com
mais firmeza. - Ao tratar com a Polcia e
com as autoridades locais tive de fingir uma certa decncia
que prefiro no adoptar consigo. Sempre pretendi fazer um
casamento por dinheiro e procurava
consegui-lo quando conheci Ruth Van Aldin. Tinha
um ar de frgil madonna e... bem, quando casei fi-lo
cheio de boas intenes, de promessas de regenerao
dirigidas a mim prprio. Mas esperava-me amarga decepo:
minha mulher amava outro homem, nunca
quis saber de mim para nada. Oh, no me queixo!
A transaco foi absolutamente respeitvel: ela, queria
Leconbury; eu, queria dinheiro. O que estragou tudo
foi o sangue americano de Ruth, pois embora no me
ligasse a mnima importncia, queria que lhe prestasse
constante vassalagem. Pouco faltou para me dizer claramente,
vezes sem conta, que me comprara e que,
portanto, lhe pertencia. O resultado foi portar-me
abominavelmente para com ela. Se meu sogro lho disse, no
mentiu. Na altura da morte de Ruth encontrava-me eu  beira da
derrocada total, da runa absoluta;
para se estar  beira da runa absoluta basta enfrentar
um homem como Rufus Van Aldin.
 - E depois? - perguntou Katherine, em voz
baixa.
 - Depois assassinaram Ruth... muito providencialmente respondeu, com um encolher de ombros.
 Riu-se, e o som do seu riso arrepiou Miss Grey.
 - Desculpe, foi um comentrio de muito mau
gosto, embora verdadeiro. Quero dizer-lhe ainda que,
mal a vi, compreendi que era a nica mulher do mundo para mim.
Tive... medo de si. Pensei que me traria
azar.
 - Azar? - repetiu, surpreendida.
 - Porque repetiu a palavra dessa maneira? - perguntou, de
olhos fixos nela. - Que est a pensar?
 - Pensava em muitas coisas que me disseram.
 - Dir-lhe-o muitas coisas a meu respeito, minha
querida, e a maioria sero verdades - afirmou, sorridente. Coisas ainda mais terrveis do que as que lhe
disseram j, coisas que nunca lhe direi. Toda a minha
vida fui um jogador e gostei de correr riscos... No me
confessarei a si, nem agora nem nunca; o passado
morreu. S quero que saiba uma coisa: juro-lhe solenemente que
no matei a minha mulher.
 Pronunciou o juramento com sinceridade, embora
com certo ar teatral, e prosseguiu, de olhos fitos no
olhar perturbado de Katherine:
 - Eu sei, outro dia menti-lhe... Estive no compartimento de
minha mulher, foi nele que me viu entrar.
 - Ah!
 -  difcil explicar porque l fui, mas tentarei.
Obedeci a um impulso. Esforava-me por que ela no
me visse, pois Mirelle dissera-me que Ruth ia encontrar-se com
o conde de la Roche em Paris e eu espiava-a. Convencera-me de
que era mentira, pelo que me fora dado ver, e sentia-me envergonhado do meu procedimento.
Por isso pareceu-me, de sbito, que seria bom pr os pontos nos c, de uma vez por todas, e empurrei 
a porta e entrei.
 - E depois? - insistiu docemente Katherine, quando Derek se calou.
 - Ruth estava deitada, a dormir... Tinha o rosto

voltado para a parede e s lhe vi a parte de trs da cabea. Podia t-la acordado, bem sei, mas perguntei a 
mim mesmo que haveria para dizer que no tivssemos j dito um ao outro, centenas de vezes... Ela 
parecia to repousada, to inofensiva... Sa o mais silenciosamente que pude.
 - Porque mentiu  Polcia?
 - Porque no sou um idiota chapado. Compreendi desde o princpio que, no captulo de mbil, sou o 
assassino ideal. Se confessasse que estivera no compartimento
antes de a assassinarem, estaria irremediavelmente perdido.
 - Compreendo...
 Mas compreendia, de facto? No sabia. Sentia a
atraco magntica da personalidade de Derek, mas
havia qualquer coisa em si que resistia, que a continha...
 - Katherine...

 - Eu...
 - Sabe que gosto de si. Gosta de mim tambm?
 - N-no sei.
 Franqueza. Ou gostava, ou no gostava. Se ao
menos...
 Olhou  sua volta, desesperadamente, como se procurasse
alguma coisa que a ajudasse. Um leve rubor
tingiu-lhe as faces ao ver um homem alto e louro, levemente
coxo, dirigir-se apressadamente para eles: o major Knighton.
 Foi com alvio e com inesperada ternura que o
cumprimentou. Derek levantou-se, carrancudo como
um cu de trovoada.
 - Lady Tamplin ficou s? - perguntou, desdenhoso. - Vou ter
com ela e dar-lhe o benefcio da minha presena.
 Girou nos calcanhares e deixou-os ss.
 Katherine sentia o corao a bater descompassada
e violentamente, mas a pouco e pouco, enquanto conversava de
banalidades com aquele homem calmo e
quase tmido, sentiu que recuperava o autodomnio.
 At que percebeu, perturbada, que Knighton lhe
revelava tambm o seu corao, como Derek, embora
de maneira muito diferente. Era acanhado, gaguejava
e proferia as palavras espasmodicamente, sem qualquer
eloquncia a apoi-las.
 - Desde que a vi... eu... eu... no devia falar to
cedo... mas Mister Van Aldin pode partir de um momento para o
outro e no terei talvez outra oportunidade... Sei que no
pode gostar de mim to depressa...
seria impossvel e, de qualquer modo,  presuno da
minha parte... Tenho alguns meios, mas no muitos...
No, por favor no responda agora; sei qual seria a sua
resposta. S quero que, se tiver de partir inesperadamente,
saiba que... que gosto de si.

 Katherine sentia-se comovida e perturbada.
Knighton falava de uma maneira enternecedora.

 - Queria ainda dizer que... enfim, se alguma vez
precisar de alguma coisa... tudo quanto eu puder...
 Pegou-lhe na mo, apertou-lha com fora, largou-a
e afastou-se rapidamente, na direco do Casino, sem
olhar para trs.
 Katherine ficou imvel, a v-lo afastar-se. Dois homens Derek Kettering, Richard Knighton... Dois
 homens to diferentes! Havia em Knighton bondade
 e um no sei qu que inspirava confiana. Quanto a
 Derek...
 De sbito, Katherine experimentou uma sensao
 curiosa. Dir-se-ia que no estava s naquele banco do
 jardim do Casino, que ao seu lado se encontrava algum... e
que esse algum era a morta, Ruth Kettering.
 Era como se Ruth quisesse desesperadamente dizer-lhe
 qualquer coisa, transmitir-lhe algo... A impresso era
 to estranha e forte que no podia ignor-la. Tinha a
 certeza de que o esprito de Ruth Kettering tentava
 transmitir-lhe uma mensagem de importncia vital...
 Por fim a impresso desvaneceu-se e Katherine levantou-se, a
tremer.
 Que desejava Ruth Kettering dizer-lhe to desesperadamente?

XXVII

ENTREVISTA COM MIRELLE


 Ao deixar Katherine, Knighton foi procurar Hercule Poirot, que encontrou na sala de jogo, a apostar o 
mnimo permitido em nmeros pares. Quando o major
 chegou, saiu o nmero trinta e trs e a parada do detective
foi recolhida.
 - Pouca sorte! - exclamou Knighton. - Volta a
 apostar?
 - Por agora, no.

I
 - Sente a atraco do jogo? - indagou o major, curioso.
 - Da roleta, no.
 Knighton lanou-lhe um olhar rpido, perturbou-se e
perguntou, constrangido, com certa deferncia:
 - Pode dispensar-me uns minutos, Mister Poirot.
Gostava de falar-lhe acerca de um assunto...
 - s suas ordens. Samos? Est agradvel, ao sol.
 Saram juntos e Knighton respirou fundo.
 - Gosto da Riviera - confessou. - Estive c pela primeira vez h doze anos, durante a guerra, quando
me mandaram para o hospital de Lady Tamplin. Vir
da Flandres para aqui foi como entrar no Paraso!
 - Deve ter sido, de facto.
 - Como a guerra parece longe, agora!
 Caminharam em silncio, durante algum tempo, e
por fim Poirot observou-lhe:
 - Tem qualquer coisa que o preocupa...
 - Tenho, na verdade. Como adivinhou?
 - Percebe-se perfeitamente.
 - No sabia que era to transparente.
 - Faz parte da minha profisso observar fisionomias explicou o detective, com dignidade.
 - Eu conto-lhe, Mister Poirot. Ouviu falar na bailarina
Mirelle?
 - A chre amie de Mister Derek Kettering?
 - Sim, essa. Como est ao corrente dessas relaes mais facilmente compreender a natural animosidade 
de Mister Van Aldin para com ela. Mirelle escreveu ao meu patro a pedir-lhe uma entrevista e ele ordenou-
me que redigisse uma recusa seca, o que fiz.
Esta manh, essa senhora apareceu no hotel e mandou entregar um carto, afirmando ser urgente e 
importantssimo falar imediatamente com Mister Van Aldin.
 - Est a interessar-me.
 - Mister Van Aldin ficou furioso e ordenou-me
que lhe transmitisse nova recusa, mas atrevi-me a desobedecer.
Parecia-me lgico e provvel que a bailarina possusse
informaes valiosas, pois sabemos que
viajou no Comboio Azul e podia muito bem ter visto
ou ouvido alguma coisa de importncia vital para ns.
No concorda comigo, Mister Poirot?
 - Concordo - declarou o detective, secamente.
- Mister Van Aldin procedeu, se me  permitido diz-lo, de
maneira muito idiota.
 - Ainda bem que  essa a sua opinio! Como ia
dizendo, achei to insensata a atitude de MIster Van Aldin que desci e tive eu uma entrevista com a 
senhora.
 - Eh bien?
 - A dificuldade consistiu em que Mademoiselle
Mirelle teimou em falar com Mister Van Aldin, pessoalmente.
Adocei o melhor que me foi possvel a
mensagem que o meu patro me mandara transmitir;
para ser franco, dei-lhe um significado inteiramente
diferente... Afirmei-lhe que Mister Van Aldin tinha,
naquele momento, muito que fazer, mas que podia comunicar-me o
que pretendia. No consegui convenc-la, porm, e partiu sem
dizer nada. Estou crente, no
entanto, de que ela sabe qualquer coisa.
 - O assunto  srio - observou Poirot, muito calmo. - Sabe
onde ela est instalada?
 - Sei, sim - respondeu Knighton, que mencionou o nome do hotel.

 - ptimo. Iremos l imediatamente.
 O secretrio pareceu hesitante e perguntou, a medo:
 - E Mister Van Aldin?
 - Mister Van Aldin  um teimoso e eu no discuto com
teimosos - respondeu o detective, secamente. - Actuo, apesar
da sua teimosia. Vamos falar j
com essa senhora. Dir-lhe-ei que Mister Van Aldin me
encarregou de o representar, e livre-se de me contradizer!
 Knighton continuava a hesitar, mas Poirot no ligou
importncia  sua hesitao.
 No hotel informaram-nos de que mademoiselle se
encontrava nos seus aposentos, e Poirot mandou entregar-lhe o
seu carto e o do major, depois de escrever
nas costas de ambos: Da parte de Mister Van Aldin.
 Mirelle mandou dizer que os recebia e, quando entraram na
sala onde ela se encontrava, Poirot tomou
imediatamente as rdeas da conversa:
 - Mademoiselle - anunciou, com uma vnia profunda -, vimos
em nome de Mister Van Aldin.
 - E porque no veio ele prprio?
 - Est indisposto, uma aborrecida laringite... Mas
encarregou-nos de o representarmos, a mim e ao major Knighton,
seu secretrio. A no ser, evidentemente, que mademoiselle
prefira aguardar uma quinzena...
 Se havia alguma coisa de que Poirot tinha a certeza, era de
que, para um temperamento como o de Mirelle, a simples palavra
esperar constitua uma maldio.
 - Eh bien, messieurs, falarei! - decidiu-se. -- Tenho sido
paciente, tenho-me contido, e para qu?
Para ser insultada! Sim, insultada! Quem se julga ele
para tratar Mirelle assim? Abandon-la como a uma
luva velha! Garanto-lhes que nunca um homem se cansou de mim;
sou eu sempre que me canso deles!
 Andava de um lado para o outro, com o corpo esguio a tremer
de raiva. Como uma mesinha lhe impedisse a passagem, atirou-a
violentamente contra a parede, estilhaando-a.
 - Eis o que lhe farei a ele! - gritou. - E mais
isto! - Pegou numa jarra de vidro cheia de lrios e
atirou-a para a lareira, onde se fez em mil bocados.
 Knighton fitava-a com um ar de fria desaprovao
britnica. Sentia-se embaraado e constrangido, mas
Poirot, pelo contrrio, divertia-se com a cena, saboreava-a,
deliciado.
 - Magnfico! - exclamou. - V-se que mademoiselle tem...
temperamento!
 - Sou uma artista, e todos os artistas tm temperamento! gritou a bailarina. - Avisei Dereek, disse-lhe
que visse o que fazia, mas no me deu ouvidos! - Virou-se,
furiosa, para Poirot e perguntou: -  verdade
que pretende casar com aquela miss inglesa, no ?
 Poirot tossiu, discreto.
 - On m'a dit - murmurou, melfluo - que a
adora apaixonadamente.
 - Foi ele que assassinou a mulher! - gritou Mirelle. - Pronto, a tm! Tinha-me dito que tencionava faz-lo, 
encontrava-se num beco sem sada e... zut!, escolheu a sada mais fcil!
 - Diz que Mister Kettering assassinou a esposa?
 - Sim, sim, sim! No me expliquei bem?
 - A Polcia querer provas dessa... hum... dessa declarao - lembrou Poirot.
 - Vi-o sair do compartimento da mulher, naquela noite, no comboio!
 - Quando? - perguntou o detective, vivamente.
 - Antes de o comboio chegar a Lyon.
 - Afirm-lo- sob juramento, mademoiselle? -- Era um Poirot diferente que falava agora, vibrante e decidido.
 - Afirmarei.
 Seguiu-se um momento de silncio. Mirelle arfava e os seus olhos, entre provocadores e assustados, iam 
de um homem para o outro.

 - O assunto  grave, mademoiselle - observou, por fim, Poirot. - Avalia a gravidade da acusao?
 - Evidentemente que avalio.
 - Muito bem. Nesse caso, compreender igualmente que no devemos perder tempo e que deve 
acompanhar-nos sem demora ao gabinete do juiz de instruo.
 Mirelle ficou petrificada. Hesitou, mas, como Poirot previra, no tinha sada possvel.
 - Est bem - decidiu-se. - Vou buscar um casaco.
 Sozinhos, Poirot e Knighton entreolharam-se.
 -  preciso malhar o ferro enquanto est quente, como costuma dizer-se - murmurou o detective. --  uma 
mulher temperamental e, daqui a uma hora, seria capaz de arrepender-se e de querer voltar com a palavra 
atrs. Temos de impedir a todo o custo que o faa.
 Mirelle reapareceu envolta numa capa de veludo cor de areia, debruada a pele de leopardo - ela prpria 
parecia um leopardo, fulvo e perigoso, com os olhos ainda coruscantes de clera e determinao.
 Encontraram M. Caux e M. Carrge juntos e, aps breves palavras preliminares de Poirot, Mademoiselle 
Mirelle foi cortesmente convidada a contar a sua histria.
Empregou mais ou menos as mesmas palavras que usara antes, ao cont-la a Poirot e ao major, embora 
adoptasse uma atitude mais sbria.
 - O que acaba de contar-nos  extraordinrio, mademoiselle!
- exclamou M. Carrge, devagar, e recostou-se na cadeira,
ajustou o pince-nez e observou atenta
e perscrutadoramente a bailarina. - Pretende que
acreditemos que Monsieur Kettering se vangloriou
antecipadamente do crime, na sua presena?
 -  a verdade! Disse que ela era demasiado saudvel e que
no morreria to cedo, a no ser por acidente. Acrescentou que
se encarregaria disso.
 - J pensou, mademoiselle, que est a colocar-se
na posio de cmplice e encobridora? - perguntou o
magistrado, severamente.
 - Eu?! De modo nenhum, monsieur! Nem por um
momento acreditei que ele falasse a srio! Nem por
um momento! Conheo os homens, monsieur; dizem
tantas tolices que seria uma sensaboria se tivssemos
de considerar tudo au pied de la lettre!
 O juiz de instruo ergueu as sobrancelhas, estupefacto:
 - Devemos pensar, ento, que considerou as ameaas de
Monsieur Kettering simples palavras ociosas?
E poderei perguntar-lhe, mademoiselle, que motivos a
levaram a rescindir os seus compromissos em Londres
e a vir para a Riviera?
 - Queria estar com o homem que amava - respondeu Mirelle,
fitando-o com olhos lnguidos. - Ser assim to estranho?
 Poirot perguntou-lhe, por sua vez, delicadamente:
 - Foi, ento, por desejo de Monsieur Kettering
que o acompanhou a Nice?
 Mirelle pareceu ter certa dificuldade em responder,
pois hesitou perceptivelmente antes de o fazer.
 - Nesses assuntos fao o que me apetece, monsieur respondeu por fim, com arrogante indiferena.
 Todos compreenderam que a resposta no era resposta, mas no
se manifestaram.
 - Quando se convenceu, pela primeira vez, de
que Monsieur Kettering assassinara a esposa?
 - Como j disse, vi Monsieur Kettering sair do
compartimento da mulher precisamente antes de o
comboio chegar a Lyon. Tinha uma expresso... ah,
naquele momento no podia compreender!, uma expresso
terrvel, acossada... Jamais esquecerei! - A voz
esganiou-se-lhe e abriu os braos, num gesto extravagante.
 -  natural - murmurou M. Carrge.
 - Depois, quando soube que Madame Kettering

estava morta  partida do comboio da estao de
Lyon... ento compreendi!
 - Mas nem mesmo assim informou a Polcia, mademoiselle observou o comissrio, suavemente.
 Mirelle olhou-o, com ar altivo. Era evidente que
lhe agradava o papel que representava.
 - Devia atraioar o meu amado? - perguntou. -- Ah, no peam
a nenhuma mulher que o faa!
 - No entanto, agora... - insinuou M. Caux.
 - Agora  diferente; ele traiu-me! Deverei sofrer
em silncio a sua traio?
 - Claro, claro - murmurou o juiz de instruo,
para lhe travar a lngua. - Agora, mademoiselle, agradecia que
lesse o seu depoimento e o assinasse, se o
achar conforme.
 Mirelle no perdeu tempo com leituras:
 - Est conforme, evidentemente - afirmou, levantando-se. No precisam mais de mim, messieurs?
 - Agora, no, mademoiselle.
 - E Dereek ser preso?
 - Imediatamente, mademoiselle.
 A bailarina riu, cruel, e aconchegou a capa ao corpo.
 - Devia ter pensado nas consequncias antes de
me insultar!
 - Um momento - pediu Poirot, com uma tossezinha discreta. S mais um pormenor...
 - O qu?
 - Porque pensa que Madame Kettering estava
morta quando o comboio partiu de Lyon?
 Mirelle fitou-o, surpreendida.
 - Mas estava morta!
 - Estava?
 - Claro que estava! Eu... - Calou-se bruscamente e Poirot,
que no perdia um nico gesto seu, notou
 a expresso cautelosa dos seus olhos. - Disseram-me
 que estava morta. Toda a gente o diz.
 - Ah! - exclamou Poirot. - Ignorava que o facto tivesse sido
mencionado fora do gabinete do juiz de
instruo.
 - So notcias que se espalham... - murmurou
Mirelle, vagamente perturbada. - Algum me disse,
mas no me lembro quem.
 Dirigiu-se para a porta e M. Caux apressou-se a levantar-se,
para lha abrir. Poirot deteve-a ainda uma vez:
 - E as jias? Perdo, mademoiselle, mas no poder dizer-nos
nada acerca das jias?
 - As jias? Que jias?
 - Os rubis de Catarina, a Grande. J que est to
bem informada, tambm deve saber alguma coisa a esse respeito.
 - No sei nada acerca de jias! - ripostou Mirelle,
irritada, e saiu pela porta fora.
 M. Caux sentou-se e o juiz de instruo suspirou.
 - Que fria! - exclamou. - Mas diablemente
chic! Ter dito a verdade? Suponho que sim.
 - H, sem dvida, alguma verdade na sua histria - comentou
Poirot. - Miss Grey confirmou parte
das afirmaes da bailarina, pois encontrava-se no corredor,
pouco antes de o comboio chegar a Lyon, e viu Monsieur Kettering entrar no compartimento da esposa.
 - O caso contra ele parece, pois, evidente - declarou o comissrio, com um suspiro. -  uma pena!
 - Que quer dizer? - admirou-se Poirot.
 - A ambio da minha vida tem sido deitar a mo ao conde de la Roche e desta vez, ma foi, cheguei a 
julgar que ia realiz-la. O outro... enfim, no  to
agradvel.
 - Se alguma coisa correr mal, ser muito aborrecido - observou M. Carrge, cauteloso, esfregando o nariz. 
- Monsieur Kettering  um aristocrata, os jornais faro
alarido e se nos enganarmos... - e encolheu
os ombros, inquieto.
 - E as jias? - perguntou o comissrio. - Que ter feito delas?

 - Tirou-as para despistar, est bem de ver, e devem constituir uma grande desvantagem - respondeu o juiz. 
- Acho que lhe ser difcil dispor delas.
 - Tenho uma ideia muito especial acerca das
 jias... - murmurou Poirot, sorridente. - Digam -me,
messieurs, que sabem a respeito de um indivduo
 conhecido pelo Marqus?
 O comissrio inclinou-se para a frente, excitadssimo, e
perguntou:
 - O Marqus? Pensa que est metido neste caso,
 Monsieur Poirot?
 - Perguntei-lhes se sabiam alguma coisa a seu respeito.
, - No tanto como desejaramos - lamentou o comissrio, com uma careta significativa. - Trabalha nos 
bastidores, compreende? Tem subalternos que se
 encarregam do trabalho sujo. Temos a certeza de que
 vem das altas esferas, e no do meio criminal.
 - Francs?
 - S-sim... Pelo menos, supomos que sim, embora no tenhamos a certeza. Trabalhou em Frana, na 
Inglaterra,
na Amrica... E no ltimo Outono houve
 uma srie de roubos na Sua, que lhe foram atribu dos.
Segundo tudo indica,  um grand seigneur que fala francs e ingls com igual perfeio e cuja origem  um 
mistrio.
` Poirot levantou-se, para sair, e o comissrio perguntou-lhe interessado:
 - No pode dizer-nos mais nada, Monsieur Poirot?
 - Por enquanto, no, mas talvez tenha notcias  minha espera no hotel.
 - Se o Marqus est envolvido neste caso... - comeou o juiz de instruo, inquieto, e no acabou a frase.
 - Transtorna as nossas ideias todas - queixou-se M. Caux.
 - No transtorna as minhas - afirmou Poirot.
- Pelo contrrio, acho que se coaduna muito bem com elas. Au revoir, messieurs; se receber notcias 
importantes, comunicarei imediatamente com os senhores.
 Regressou ao hotel com semblante severo. Na sua ausncia chegara um telegrama, que abriu. Era longo,
mas Poirot leu-o duas vezes, devagar, antes de o
guardar na algibeira. George aguardava-o, nos seus
aposentos.
 - Estou fatigado, George, muito fatigado... Importas-te de
pedir que me tragam um bule de chocolate?
 George pediu o chocolate e, depois, serviu-o ao patro.
Preparava-se para sair, mas Poirot reteve-o:
 - Creio, George, que tens bons conhecimentos da
aristocracia inglesa? - perguntou-lhe.
 - Creio que posso responder que sim, monsieur -- murmurou
George, como se pedisse desculpa desses conhecimentos.
 - Suponho tambm que, na tua opinio, os criminosos provm,
geralmente, das classes inferiores?
 - Nem sempre, senhor. Lembro-me, por exemplo, de ter havido
grandes complicaes com um dos
filhos mais novos do duque de Devize. Fugiu de Eton
e, depois, em vrias ocasies, causou grandes preocupaes 
famlia. A Polcia no aceitava a teoria de
que se tratava de cleptomania... Um jovem muito inteligente,
senhor, mas corrupto at  medula, se me fao
entender. Sua Graa embarcou-o para a Austrlia e
constou-me que esteve l preso e condenado, sob outro nome.
Muito estranho, senhor, mas verdadeiro.
Escusado  dizer que o jovem a que me refiro no tinha
necessidades financeiras.
 Poirot abanou a cabea, devagar, e murmurou:
 - Amor da aventura e um parafuso mal apertado,
nos miolos... Pergunto a mim mesmo... - tirou o telegrama da
algibeira e releu-o.
 - Houve tambm a filha de Lady Mary Fox -- continuou o
criado, com ar reminiscente. - Essa vigarizava comerciantes de
uma maneira revoltante. Estes casos eram muito desagradveis
para as famlias,
evidentemente, mas no foram nicos. Podia relatar
muitos mais.
 - Tens uma grande experincia, George - comentou Poirot. s vezes admiro-me de que, depois de viveres 
to exclusivamente com famlias titulares, tenhas descido a ser meu criado... Atribuo-o a amor
da aventura da tua parte...
 - No se trata exactamente disso, senhor - esclareceu George. - Por acaso lera nas Crnicas Sociais que 
monsieur fora recebido no Palcio de Buckingham,
e como andava a procurar novo emprego... As notcias diziam que Sua Majestade fora muito bondosa e 
cordial consigo e tinha em grande conta a sua competncia...
 -  sempre agradvel saber o porqu das coisas -- comentou o detective, que perguntou a seguir: - 
Telefonaste a Mademoiselle Papopolous?
 - Telefonei, sim. mademoiselle e o pai tero muito prazer em jantar com o senhor, esta noite.
 Poirot bebeu o chocolate, pensativamente, colocou a chvena e o pires no meio do tabuleiro, com muito 
cuidado, e recomeou a falar docemente, mais para si prprio do que para o criado:
 - O esquilo, meu bom George, armazena nozes. Se quisermos que a humanidade valha alguma coisa, meu 
amigo, devemos aproveitar as lies que nos do
as criaturas que nos so inferiores no reino animal. Eu
sempre o fiz. Fui gato a espreitar a toca do rato; fui
um bom co a seguir a pista, sem levantar o nariz do
caminho; e fui tambm, meu bom George, esquilo.
Armazenei factozinho aqui, factozinho ali... e agora
vou ao armazm e retiro determinada noz, uma noz
que guardei... ora deixa ver... h dezassete anos! Ests
a compreender-me, George?
 - Nunca pensei, senhor, que as nozes se conservassem durante
tanto tempo, embora saiba que se conseguem maravilhas no campo
das conservas...
 Poirot olhou-o e sorriu.

XXVIII

POIROT FAZ DE ESQUILO

 Poirot saiu para jantar com trs quartos de hora de antecedncia, mas tinha as suas razes para tal. Em 
vez de ir direito a Monte Carlo, seguiu para casa de
Lady Tamplin, no cabo Martin, e perguntou por Miss Grey. Informaram-no de que as senhoras estavam a 
vestir-se e pediram-lhe que esperasse numa saleta, onde passados cerca de trs minutos Lenox se lhe 
juntou.
 - Katherine ainda no est pronta. Deseja que lhe d algum recado ou prefere esperar que ela desa?
 Poirot fitou-a pensativo, e demorou muito tempo a
decidir-se, como se da sua deciso dependessem coisas
muito importantes.
 - No, no creio que seja necessrio esperar por
Mademoiselle Katherine. Talvez seja, at, melhor no
esperar. Estas coisas s vezes so difceis...
 Lenox aguardava delicadamente, com as sobrancelhas um pouco
erguidas.
 - Trago notcias que lhe agradecia transmitisse 
sua amiga: Mister Kettering foi preso esta noite, por
assassinar a esposa.
 - Deseja que diga isso a Katherine? - Lenox
ofegava, como se tivesse corrido, e Poirot notou que
empalidecera muito.
 - Se fizer o favor, mademoiselle...
 - Porqu? Acha que Katherine se inquietar? Julga que ela se
importa?
 - No sei, mademoiselle. Como v, admito francamente a minha
ignorncia. Regra geral, sei tudo, mas
neste caso... bem, no sei! Talvez a mademoiselle saiba
mais do que eu...

 - Sei... mas no lhe digo. - Calou-se, com as
sobrancelhas negras unidas numa careta, e de sbito
inquiriu: - Acredita que ele a matou?
 - A Polcia diz que sim - volveu o detective,
com um encolher de ombros.
 - Esquiva-se a responder, hem?
 Remeteu-se de novo a um silncio inquieto, de sobrolho
franzido.
 - Conhece Derek Kettering h muito tempo, no
conhece? - perguntou-lhe Poirot, docemente.
 - Desde pequena - respondeu, carrancuda, e
Poirot acenou vrias vezes com a cabea, sem falar.
 Num dos seus impulsos sbitos, Lenox puxou
uma cadeira e sentou-se, com os cotovelos na mesa e
o queixo assente nas mos, mesmo defronte do detective.
 - Em que se basearam para o prender? Motivo,
suponho... Provavelmente Derek herdou com a morte
da mulher...
 - Herdou dois milhes.
 - E, se ela no morresse, estaria arruinado?
 - Estaria.
 - Mas deve ter havido mais qualquer coisa...insistiu a jovem. -  certo que viajava no mesmo comboio, 
mas... isso no chegaria para o comprometer.
 - Encontraram no compartimento uma cigarreira com a inicial K, que no pertencia a Mistress 
Kettering, e
duas pessoas viram Derek Kettering entrar e sair do compartimento da esposa, precisamente antes do 
comboio chegar a Lyon.
 - Quem foram essas pessoas?
 - A sua amiga Miss Grey foi uma delas. A outra foi Mademoiselle Mirelle, a bailarina.
 - E que diz Derek a isso?
 - Nega ter entrado no compartimento da esposa.
 - Idiota! - exclamou a rapariga, irritada. - Precisamente antes de Lyon, no foi o que disse?... Algum sabe 
quando... quando ela morreu?
 - O parecer dos mdicos no pode ser muito exacto, mas crem que a morte no deve ter ocorrido depois 
de o comboio partir de Lyon. Sabemos, tambm, que, poucos momentos depois da sada de Lyon,
Mistress Kettering estava morta.
 - Sabem como?
 - Entrou outra pessoa no compartimento e encontrou-a morta - respondeu, com um sorriso curioso.
 - E no deram o alarme no comboio?
 - No.
 - Porqu?
 - Tiveram, sem dvida, as suas razes.
 - Sabe quais foram?
 - Creio que sim.
 Lenox reflectiu e Poirot observou-a em silncio.
Por fim a jovem levantou a cabea, com um leve rubor nas faces e os olhos brilhantes.
 - Pensa que foi algum que viajava no comboio que a matou, mas pode no ter sido assim. Nada impedia o 
assassino de saltar para o comboio, quando este esteve parado em Lyon, pois no? Nem de ir direito ao 
compartimento, estrangul-la, apoderar-se dos rubis e sair da composio, sem se tornar notado? Portanto, 
ela pode muito bem ter sido assassinada enquanto o comboio estava parado na
estao de Lyon, o que significa que estava viva quando Derek entrou, e
morta quando a tal pessoa a encontrou.
 Poirot recostou-se na cadeira, respirou fundo, olhou para a rapariga e acenou trs vezes com a cabea.
 - O que acaba de dizer  muito justo, muito verdadeiro,
mademoiselle. Debatia-me nas trevas e a mademoiselle
mostrou-me a luz. Havia um pormenor que
me intrigava, mas elucidou-me.
 Levantou-se, para sair e Lenox perguntou:
 - E Derek?

 - Quem sabe? - volveu, com um encolher de
ombros. - Digo-lhe, mademoiselle, que no estou convencido;
no, eu, Hercule Poirot, no estou convencido. Talvez esta
noite ainda saiba alguma coisa mais...
Pelo menos, tentarei.
 - Vai encontrar-se com algum?
 - Vou.
 - Algum que sabe alguma coisa?
 - Algum que talvez saiba alguma coisa. Nestes
casos,  preciso no deixar pedra por levantar... Au revoir,
Mademoiselle.
 Lenox acompanhou-o  porta e perguntou-lhe:
 - Acha que... ajudei?
 O rosto de Poirot suavizou-se.
 - Ajudou, sim, mademoiselle - afirmou. - Se as
coisas lhe parecerem muito negras, lembre-se sempre
disso: ajudou.
 No automvel, o detective mergulhou nos seus
pensamentos, de testa franzida, mas nos seus olhos havia
aquela tnue luz verde percursora de triunfo.
 Chegou alguns minutos atrasado ao encontro e, como Mr.
Papopolous e a filha tinham chegado antes dele, excedeu-se em
desculpas e em delicadezas e pequenas atenes. O grego exibia
um ar particularmente
benigno e nobre, um ar de patriarca triste, de vida
imaculada. Zia estava bonita e bem disposta e Poirot
mostrou-se esfusiante de esprito, contou anedotas,
disse graas, dirigiu graciosos galanteios a Mademoiselle
Papopolous e relatou muitos incidentes interessantes da sua
carreira. O jantar decorreu, assim, agradavelmente, com uma
ementa escolhida e excelentes
vinhos.
 No fim da refeio, Mr. Papopolous indagou, delicadamente:
 - E o palpite que lhe dei? Fez a sua apostazinha
no cavalo?
 - Estou em comunicao com... hum... com o
meu agenciador.
Os olhos dos dois homens encontraram-se e o grego comentou:
 - Um cavalo muito conhecido, hem?
 - No.  aquilo a que os nossos amigos, os ingleses, chamam
um cavalo obscuro.
 - Ah! - exclamou Mr. Papopolous, pensativo.
 - Agora vamos ao Casino e tentemos a nossa sorte na roleta! - props Poirot, alegremente.
 No Casino o grego separou-se; Poirot devotou-se inteiramente a Zia, enquanto o grego se afastava.
 Poirot no teve sorte, mas a jovem depressa ganhou alguns milhares de francos.
 - Acho melhor ficar por aqui - disse ao detective, sensatamente.
 - Soberbo! - exclamou o homenzinho. -  bem a filha do seu pai, Mademoiselle Zia. A arte consiste, 
precisamente, em saber quando se deve parar!
 Olhou  sua volta e observou, despreocupado:
 - No vejo o seu pai em parte nenhuma. Vou buscar-lhe a sua capa e daremos uma volta pelo jardim.
 No foi, no entanto, direito ao vestirio. Estava ansioso por saber que fora feito do astuto grego, mas 
encontrou-o inesperadamente no grande salo de entrada. Estava encostado a uma das colunas e 
conversava com uma senhora que acabava de chegar: Mirelle.
 Poirot contornou, sorrateiro, o salo, at ao outro lado da coluna junto da qual o par conversava 
animadamente - ou melhor, quem falava animadamente era
a bailarina; o grego contribua apenas com monosslabos ocasionais e abundantes gestos expressivos.
 - Preciso de tempo - dizia a bailarina. - Se me der tempo, arranjarei o dinheiro.
 - No  aconselhvel esperar - replicou o grego, com um encolher de ombros.
 - Ser pouco tempo - volveu a mulher, em tom suplicante. - Oh, tem de esperar! Uma semana, dez dias,  
tudo quanto peo. Pode ter a certeza de que far o negcio; arranjarei o dinheiro.

 Papopolous desviou-se um pouco, olhou, inquieto, em seu redor e encontrou Poirot quase a seu lado, com 
uma expresso inocente e risonha.
 - Ah, vous voil, Monsieur Papopolous! Andava  sua procura. Permite que d uma volta pelo jardim com 
Mademoiselle Zia? - Fez uma vnia profunda a Mirelle e cumprimentou-a: - Boas noites, mademoiselle. Mil 
perdes por no a ter visto imediatamente.
 A bailarina aceitou o cumprimento com certa impacincia, irritada com a interrupo do tte--tte.
 - Com certeza - respondeu Papopolous, e Poirot deixou-os imediatamente.
 Foi buscar a capa de Zia e dirigiram-se para o jardim.
 -  aqui que se suicidam - observou a rapariga.
 - Dizem que sim - comentou o detective, com
um encolher de ombros. - Os homens so estpidos,
no so, mademoiselle? Comer, beber, respirar o bom
ar, so coisas muito agradveis e  uma idiotice abandonar
tudo isso s porque no se tem dinheiro... ou
porque o corao sofre. L'amour causa muitas fatalidades, no
acha?
 Zia riu-se.
 - No devia rir-se do amor, mademoiselle - censurou-a o
detective, agitando energicamente o indicador. - No devia
rir-se, pois  jovem e bonita.
 - Esquece-se de que tenho trinta e trs anos,
Monsieur Poirot. Confesso-lho a si, pois seria intil
esconder-lho: ouvi-o dizer a meu pai que foi h dezassete anos
que nos ajudou em Paris...
 - Quando olho para si, parece-me que foi h muito menos tempo - afirmou Poirot, galante. - Era ento 
muito semelhante ao que  hoje, mademoiselle, um pouco mais magra, um pouco mais plida, um pouco 
mais sria... Dezasseis anos e acabada de chegar do internato! Nem uma petite pensionnaire, nem uma 
mulher. Era deliciosa e encantadora, Mademoiselle Zia... e por certo no fui eu o nico a pens-lo.
" - Aos dezasseis anos somos ingnuas e um bocadinho idiotas.
 - Talvez... sim, talvez. Aos dezasseis anos somos, tambm, crdulos, acreditamos no que nos dizem...
 Se viu o olhar precipitado que a jovem lhe lanou, disfarou e continuou, sonhador:
 - Foi um caso curioso aquele, mademoiselle. Seu pai nunca compreendeu o seu verdadeiro significado.
 - No?
 - Quando me pediu pormenores, explicaes, re dargui-lhe: Devolvi-lhe, sem escndalo, o que tinha 
desaparecido. No deve fazer perguntas. Sabe porque lhe respondi assim, mademoiselle?
 - No fao ideia - volveu, friamente.
 - Respondi-lhe assim porque tinha no meu corao um fraco por uma rapariguinha chegada do colgio, 
uma rapariguinha muito plida, muito magra, muito sria...
 - No percebo do que est a falar! - exclamou Zia, irritada.
 - No, mademoiselle? Esqueceu Antnio Pirezzio? - Ouviu-a suster a respirao, mas prosseguiu,
 implacvel: - Empregou-se como auxiliar no estabelecimento do seu pai, mas assim no poderia obter o 
que desejava. Um empregado pode levantar os olhos para a filha do patro, no  verdade? Sobretudo se  
jovem, belo e tem uma lngua de prata... Como no podem amar o tempo todo, de vez em quando 
conversam de coisas que interessam a ambos como, por exemplo, aquele interessante objecto que estava
temporariamente confiado a Mister Papopolous. E como os jovens so idiotas e crdulos, foi fcil acredit-
lo e mostrar-lhe o referido objecto, deixar-lhe ver onde se encontrava. Mas depois, quando o objecto 
desapareceu, quando a inacreditvel catstrofe aconteceu... Ai da pobre rapariguinha! Em que terrvel 
situao se achou! Cheia de medo, pobrezinha! Devia falar ou no
 falar? Foi ento que entrou em cena esse excelente indivduo, Hercule Poirot... Deve ter sido quase um 
milagre, a maneira como as coisas se resolveram. O preciosssimo objecto foi devolvido e no houve 
perguntas desagradveis.
 Zia voltou-se impetuosamente para ele e perguntou, incrdula:
 - O senhor sabia? Soube-o sempre? Quem lhe disse? Foi... foi Antnio?
 - Ningum me disse; conjecturei. E foi uma boa conjectura, no acha? Compreende, se no temos 
habilidade para conjecturar no vale a pena ser detective.
 Zia caminhou ao seu lado, durante alguns minutos, em silncio. Por fim perguntou, em tom spero:
 - Que tenciona fazer? Contar ao meu pai?
 - No - afirmou Poirot, sem hesitar. - Com certeza que no!
 A rapariga olhou-o, com curiosidade, e inquiriu:
 - Deseja alguma coisa de mim, ento?
 - Desejo a sua ajuda, mademoiselle.
 - Porque supe que posso ajud-lo?
 - No suponho; espero apenas.
 - E, se no o ajudar, ir contar ao meu pai?
 - Oh, no, no. Liberte-se de semelhante ideia,
mademoiselle; no sou nenhum chantagista! No estou
a amea-la com o seu segredo, como se fosse uma espada suspensa sobre a sua cabea.
 - Se eu recusar ajud-lo...
 - Se recusar, recusa, e pronto!
 - Ento porque...
 - Oua, explicar-lhe-ei porqu. As mulheres, mademoiselle,
so generosas e, se podem fazer um favor a quem j lhos fez tambm, no hesitam. Em tempos fui 
generoso consigo, mademoiselle, calei-me quando podia
ter falado.
 Seguiu-se novo silncio, que a jovem interrompeu:
 - Outro dia meu pai deu-lhe um palpite.
 - Foi muito amvel da sua parte.
 - No creio poder acrescentar alguma coisa a esse palpite - declarou Zia, devagar.
 Se ficou decepcionado, Poirot no o demonstrou; nem um msculo do seu rosto vibrou.
 - Eh bien, falemos ento de outras coisas! - exclamou, despreocupado.
 E comeou a conversar alegremente. Zia parecia, porm, distrada, respondia-lhe maquinalmente e, muitas 
vezes, sem propriedade. Aproximavam-se de novo do Casino quando pareceu tomar uma deciso:
 - Monsieur Poirot...
 - Mademoiselle?
 - Gostaria... gostaria de o ajudar, se pudesse.
 -  muito amvel, mademoiselle, muito amvel.
 Nova pausa. Poirot no insistia, achava prefervel esperar e dar tempo ao tempo.
 - Ora, no fim de contas, porque no hei-de dizer-lhe? perguntou, de sbito, a impulsiva jovem. -- Meu pai  
sempre
cauteloso, mede sempre tudo quanto diz, mas eu sei que, com o
senhor, no so necessrias tais cautelas. Disse-nos que
procura apenas o assassino e que no est interessado nas
jias. Acredito.
No se enganou ao supor que estvamos em Nice por
causa dos rubis; foram-nos aqui entregues, de acordo com o que estava planeado.  meu pai quem os tem 
e, outro dia, insinuou-lhe quem foi o nosso misterioso cliente.
 - O Marqus? - murmurou o detective, baixinho.
 - Sim, o Marqus.
 - Viu-o alguma vez, Mademoiselle Zia?
 - Uma, mas mal. Espreitei pelo buraco de uma fechadura!
 -  um procedimento que apresenta sempre certas dificuldades - murmurou Poirot, compreensivo.
- Mas viu-o, e isso  importante. Seria capaz de o reconhecer, se voltasse a v-lo?
 Zia abanou a cabea:
 - Usava mscara.
 - Novo ou velho?

 - Tinha o cabelo branco. Podia ser ou no uma cabeleira postia, mas se o era assentava muito bem.
No entanto, no creio que fosse velho, pois tinha o andar e a voz de um homem novo.
 - A voz? - perguntou o detective, pensativo. -- Ah, a sua voz! Reconhec-la-ia se voltasse a ouvi-la, 
mademoiselle?
 - Talvez.
 - Estava interessada nele, hem? Foi isso que a levou ao buraco da fechadura.
 -  verdade, sou curiosa. Tinha ouvido dizer tantas coisas a seu respeito... No  um vulgar ladro,
mas mais uma figura de lenda ou de romance.
 - Sim, talvez - concordou Poirot, muito srio.
 - Mas no era isto que queria dizer-lhe e sim outro facto
que me pareceu... enfim, que julgo poder
ser-lhe til.
 - De que se trata?
 - Como lhe disse, os rubis foram entregues ao
meu pai, aqui em Nice. No vi a pessoa que lhos entregou,
mas...
 - Mas?
 - Uma coisa sei: foi uma mulher.



XXIX

UMA CARTA DA PTRIA


Querida Katherine:

 Vivendo como vive agora entre grandes amigos, no creio que lhe interesse receber noticias nossas; mas 
como sempre a considerei uma rapariga sensata, talvez a sorte no lhe tenha subido tanto  cabea como 
suponho. Aqui
continua tudo mais ou menos na mesma. Houve grande celeuma com o novo cura, que  
escandalosamente alto, e, na minha opinio, no  nem mais nem menos do que um catlico. Todos 
falaram no caso ao vigrio, mas a menina sabe como ele : todo bondade crist e mais nada.
 Ultimamente tenho-me visto aflita com as criadas.
A Annie no era boa pea - saias acima do joelho e ningum a
convencia a usar decentes meias de l. No h nenhuma que d
ouvidos ao que se lhe diz.
 Tenho sofrido muito com o meu reumatismo e o
Dr. Harris persuadiu-me a consultar um especialista de
Londres - uma perda de trs guinus, alm da passagem
do comboio, como lhe disse, embora tenha arranjado bilhete de
volta mais barato, pois esperei para quarta feira.
O mdico de Londres fez uma cara muito sria e fartou-se
de estar com rodeios, sem falar claro, at que no estive
com mais aquelas e lhe disse: Sou uma mulher simples,
doutor, e gosto que me digam claramente as coisas.  cancro,
no  verdade? No teve outro remdio seno dizer
que sim. Disseram-me que poderei durar um ano, com cuidado e
sem grandes dores, embora eu tenha a certeza de
que posso suportar to bem as dores como qualquer crist.
 A vida s vezes parece-me muito solitria, pois a
maioria das minhas amigas ou j morreu, ou partiu para
longe. Confesso que gostaria de a ter em St. Mary Mead,
minha querida. Se no tivesse herdado esse dinheiro e entrado
na alta sociedade, oferecer-lhe-ia o dobro do ordenado que a
pobre ,ane lhe pagava para vir olhar por mim,
mas no vale a pena desejar o que no podemos obter. No
entanto, se as coisas lhe correrem mal... E olhe que  sempre
possvel que corram. No imagina a quantidade de
histrias que se tm contado de falsos nobres que desposam
raparigas ricas, lhes apanham o dinheiro e as deixam 
porta da igreja. Considero-a demasiado sensata para que
lhe acontea alguma coisa semelhante, mas nunca se sabe.
Alm disso, como nunca lhe prestaram grande ateno,
agora pode subir-lhe  cabea se lhe dispensarem alguma.
Por isso, lembre-se de que tem sempre um lar  sua espera
e de que, embora seja uma mulher de falas francas, tambm
tenho bom corao.

Sua velha amiga muito afectuosa,
 Amlia Viner.

 P. S. - Vi uma noticia a seu respeito no jornal, com
a sua prima, viscondessa Tamplin, e cortei-a para o meu
lbum. No domingo rezei para que no se deixasse tentar
pelo orgulho nem pela vanglria.

 Katherine leu duas vezes a carta, depois largou-a e
olhou, pela janela do quarto, para as guas azuis do
Mediterrneo. Sentia um n na garganta e uma saudade sbita de
St. Mary Mead, a terreola to cheia de
coisas banais e estpidas, mas que era para si como
um lar. Apeteceu-lhe esconder a cara nos braos e chorar,
chorar  vontade.
 Salvou-a Lenox, que entrou nesse momento.
 - Ol, Katherine! Mas... que se passa?
 - Nada - respondeu a interpelada, guardando a
carta de Miss Viner na mala de mo.
 - Est com uma cara estranha... Espero que no
leve a mal, mas telefonei ao seu amigo detective, Monsieur
Poirot, e convidei-o para almoar connosco em
Nice. Disse-lhe que a Katherine queria v-lo, com medo de que
recusasse se soubesse que o convite partia
de mim.
 - Nesse caso, quem quer v-lo  voc?
 - Pois sou. Perdi a cabea por ele! Nunca tinha
visto um homem cujos olhos fossem realmente verdes,
como os de um gato.
 - Est bem - condescendeu Katherine, indiferente.
 Os ltimos dias tinham sido terrveis. A priso de
Derek Kettering constitua o fulcro de todas as conversas e o
mistrio do Comboio Azul fora debatido e
dissecado de todos os pontos de vista.
 - Pedi o automvel e disse uma mentira qualquer
 minha me - continuou Lenox. - J nem me lembro qual foi,
mas no tem importncia; ela nunca se
lembra, tambm. Se soubesse aonde amos, quereria
acompanhar-nos para espremer Monsieur Poirot.
 Quando as duas raparigas chegaram ao Negresco
encontraram Poirot  sua espera. Mostrou-se to corts e
prodigalizou-lhes tantos cumprimentos, que no
tardaram a rir  gargalhada. No entanto, a refeio
no decorreu com muita alegria. Katherine estava distrada,
com um ar distante, e Lenox ora conversava,
ora se remetia a um silncio pesado. Quando bebiam o
caf, no terrao, desencadeou, de sbito, o ataque a
Poirot:
 - Como vo as coisas? Sabe a que me refiro?
 - Seguem o seu curso - respondeu o detective,
com um encolher de ombros; e, olhando tristemente para Lenox, acrescentou: -  jovem, mademoiselle, 
mas h trs coisas que no podemos apressar: le bom Dieu, a Natureza e os velhos.
 - Tolice! O senhor no  velho.
 -  muito amvel.
 - Olhem, o major Knighton! - exclamou a rapariga.
 Katherine olhou na direco indicada e depois voltou novamente a cabea.
 - Est com Mister Van Aldin - continuou Lenox. Desculpem-me por um momento, quero perguntar uma 
coisa ao major.
 Ao ficarem ss, Poirot inclinou-se para Katherine e murmurou:
 - Est com um ar ausente, mademoiselle; os seus pensamentos esto muito longe, no esto?
 - No esto mais longe do que a Inglaterra. -- Obedecendo a um impulso sbito, tirou da mala a carta que 
recebera naquela manh e estendeu-lha: - So
as primeiras notcias que recebi da minha vida antiga. No sei porqu, doeram-me.
 Poirot leu a carta de ponta a ponta e perguntou, ao devolver-lha:
 - Vai, ento, regressar a Saint Mary Mead?

 - No, no vou. Porque havia de ir?
 - Perdo, enganei-me. D-me tambm licena por um minuto...
 Levantou-se e dirigiu-se  mesa onde Lenox conversava com Van Aldin e Knighton. O americano parecia 
velho e atormentado e limitou-se a inclinar secamente a cabea, sem entusiasmo. Voltou-se para
responder a qualquer observao de Lenox e Poirot aproveitou o ensejo para chamar o major de parte.
 - Mister Van Aldin parece doente - observou.
 - Admira-se? O escndalo da priso de Derek Kettering arrasou-o. Est at arrependido de lhe ter pedido 
que descobrisse a verdade.
 - Devia regressar a Inglaterra.
 - Partimos depois de amanh.
 - Eis uma boa notcia. - Poirot hesitou, olhou para o terrao, onde Katherine continuava sentada, e 
murmurou: - Gostava que o dissesse a Miss Grey.
 - Que lhe dissesse o qu?
 - Que o senhor... isto , que Mister Van Aldin vai regressar a Inglaterra.
 Knighton pareceu intrigado, mas apressou-se a atravessar o terrao ao encontro de Katherine. Poirot viu-o 
afastar-se, satisfeito, e reuniu-se a Lenox e a Van
Aldin. Passados momentos, foram todos para junto de Katherine, conversaram um bocado e o milionrio e 
o secretrio despediram-se. Poirot preparou-se tambm
para deixar as raparigas.
 - Mil agradecimentos pela vossa hospitalidade, Mesdemoiselles. Foi um almoo encantador. Ma foi, estava 
a precisar! - Dilatou o peito, bateu-lhe e acrescentou: - Agora sinto-me um leo, um gigante! Ah,
Mademoiselle Katherine, nunca viu de que sou capaz! Conheceu o suave e calmo Hercule Poirot, mas h 
outro
diferente! Agora irei arreliar, ameaar, instilar terror no
corao daqueles que me ouvirem!
 Olhou-as com um ar de auto-satisfao e as raparigas
pareceram devidamente impressionadas, embora
Lenox mordesse o lbio inferior e houvesse nos cantos
da boca de Katherine uma tremura suspeita.
 Deixou-as, mas mal dera uns passos Katherine
chamou-o:
 - Monsieur Poirot, quero dizer-lhe que... enfim;
o senhor tinha razo. Partirei para Inglaterra quase
imediatamente.
 Poirot olhou-a fixamente e ela corou.
 - Compreendo - murmurou o detective, em tom
grave.
 - No creio que compreenda.
 - Sei mais do que imagina, mademoiselle.
 Deixou-a, com um sorriso estranho nos lbios, entrou no
automvel e seguiu para Antibes.
 Hipolyte, o criado carrancudo do conde de la Roche, estava
atarefado a limpar os belos cristais do patro. O conde no
estava em casa; fora passar o dia a
Monte Carlo. De sbito, ao olhar por acaso para a janela,
Hipolyte viu um visitante dirigir-se apressadamente para a
porta do vestibulo. Era um personagem
de um tipo to estranho que Hipolyte, apesar da sua
larga experincia, teve dificuldade em classific-lo.
Gritou pela mulher, Marie, que trabalhava na cozinha,
e chamou-lhe a ateno para ce type l.
 -  outra vez a Polcia? - perguntou Marie, inquieta.
 - Olha...
 - No, no  a Polcia. Ainda bem!
 - No nos incomodaram muito - comentou Hipolyte. - Na
realidade, se o senhor conde no me tivesse avisado, nunca
imaginaria que aquele desconhecido da taberna era o que era...
 A campainha tocou e Hipolyte foi atender, cheio de gravidade e decoro.
 - Lamento informar que o senhor conde no est em casa.
 O homenzinho de grande bigode sorriu, placidamente, e retorquiu:

 - Bem sei.  Hipolyte Flavelle, no  verdade?
 - Sim, monsieur,  esse o meu nome.
 - E a sua mulher chama-se Marie Flavelle?
 - Sim, monsieur, mas...
 -  com ambos que desejo falar - declarou o desconhecido e, gil, passou por Hipolyte e entrou no
vestbulo. - Como a sua mulher deve estar na cozinha, irei
para l.
 Antes que Hipolyte pudesse, sequer, tomar flego,
o estranho indivduo abrira a porta certa, ao fundo do
vestbulo, atravessara o corredor e entrara na cozinha,
onde Marie o fitou, de boca aberta.
 - Voil! - exclamou o recm-chegado, sentando-se numa
cadeira de braos. - Sou Hercule Poirot.
 - Sim, monsieur...
 - No conhecem o nome?
 - Nunca o ouvi - declarou Hipolyte.
 - Permita que lhe observe que foi muito mal ensinado. O meu
nome  um do maiores deste mundo!
 Suspirou e cruzou as mos no peito, enquanto Hipolyte e Marie o observavam, inquietos. No sabiam que 
pensar daquele inesperado e singular visitante.
 - Monsieur deseja... - murmurou o criado, maquinalmente.
 - Desejo saber porque mentiu  Polcia.
 - Monsieur! - ofendeu-se Hipolyte. - Menti 
Polcia? Nunca fiz uma coisa dessas!
 - Engana-se, f-la vrias vezes, j - afirmou o
detective. - Ora deixe ver... - Tirou da algibeira um
livrinho de apontamentos, que consultou. - C est,
mentiu pelo menos sete vezes. Eu enumero...E, em voz
monocrdica e indiferente, enumerou as sete vezes.
 Hipolyte estava estupefacto.
 - Mas no  destes lapsos passados que desejo falar continuou Poirot. - No entanto, meu caro amigo, no 
se deixe
iludir pelo hbito de pensar que 
muito esperto. O que me trouxe aqui foi uma mentira
que me interessa, a sua afirmao de que o conde de la
Roche chegou a esta casa na manh de catorze de Janeiro.
 - Mas isso no  mentira, monsieur;  a verdade
pura! O senhor conde chegou na manh de tera-feira,
dia catorze. No  verdade, Marie?
 -  sim - apressou-se a confirmar a criada. -- Lembro-me
perfeitamente.
 - Sim? E que deu ao seu bom amo para almoar,
nesse dia?
 - Eu... - Marie calou-se, esforando-se por se
acalmar.
 -  estranho como nos lembramos de umas coisas
e esquecemos outras! - comentou Poirot, irnico.
 Inclinou-se para a frente e deu um soco violento na
mesa, com os olhos a despedirem chispas.
 -  como eu digo, mentem e julgam que ningum
d por isso! Mas h duas pessoas que sabem! Sim,
duas pessoas! Uma delas  le bon Dieu... - Ergueu
uma das mos para o cu, recostou-se na cadeira, fechou os
olhos e murmurou, descaradamente: - e a
outra  Hercule Poirot!
 - Garanto-lhe, monsieur, que est enganado. O senhor conde
saiu de Paris na segunda-feira  noite...
 - Sem dvida, no rpido - atalhou Poirot. - No
sei onde interrompeu a viagem, talvez voc no o saiba
tambm, mas sei que chegou aqui na quarta-feira de
manh, e no na tera!
 - Monsieur est enganado - afirmou Marie, cheia
de coragem.
 - Muito bem, a lei seguir o seu curso! - declarou o
detective, levantando-se. -  pena...
 - Que quer dizer, monsieur? - inquiriu Marie, levemente
inquieta.
 - Sero presos e considerados cmplices no assassnio de
Mistress Kettering, a senhora inglesa que mataram no comboio.
 - Assassnio!
 O rosto do homem ficou branco como a cal e os

seus joelhos pareceram entrechocar-se. Marie deixou
cair o rolo da massa e comeou a chorar.
 - Mas  impossvel, impossvel! Eu pensava...
 - J que teimam na vossa histria, nada mais tenho a dizer.
So os dois uns grandes idiotas.
 Encaminhou-se para a porta, mas uma voz agitada
chamou-o:
 - Monsieur, monsieur, espere s um minutinho!
No... no fazia ideia de que fosse tal coisa... Supunha...
supunha que o caso se relacionasse com uma senhora... j tm
havido certos... desentendimentos com
a Polcia, por causa de senhoras... Mas assassnio...
Oh, isso  muito diferente!
 - Comeo a perder a pacincia! - vociferou o detective,
voltando-se para o casal e sacudindo o punho
fechado diante da cara de Hipolyte. - Terei de perder
aqui o dia inteiro, a discutir com um par de imbecis?
Quero a verdade! Se no ma disserem, o mal ser de
ambos. Pela ltima vez: quando chegou o senhor conde 
Villa Marina: tera feira de manh ou quarta feira de
manh?
 - Quarta-feira - murmurou o homem e, atrs
dele, Marie acenou afirmativamente.
 Poirot fitou-os, por momentos, e depois acenou
com a cabea muito grave.
 - So ajuizados, meus filhos! Por um triz tinham-se metido
em srios trabalhos!
 Partiu da Villa Marina a sorrir para consigo.
 Uma suposio confirmada, pensou. Ser aconselhvel
tentar confirmar a outra?
 Eram seis horas da tarde quando entregaram a Mademoiselle
Mirelle o carto de M. Poirot. A bailarina
olhou-o com ateno e fez um aceno afirmativo ao
mandarete. Poirot encontrou-a a andar de um lado para o outro,
furiosa.
 - Ento? - perguntou-lhe, irritada. - Que mais
temos? Ainda no me torturaram o suficiente, todos
vocs? No me obrigou a trair o meu pobre Dereek?
Que mais quer?
 - Fazer-lhe apenas uma pequena pergunta, mademoiselle:
quando entrou no compartimento de Mistress
Kettering, depois de o comboio partir de Lyon...
 - Que vem a ser isso?
 Poirot lanou-lhe um olhar de suave censura e recomeou:
 - Quando entrou no compartimento de Mistress
Kettering...
 - Nunca l entrei!
 - E a encontrou...
 - Nunca!
 - Ah, sacr! - gritou com tal fria, que a bailarina recuou,
assustada. - Porque me mente? Afirmo-lhe que sei o que
aconteceu to bem como se tivesse
estado presente! A senhora entrou no compartimento
e encontrou Mistress Kettering morta. Repito-lhe que
sei e que  perigoso mentir-me. Tenha cuidado, Mademoiselle
Mirelle!
 - Eu no... no... - tartamudeou, baixando os
olhos.
 - S h uma coisa que ainda me intriga - continuou o
detective. - Pergunto a mim mesmo se encontrou o que queria ou
se...
 - Ou se o qu?
 - Ou se algum l estivera antes.
 - No responderei a mais perguntas! - Soltou-se
da mo com que Poirot a segurava, atirou-se para o
cho e desatou a gritar e a soluar.
 Acorreu uma criada, assustada, e Poirot encolheu
os ombros, ergueu as sobrancelhas e saiu tranquilamente.
 Mas parecia satisfeito.

XXX

MISS VINER D UMA OPINIO


 Katherine olhou pela janela do quarto de Miss Viner. Chovia. No era uma chuva forte, em btegas 
violentas, mas uma chuva calma, teimosa, sem mpetos de fria. A janela dava para um retalho do jardim, 
com um carreiro at  cancela e canteirinhos bem tratados de
ambos os lados, onde desabrochariam rosas,
cravos e jacintos azuis.
 Miss Viner estava recostada numa grande cama vitoriana, com
um tabuleiro de pequeno-almoo afastado para o lado, abria a
correspondncia e fazia alguns
comentrios custicos acerca da mesma.
 Katherine tinha tambm uma carta aberta na mo
e lia-a pela segunda vez. Estava datada do Hotel Ritz,
de Paris, e dizia:

 Querida Mademoiselle Katherine: Espero que esteja
de boa sade e que o regresso ao Inverno ingls no tenha
sido muito deprimente. Quanto a mim, continuo com as
minhas investigaes, com a mxima diligncia. No julgue que
estou aqui a gozar frias...
 Em breve estarei em Inglaterra e espero ento ter o
prazer de a voltar a ver. Permitir-mo-, no  verdade?
Assim que chegar a Londres escrever-lhe-ei. No se esqueceu
ainda de que somos colegas na investigao deste caso?
Estou certo de que se lembra muito bem!
 Creia, mademoiselle, nos meus sentimentos mais respeitosos e
devotados.
 Hercule Poirot

 Katherine franziu a testa, como se na carta houvesse alguma
coisa que a intrigasse.
 - Um piquenique para meninos de coro - observou Miss Viner.
- Se o Tommy Saunders e o Albert
Dykes forem, no contribuirei! No sei o que estes rapazes
imaginam que esto a fazer na igreja, aos domingos! Tommy
cantou " Deus, apressa-te a salvar-nos!
e no voltou a abrir a boca, e se o Albert Dykes no
estava a chupar uma pastilha de hortel-pimenta, o
meu nariz no  o que  e sempre foi!
 - Tem razo, so terrveis - concordou Katherine.
 Abriu a sua segunda carta e um sbito rubor tingiu-lhe as faces. A voz de Miss Viner pareceu perder-se na 
distncia.
 Quando acabou a leitura e voltou a ter relativa
conscincia do que a rodeava, Miss Viner terminava, em triunfo, um longo discurso:
 ... E eu disse-lhe: ccDe maneira nenhuma! Por sinal, Miss Grey  prima de Lady Tamplin! Que lhe 
parece, hem?
 - Parece-me que anda a defender-me, o que  muito simptico da sua parte.
 - Os ttulos para mim no valem nada! Seja ou no a mulher do vigrio, aquela senhora  uma autntica 
gata! A insinuar que a menina comprara a sua entrada na sociedade!
 - Talvez no se tenha enganado tanto como julga...
 - O que as rala  que no voltou uma senhoreca emproada, como seria natural. No, continua to sensata 
como sempre foi, com um par de boas meias Balbriggan e sapatos prticos. Ainda ontem falei nisso a
Ellen. Disse-lhe assim: ccEllen, repara em Miss Grey.
Lidou com alguns dos grandes da Terra, mas no anda
por a como tu, com as saias por cima dos joelhos,
meias de seda a que as malhas caem constantemente e
os sapatos mais ridculos que imaginar se possa!
 Katherine sorriu para consigo. Valera a pena, parecia,
conformar-se com os preconceitos de Miss Viner...
 - Foi um grande alvio para mim verificar que o
dinheiro no lhe deu a volta  cabea - continuou a

velha senhora, cheia de entusiasmo. - Ainda outro
dia andei a procurar os meus recortes de jornais, pois
tenho vrios que falam de Lady Tamplin e do seu hospital de
guerra. Mas no consigo encontr-los. Gostaria que os
procurasse, minha querida, pois a sua vista
 melhor do que a minha. Esto numa caixa, na gaveta
da escrivaninha.
 Katherine olhou para a carta que tinha na mo e ia
a dizer qualquer coisa, mas conteve-se e foi  escrivaninha
buscar a caixa dos recortes, que comeou a ver.
Desde que regressara a St. Mary Mead que o seu corao vibrava
de admirao pelo estoicismo e pela coragem de Miss Viner.
Sabia que pouco podia fazer
pela velha amiga, mas a experincia ensinara-lhe tambm quanto
valiam para as pessoas idosas pequenas
bagatelas aparentemente sem valor.
 - Aqui est um dos recortes que lhe interessam - disse pouco depois. - "A viscondessa Tamplin, que 
transformou a sua vila em Nice num hospital de guerra, foi vtima de um roubo sensacional. Entre as jias 
roubadas contavam-se algumas famosas esmeraldas, herana da famlia Tamplin. 
 - Provavelmente imitaes - comentou Miss Viner. - As jias de um grande nmero dessas senhoras da 
alta sociedade so, muitas vezes, falsas.
 - C est outro - continuou Katherine. -  uma fotografia sob a qual se l: "Encantador retrato da 
viscondessa Tamplin com Lenox, a sua filhinha. 
 - Deixe ver - pediu a doente. - A cara da garota no est muito visvel, pois no? Diria que foi de propsito. 
Neste mundo abundam os contrastes e no faltam as mes bonitas que tm filhos horrendos. Quase 
apostaria que o fotgrafo percebeu que o melhor que podia fazer era apanhar s a nuca da pequena.
 Katherine riu-se.
 - "Uma das mais elegantes anfitris da Riviera,
nesta estao,  a viscondessa Tamplin, que tem uma
vila no cabo Martin. Encontra-se com ela sua prima,
Miss Grey, que recentemente herdou uma enorme fortuna, de
maneira muito romntica. 
 - Era esse mesmo que eu queria - disse Miss Viner. - Suponho
que deve ter vindo uma fotografia
sua em qualquer dos jornais, mas no a encontrei.
A menina sabe a que espcie de retrato me refiro:
Mistress Fulana ou Sicrana, em tal parte assim-assim",
geralmente com uma espingarda na mo e um p levantado no
ar... Deve ser uma tristeza para algumas
verem a figura que fazem...
 Katherine no respondeu. Endireitava o recorte
com o dedo e tinha estampada no rosto uma expresso
intrigada e inquieta. Por fim tirou a segunda carta do
sobrescrito e releu-a ainda uma vez.
 - Miss Viner - murmurou, terminada a leitura.
- Um amigo meu, que conheci na Riviera, tem muito
empenho em vir ver-me aqui...
 - Quem ?
 - O secretrio de Mister Van Aldin, o milionrio
americano.
 - Como se chama?
 - Knighton, major Knighton.
 - Hum... secretrio de um milionrio. E quer vir
v-la... A Katherine desculpar, mas tenho de dizer-lhe uma
coisa, para seu bem. A menina  uma rapariga sensata e
simptica e, embora tenha a cabea no seu
lugar no que respeita a muitas coisas, todas as mulheres so
idiotas uma vez na vida. H dez probabilidades
contra uma de esse homem estar interessado apenas no
seu dinheiro.
 Fez calar Katherine, com um gesto, e prosseguiu:
 - Tenho estado  espera de qualquer coisa desse
gnero. O que  o secretrio de um milionrio? Nove
vezes em dez, um rapaz que gosta de levar boa vida.
Um jovem com bonitas maneiras, apreciador de luxo,
sem miolos nem iniciativa. E, minha cara, se h emprego
melhor, que proporcione melhor vida, que o de secretrio de um
milionrio,  sem dvida casar com uma

mulher rica, por dinheiro! No quero dizer com isto que
a minha amiga no possa interessar um homem. Mas
no  nova e, embora tenha uma excelente cutis, tambm no 
nenhuma beldade. Portanto, no seja parva! No entanto, se
estiver resolvida a arriscar, proceda
ao menos de maneira a que o dinheiro seja governado
por si, continue a ser muito seu! Pronto, acabei. Que
tem a dizer?
 - Nada. Mas importava-se que ele viesse ver-me?
 - Lavo da as minhas mos - declarou Miss Viner. - Cumpri o
meu dever, o que acontecer agora 
l consigo. Prefere que ele venha almoar ou jantar?
Creio que a Ellen conseguiria haver-se razoavelmente
com o jantar... isto , se no perder a cabea!
 - O almoo estar muito bem - disse Katherine.
- Agradeo-lhe muito, Miss Viner. Pediu-me que lhe
telefonasse a dar a resposta; por isso, dir-lhe-ei que teremos
prazer em que almoce connosco. Vir de automvel, da cidade.
 - A Ellen faz um bife com tomates assados escapatrio lembrou a velhota. - No  nenhuma maravilha, 
mas sai melhor
do que qualquer outro prato.
Seria contraproducente confeccionar uma torta, pois
ela tem a mo pesada para a pastelaria, mas faz uns
pudins escapatrios. Creio que encontrar um bom
bocado de Stilton no Abbot; sempre ouvi dizer que os
cavalheiros apreciam. Quanto a vinho, ainda h uma
boa quantidade, da reserva do meu pai. Uma garrafa
de Moselle espumoso, talvez...
 - Oh, no, Miss Viner, no  preciso!
 - No seja tola, minha filha! Nenhum cavalheiro
se sente feliz se no beber qualquer coisa com a refeio. Se
acha que preferir usqui, h algum excelente, de antes da guerra. Faa o que lhe digo e no discuta.
A chave da adega est na terceira gaveta da cmoda, dentro do segundo par de meias do lado esquerdo.
 Katherine abriu a gaveta indicada, obedientemente.
 -  no segundo par - advertiu Miss Viner. -- No primeiro
esto os meus brincos de diamantes e o
meu alfinete.
 - Oh! - exclamou Katherine, surpreendida. -- No seria
melhor guard-los no guarda-jias?
 Miss Viner soltou um resmungo indignado e lento.
 - Claro que no! No seria eu que cometeria uma
idiotice dessas. Ainda me lembro do que aconteceu ao
meu pobre pai, que mandou construir um cofre-forte,
no andar de baixo... Ficou contentssimo e disse a minha me:
Agora, Mary, trazes-me todas as noites a
caixa das jias, para eu a fechar no cofre. Minha me
era uma mulher muito sensata e, como no ignorava
que os homens gostam sempre de levar a sua avante,
todas as noites lhe levava a caixa das jias. Uma noite
os ladres assaltaram-nos a casa e, evidentemente, a
primeira coisa que arrombaram foi o cofre! Era de esperar,
pois o meu pai gabara-se da sua existncia aos
quatro ventos, como se guardasse nele todos os diamantes do
rei Salomo. Limparam tudo: as canecas de
cerveja, as chvenas de prata, uma salva de ouro que
tinham oferecido ao meu pai e a caixa das jias.
 Suspirou, saudosa, e acrescentou:
 - Meu pai ficou preocupadssimo por causa das
jias de minha me: um conjunto veneziano e alguns
bonitos camafeus, objectos de coral rosado e dois anis
de diamantes, com pedras grandes. Ela teve de dizer-lhe,
claro, que, por ser uma mulher sensata, guardava
as jias enroladas em dois espartilhos e, portanto, tinham
escapado aos gatunos.
 - Quer dizer que a caixa estava vazia?
 - No minha filha; assim ficaria muito leve e o
meu pai perceberia. Minha me era inteligente, no
esqueceu esse pormenor: guardava os botes na caixa,
o que tinha a vantagem de saber sempre onde estavam! Botes de
botas no compartimento de cima, botes de calas no do meio e
botes sortidos no de baixo. O engraado  que meu pai ficou
aborrecido com

ela, afirmou que no gostava que o enganassem. Mas
estou para aqui a tagarelar e a menina quer ir telefonar
ao seu amigo. No se esquea de escolher uma bela
pea de carne e de dizer  Ellen que veja se no tem
malhas cadas nas meias, quando servir  mesa!
 - Ela chama-se Ellen ou Helen, Miss Viner? Pensava...
 Miss Viner fechou os olhos e respondeu:
 - Sei pronunciar os hh to bem como qualquer
pessoa, minha querida, mas Helen no  nome decente para uma
criada. No sei que ideias so as das mes
das classes baixas, hoje em dia!
 A chuva cessara quando Knighton chegou  moradia. Um sol
plido e incerto iluminava a cabea de
Katherine, que o esperava  porta.
 - Espero que no esteja zangada, mas tinha de v-la! - disse
Knighton, dirigindo-se-lhe ansiosamente
 ,
com um entusiasmo quase infantil. - Espero que a
amiga com quem est no se tenha zangado.
 - Entre, para a conhecer - convidou-o Miss Grey. -  primeira vista pode assustar, mas depressa verificar 
que tem o melhor corao do mundo.
 Miss Viner estava majestosamente entronizada na sala, ostentando um jogo completo dos camafeus to 
providencialmente preservados pela sensatez da me.
Cumprimentou Knighton com uma dignidade e uma
austera polidez que teriam desanimado muitos homens. Knighton,
porm, tinha um encanto especial e,
passados cerca de dez minutos, Miss Viner enterneceu-se
perceptivelmente. O almoo decorreu com alegria e Ellen, ou Helen, com um par de meias novas, sem 
malhas cadas, realizou prodgios a servir  mesa.
Depois Katherine e Knighton saram para um passeio, regressaram e tomaram ch a ss, pois Miss Viner 
deitara-se.
 Quando o major partiu, Katherine subiu lentamente ao primeiro andar e Miss Viner chamou-a.
 - O seu amigo j se foi embora?
 - J. Agradeo-lhe muito t-lo deixado vir.
 - No tem nada que agradecer. Ou julga que sou uma velha rabugenta, incapaz de fazer seja o que for 
pelos outros?
 - Julgo que  uma querida - murmurou Katherine,
afectuosamente.
 - Hum... - resmungou a velhota, comovida.
Quando Miss Grey ia a sair, chamou-a: - Katherine...
 - Miss Viner?
 - Estava enganada acerca do seu rapaz. Quando
um homem est interessado em cativar algum,
interesseiramente, pode mostrar-se cordial, galante, prdigo
de atenes e encantador em todo o sentido; mas
quando est realmente apaixonado, por mais que faa
parece sempre um cordeiro. O seu amigo, quando a
olhava, parecia um cordeirinho. Retiro tudo quanto
disse esta manh; ele  sincero.




XXXI

MR. AARONS ALMOA


 - Ah! - exclamou Mr. Joseph Aarons, consolado.
 Levou a caneca aos lbios, bebeu um longo golo, suspirou, limpou a espuma da cerveja dos lbios e sorriu 
ao seu anfitrio, Monsieur Hercule Poirot.
 - Dem-me um bom bife de cervejaria e uma caneca de qualquer coisa digna de se beber, e podeis ficar 
com as vossas iguarias francesas, com os vossos ordvres, as vossas omeletas e os vossos 
franguinhos!
Dem-me - repetiu - um bom bife de cervejaria!
 Poirot, que acabava de satisfazer-lhe a preferncia, sorriu, compreensivo.

 - No quero dizer que haja algum mal num pudim
de rins ou num bife simples - continuou Mr. Aarons.
- Torta de ma? Sim, comerei torta de ma, Miss, e
uma taa de nata.
 O almoo prosseguiu at que, finalmente, com um
profundo suspiro, Mr. Aarons pousou faca e garfo, para se
entreter com um bocadinho de queijo antes de
pensar noutras coisas...
 - Falou num assunto qualquer que precisava de
tratar, Monsieur Poirot... Terei muito prazer em o
ajudar no que puder.
 -  muito amvel. Disse para comigo: Se queres
saber alguma coisa acerca de gente de teatro, existe
apenas uma pessoa perfeitamente elucidada a esse respeito, e
essa pessoa  o teu velho amigo, Mr. Joseph
Aarons. 
 - E no se enganou! - redarguiu, complacente, o
comilo. - Esteja interessado no passado, no presente
ou no futuro, Joseph Aarons  o homem indicado.
 - Prcisment. Desejava perguntar-lhe, Monsieur
Aarons, o que sabe acerca de uma jovem chamada
Kidd.
 - Kidd? Kitty Kidd?
 - Kitty Kidd.
 - Foi muito esperta. Disfarava-se de homem, cantava e danava...  essa que lhe interessa?
 - Sim,  essa.
 - Foi muito esperta. Arranjou um bom peclio, pois nunca lhe faltavam contratos. Dedicava-se sobretudo a 
fazer papis de homem, mas tambm no havia nada que se lhe dissesse como actriz de caracteres 
tpicos.
 - Foi o que ouvi dizer - concordou Poirot. - Mas ultimamente no tem aparecido, pois no?
 - No. Abandonou a carreira, foi para Frana e juntou-se a um nobre qualquer. Suponho que deixou 
definitivamente o palco.
 - H quanto tempo foi isso?
 - Ora deixe ver... H trs anos. E garanto-lhe que foi uma perda para o teatro.
 - Era inteligente?
 - Se era inteligente!
 - No sabe o nome do homem a quem se ligou, em Paris?
 - Sei que era um figuro importante, um conde... ou seria um marqus? Pensando bem, creio que era
um marqus.
 - E, depois disso, no soube mais nada dela?
 - Nada. Nunca sequer a encontrei, por acaso.
Aposto que leva vida regalada por essas estncias
estrangeiras, marquesa para toda a vida. Com a Kitty
ningum brincava nem levava a melhor.
 - Compreendo - murmurou Poirot, pensativo.
 - Lamento no poder dizer-lhe mais nada, Mister
Poirot; gostaria de ser-lhe til. No me esqueo do favor que
me prestou, em tempos.
 - Ora, estamos quites! O senhor tambm me fez
um favor.
 - Amor com amor se paga! - exclamou Mr. Aarons, soltando uma
gargalhada.
 - A sua profisso deve ser muito interessante.
 - Assim-assim - redarguiu Mr. Aarons, sem entusiasmo. - O
bom e o mau equilibram-se. Bem vistas todas as coisas, no me
dou muito mal. Mas  preciso conservar os olhos bem abertos!
Nunca se sabe o
que o pblico querer a seguir.
 - Nos ltimos anos, a dana tem estado muito em
voga - observou o detective.
 - Pessoalmente, nunca vi nada nesse tal ballet
russo, mas o pblico gosta...  demasiado complicado
para mim.
 - Conheci uma bailarina na Riviera, uma tal Mademoiselle
Mirelle...
 - Mirelle? Oh, isso  material caro! Tem sempre
dinheiro a apoi-la, embora, a verdade seja dita, a pequena
saiba danar. Vi-a e sei do que estou a falar.

 Nunca tive de lidar muito com ela, mas consta-me que
 o diabo em figura de gente. Birras e caprichos, a toda a
hora...
 - Sim, tambm me parece.
 - Temperamento! - exclamou Mr. Aarons, desdenhoso. Temperamento! Pelo menos  como lhe
chamam. A minha patroa tambm foi bailarina, antes
de casar comigo, mas confesso que, felizmente nunca
teve temperamento. No lar no se quer temperamento, Mister
Poirot!
 - Concordo consigo, meu amigo. Fica deslocado.
 - Uma mulher deve ser calma e compreensiva... e boa cozinheira.
 - Mirelle no trabalha h muito tempo, pois no?
 - H cerca de dois anos e meio, apenas. Lanou-a um duque francs qualquer. Ouvi dizer que anda agora 
com o ex-primeiro-ministro da Grcia. So tipos como estes que podem empatar dinheiro nela, sem lhes 
dar pelo forro da camisa.
 - Essa do ex-ministro  novidade para mim!
 - Oh, no  mulher para deixar a erva crescer debaixo dos ps! Dizem que o jovem Kettering matou a
esposa por causa dela... No sei. No entanto, ele est preso e Mirelle achou conveniente olhar  sua 
volta... E no se pode dizer que no tenha sido esperta! Dizem que usa agora um rubi do tamanho de um 
ovo de pombo. Claro que nunca na minha vida vi um ovo de pombo, mas  a expresso que empregam 
sempre em
trabalhos de fico...
 - Um rubi do tamanho de um ovo de pombo! -- exclamou Poirot, com um brilho verde, felino, nos olhos. - 
Que interessante!
 - Foi um amigo quem mo disse. Mas, claro, talvez seja apenas vidro colorido! Estas mulheres de teatro 
so todas as mesmas; nunca se cansam de inventar
grandes histrias acerca das suas jias. Mirelle, por
exemplo, apregoa que o rubi em questo est amaldioado. Creio que lhe chama cCorao de Fogo.
 - Mas o rubi chamado Corao de Fogo  a pedra central de um colar! - observou Poirot. - 
Tenho a certeza.
 - A tem! No lhe disse que estavam sempre a inventar histrias acerca de jias? Este rubi  uma pedra 
nica, que ela traz ao pescoo pendente de um fio de platina. Quase jurava que  um calhau colorido!
 - No - murmurou Poirot, lentamente -, no creio que seja vidro colorido.



XXXII

KATHERINE E POIROT COMPARAM NOTAS


 - Mudou, mademoiselle - disse Poirot a Katherine, sentada na sua frente a uma mesa do Savoy. - No h 
dvida, mudou...
 - Em que sentido?
 - Essas nuances so difceis de explicar, mademoiselle.
 - Estou mais velha.
 - Sim, est mais velha... Mas no quero dizer
com isto que as rugas e os ps de galinha estejam a
chegar. Quando a conheci, era uma observadora, uma
espectadora da vida; tinha o olhar tranquilo e divertido de
quem assiste ao espectculo confortavelmente
instalado num camarote.
 - E agora?
 - Agora j no observa. Talvez seja absurdo o que
vou dizer, mas tem o olhar atento de um lutador a travar um
combate difcil.
 - s vezes a minha velhinha  difcil - confessou Katherine -, mas garanto-lhe que no travo combates de 
luta com ela. H-de ir visit-la um dia, Monsieur
Poirot; estou convencida de que apreciar a sua coragem e o seu esprito.

 Seguiu-se uma pausa, enquanto o criado lhes servia frango en casserole. Quando os deixou, Poirot 
perguntou:
 - Nunca me ouviu falar do meu amigo Hastings? Aquele que me chama uma ostra humana... Eh bien
 ,
mademoiselle, encontrei em si o meu par. A mademoiselle, muito
mais do que eu, faz um jogo solitrio.
 - Que tolice! - protestou Katherine, de nimo
leve.
 - Hercule Poirot nunca diz tolices!
 Novo silncio, que o detective interrompeu com
outra pergunta:
 - Viu algum dos nossos amigos da Riviera, desde
que voltou?
 - Tenho visto o major Knighton.
 - Ah!  , ento, isso? - Havia nos olhos brilhantes do
detective um no sei qu que obrigou Katherine
a baixar os seus. - Quer dizer que Mister Van Aldin
continua em Londres?
 - Continua.
 - Devo tentar v-lo amanh ou depois.
 - Tem notcias para ele?
 - Porque pensa que terei?
 - No sei, pensei apenas.
 Poirot fitou-a, atentamente, e disse-lhe:
 - Estou a ver, mademoiselle, que deseja perguntar-me muitas
coisas. Porque no? O caso do Comboio
Azul no  o nosso romance policial?
 -  verdade, gostaria de perguntar-lhe certas coisas.
 - Eh bien?
 Katherine levantou a cabea, com um sbito ar resoluto, e inquiriu:
 - Que esteve a fazer em Paris, Monsieur Poirot?
 - Passei pela Embaixada russa - respondeu, com um leve sorriso.
 - Oh!
 - Vejo que a resposta no lhe diz nada, mas no serei uma ostra humana; porei as cartas na mesa, uma 
coisa que as ostras no fazem, com certeza. Suspeita,
no  verdade, que a acusao contra Derek Kettering no me satisfez?
 -  isso que me tem confundido. Pensei, em Nice, que encerrara o caso.
 - No disse tudo o que pensa, mademoiselle, mas
eu no farei reservas. Fui eu, ou seja, as minhas investigaes, que pus Derek Kettering onde ele est. Se 
no fosse a minha insistncia, o juiz de instruo ainda agora tentaria, em vo, atirar com o crime para 
cima do conde de la Roche. Eh bien, mademoiselle, no lamento o que
fiz. Tenho apenas o dever de descobrir a verdade e foi esse dever que me levou direito a Derek Kettering. 
Mas o caminho para a verdade terminaria
a? A Polcia afirma que sim; mas eu, Hercule Poirot, no tenho a certeza. - Fez uma pausa e perguntou, 
de sbito: - Teve notcias de Mademoiselle Lenox, ultimamente?
 - Uma carta muito breve. Creio que est aborrecida comigo por ter regressado a Inglaterra.
 - Falei com ela na noite em que Mister Kettering foi preso e posso afirmar-lhe que tivemos uma entrevista 
interessante, em vrios sentidos.
 Nova pausa, e Katherine no interrompeu o fio do seu pensamento.
 - Mademoiselle, embora v pisar terreno perigoso,
atrevo-me a dizer-lhe o seguinte: H, creio, algum que ama Mister Kettering, corrija-me, se me engano, e, 
por amor desse algum, espero que a Polcia esteja
enganada e eu certo. Sabe quem  esse algum?
 - Suponho que sim.
 - No estou convencido, mademoiselle - repetiu o detective, inclinando-se para ela. - No estou. Os
factos principais apontavam indubitavelmente para Mister Kettering, mas houve um pormenor que no 
entrou em linha de conta.
 - Qual?

 - O rosto desfigurado da vtima. Tenho perguntado a mim
mesmo centenas de vezes se Derek Kette ring seria homem capaz
de praticar semelhante barbaridade depois de cometer um homicdio. Com que motivo? Para qu? Ser 
aco que se coadune com o
temperamento de Mister Kettering? Confesso, mademoiselle, que
a resposta a todas estas perguntas  profundamente
insatisfatria. Volto sempre ao mesmo
ponto: Porqu? Os nicos dados de que disponho para
me ajudarem a resolver o problema so estes...
 Tirou o livro de apontamentos da algibeira e retirou do
mesmo qualquer coisa que segurou entre o indicador e o
polegar.
 - Lembra-se, mademoiselle? Viu-me tirar estes cabelos da
manta, no compartimento do comboio.
 Katherine inclinou-se para a frente e observou
atentamente os cabelos.
 - Vejo que no lhe sugerem nada, mademoiselle.
E no entanto... creio que pouco lhe passa despercebido.
 - Tive ideias, ideias curiosas - murmurou Katherine,
devagar. - Por isso lhe perguntei o que esteve a fazer em
Paris, Monsieur Poirot.
 - Quando lhe escrevi...
 - Do Ritz?
 Um sorriso curioso entreabriu os lbios do detective.
 - Sim, do Ritz. Sou um homem que aprecia o luxo, s vezes...
quando um milionrio paga.
 - No compreendo qual possa ser o papel da Embaixada russa.
 - A relao com o caso no  directa, mademoiselle.
Fui l para obter determinada informao, falei com
certo personagem e ameacei-o... Sim, mademoiselle,
eu, Hercule Poirot, ameacei-o!
 - Com a Polcia?
 - No. Com a Imprensa, que  uma arma muito
mais temvel.
 Olhou para Katherine, que lhe sorriu e abanou a
cabea.
 - No est a transformar-se outra vez numa ostra,
Monsieur Poirot?
 - No, no  minha inteno ser misterioso. Dir-lhe-ei tudo. Suspeito de que o tal indivduo com quem falei 
teve parte activa na venda dos rubis a Mister Van Aldin. Acusei-o disso e acabei por arrancar-lhe
a histria toda. Soube onde as jias tinham sido entregues e, tambm, que um homem passeava para cima 
e para baixo na rua, um homem com uma venervel cabea branca, mas que andava com o passo gil e 
elstico de um indivduo novo. Mentalmente, dei a esse homem o nome de Senhor Marqus.
 - E agora veio a Londres para falar com Mister Van Aldin?
 - No apenas por essa razo; tinha outras coisas que tratar. Desde que cheguei a Londres falei com duas 
pessoas: um agente teatral e um mdico da Harley Street.
De cada um deles obtive determinadas informaes... Some um e
um, mademoiselle, e veja se
obtm o mesmo resultado que eu.
 - Eu?
 - Sim, mademoiselle. Dir-lhe-ei ainda mais uma
coisa: houve sempre no meu esprito uma dvida: teriam o
assassnio e o roubo sido cometidos pela mesma
pessoa? Durante muito tempo no tive a certeza...
 - E agora?
 - Agora sei.
 Aps um momento de silncio, Katherine levantou
a cabea. Os seus olhos brilhavam.
 - No sou to inteligente como o senhor, Monsieur
Poirot. Metade das coisas que me disse parece-me sem
significado. As minhas ideias provm de um ngulo
to diferente...
 - Ah, mas  sempre assim! - afirmou Poirot,
calmamente. - Um espelho mostra a verdade, mas as
pessoas olham para o espelho de ngulos diferentes.

 - As minhas ideias podem ser absurdas, podem
 ser inteiramente diferentes das suas, mas...
 - Mas?
 - Acha que isto ajuda alguma coisa?
 Poirot aceitou o recorte de jornal que ela lhe estendia,
leu-o e acenou gravemente com a cabea.
 - Como lhe disse, mademoiselle, olhamos para o
espelho da verdade de ngulos diferentes, mas o espelho  o
mesmo e as imagens reflectidas as mesmas
tambm.
 Katherine levantou-se.
 - Tenho de partir depressa - disse. - Se me demoro mais,
perco o comboio. Monsieur Poirot...
 - Mademoiselle?
 - Oxal no demore muito mais tempo, compreende? No
posso... no posso suportar durante
muito mais tempo.
 A voz tremeu-lhe e o detective bateu-lhe na mo,
num gesto tranquilizador.
 - Coragem, mademoiselle; no deve fraquejar agora. O fim
est muito prximo.



XXXIII

NOVA TEORIA


 - Monsieur Poirot deseja falar-lhe, senhor.
 - Diabos o levem! - praguejou Van Aldin.
 Knighton manteve-se num silncio compreensivo e
o americano levantou-se da cadeira e comeou a andar
de um lado para o outro.
 - Suponho que viu os malditos jornais desta
manh?
 - Passei uma vista de olhos, senhor.
 - Continuam a martelar na mesma tecla?
 - Receio que sim, senhor.
 O milionrio sentou-se e apertou a testa nas mos.
 - Se eu tivesse previsto isto... Oh, quem me dera nunca ter encarregado aquele belga de m morte de 
descobrir a verdade! S pensava em encontrar o assassino de
Ruth, mais nada.
 - No queria, certamente, que o seu genro ficasse
sem castigo?
 - Preferia ter feito justia pelas minhas prprias
mos! - afirmou o americano, com um suspiro.
 - No me parece que tivesse sido um procedimento sensato,
senhor.
 - Enfm, tem a certeza de que o indivduo quer
ver-me a mim?
 - Tenho, sim, Mister Van Aldin. Mostrou grande
empenho.
 - Nesse caso, no tenho outro remdio. Diga-lhe
que pode aparecer esta manh, se quiser.
 Foi um Poirot cheio de vitalidade e boa disposio
que apareceu no hotel, para ser recebido pelo milionrio. No
pareceu notar qualquer falta de cordialidade
no acolhimento que este lhe dispensou e tagarelou
despreocupadamente acerca de vrias ninharias. Viera a
Londres, explicou, a fim de visitar o seu mdico, e indicou o
nome de um eminente cirurgio.
 - No, no, pas la guerre. Uma recordao dos
tempos em que prestei servio na Polcia: uma bala de
um bandido. - Tocou no ombro esquerdo e estremeceu, com uma
careta de dor muito convincente.
- Sempre o considerei um homem afortunado, Monsieur Van Aldin.
No se coaduna com a ideia popular
que fazemos dos milionrios americanos: mrtires da
dispepsia!
 - Sou rijo - concordou Van Aldin. - Levo uma
vida simples, como sabe, e alimento-me frugalmente e
em pouca quantidade.
 - Tem visto Miss Grey, no  verdade? - perguntou inocentemente Poirot, voltando-se para o secretrio.

 - S-sim... uma ou duas vezes... - gaguejou Knighton, corando.
  curioso, Knighton, mas nunca me disse que a vira - exclamou Van Aldin, surpreendido.
 - No supus que estivesse interessado, senhor.
 - Simpatizo muito com ela.
 -  uma pena que se tenha enterrado, de novo
 , em Saint Mary Mead - comentou Poirot.
 -  muito nobre da sua parte! - afirmou o ma jor, com
calor. - Poucas pessoas seriam capazes de tal
 sacrifcio por uma velha intratvel, que no lhe  nada!
 - Longe de mim, dizer o contrrio! - afirmou
 Poirot, sorridente. - No entanto, no deixa de ser
 uma pena. E agora, cavalheiros, falemos de coisas srias.
 Ambos os homens o fitaram, surpreendidos.
 - Peo-lhe, Monsieur Van Aldin, que no se sinta
indignado nem alarmado com o que vou dizer-lhe. Suponha que,
no fim de contas, Monsieur Derek Kettering no assassinou a mulher...
 - O qu!
 - Suponha, repito, que Monsieur Kettering no
assassinou a esposa.
 -  doido, Monsieur Poirot? - perguntou o americano.
 - No, no sou doido. Serei excntrico, talvez pelo menos  o que dizem certas pessoas, mas, no que 
respeita  minha profisso, tenho os olhos bem abertos.
Pergunto-lhe, Monsieur Van Aldin, se ficaria contente ou triste se o que lhe disse fosse verdade?
 Van Aldin fitou-o, perplexo, e por fim respondeu:
 - Ficaria contente, naturalmente. Mas trata-se de
um jogo de suposies, Monsieur Poirot, ou baseia-se em factos?
 Poirot olhou para o tecto e replicou, imperturbvel:
 - Existia uma probabilidade de que pudesse ter
sido o conde de la Roche. Pelo menos consegui arrasar-lhe o libi.
 - Conseguiu como?
 - Tenho os meus mtodos prprios - confessou,
com um modesto encolher de ombros. - Um bocadinho de tacto,
uma certa astcia... e pronto.
 - Mas os rubis, os tais rubis que o conde tinha
em seu poder, eram falsos.
 - E, logicamente, ele no teria cometido o crime,
a no ser pelos rubis. Mas esquece uma probabilidade,
Monsieur Van Aldin: pode ter chegado algum primeiro do que
ele, no que respeita aos rubis.
 - Isso  uma teoria inteiramente nova! - exclamou o major.
 - Acredita, de facto, em toda essa histria, Monsieur
Poirot? - inquiriu o milionrio.
 - Ainda no est nada provado; por enquanto trata-se apenas
de uma nova teoria. Mas afirmo-lhe,
Monsieur Van Aldin, que os factos merecem ser investigados.
Deve acompanhar-me ao Sul da Frana, para
estudar o assunto no local.
 - Acha realmente necessrio... que eu v?
 - Pensei que seria isso que o senhor desejaria. -- Havia no
tom da sua voz uma sugesto de censura,
que no passou despercebida ao americano.
 - Sim, sim, claro... Quando deseja partir, Monsieur Poirot?
 - Tem muito que fazer neste momento - lembrou Knighton.
 Mas o milionrio tomara uma deciso e no ligou
importncia s objeces do secretrio.
 - Penso que este caso deve ter a preferncia -- declarou. Muito bem, Monsieur Poirot, partiremos
amanh. Em que comboio?
 - Suponho que no Comboio Azul - respondeu o
detective, a sorrir.

XXXIV

OUTRA VEZ NO COMBOIO AZUL


 O Comboio dos Milionriosv como por vezes lhe
 ,
 chamavam, transps uma curva a uma velocidade que parecia perigosa. Van Aldin, Knighton e Poirot 
viajavam em
silncio. O milionrio e o secretrio tinham dois
compartimentos com comunicao, como
 Ruth Kettering e a criada, na viagem fatdica, e o
 compartimento do detective ficava mais ao fundo da
carruagem.
 A viagem era penosa para o milionrio, pois acordava-lhe
recordaes dolorosas. Poirot e o secretrio
conversavam de vez em quando, em voz baixa, para
no o perturbarem.
 Mas quando o comboio completou a lenta viagem
em redor da ceinture e chegou  Gare de Lyon, Poirot
iniciou de sbito uma actividade febril. Van Aldin
compreendeu que parte do seu objectivo ao viajar
naquele comboio era tentar reconstituir o crime.
O detective representava todos os papis: era sucessivamente
criada apressadamente fechada no seu compartimento, Mrs.
Kettering reconhecendo o marido
com surpresa e certa ansiedade, e Derek Kettering ao
descobrir que a mulher viajava no mesmo comboio
que ele. Experimentou vrias possibilidades, como a
melhor maneira de uma pessoa se ocultar no segundo
compartimento.
 De sbito, pareceu ocorrer-lhe uma ideia importante e
agarrou com fora no brao do americano.
 - Mon Dieu, no tinha pensado nisso! Precisamos
de interromper a viagem em Paris. Depressa, depressa,
apeemo-nos!
 Pegou nas malas e correu para fora do comboio
 ,
enquanto Van Aldin e Knighton o seguiam, perplexos,
mas obedientes. Um funcionrio deteve-os na barreira,
pois os bilhetes tinham ficado em poder do condutor,
facto que os trs haviam esquecido.
 Poirot apresentou explicaes rpidas, fluentes e
apaixonadas, mas as mesmas no produziram efeito
nenhum no impassvel funcionrio.
 - Acabemos com isto! - decidiu Van Aldin,
bruscamente. - Calculo que esteja com pressa, Monsieur Poirot;
portanto, pelo amor de Deus, pague os
bilhetes desde Calais, para se tratar do que quer que
tem em mente.
 Mas o manancial de palavras do detective secou de
sbito, deixando-o com o aspecto de um homem
transformado em pedra. Os braos, que abrira num
gesto apaixonado, continuaram assim, paralisados.
 - Fui um imbecil! - murmurou. - Ma foi, hoje
em dia comeo a perder a cabea! Voltemos ao comboio e
continuemos tranquilamente a nossa viagem.
Com alguma sorte, a composio ainda se encontrar
no cais.
 Foi por um triz, pois o comboio comeou a andar
quando o major, o ltimo dos trs, se iou e  maleta
para a carruagem.
 O condutor protestou, irritado, e ajudou-os a levar
a bagagem para os respectivos compartimentos. Van
Aldin no dizia nada, mas era evidente que estava
aborrecido com a extraordinria conduta do detective.
Ao ficar um momento a ss com o secretrio, observou:
 - Fazemos uma viagem intil; o indivduo perdeu
a tramontana.  certo que tem miolos, mas um homem que perde a
cabea e se ataranta como um coelho
assustado no serve para nada.
 Poirot juntou-se-lhes pouco depois e mostrou-se
to prdigo em humildes desculpas e to desanimado
que quaisquer palavras speras teriam sido suprfluas.
Van Aldin aceitou gravemente as desculpas, mas conseguiu
dominar-se e no fazer comentrios cidos.
 Jantaram no comboio e depois, com certa surpresa

 para os outros dois, Poirot sugeriu que se sentassem
 todos no compartimento de Van Aldin.
 - Oculta-nos alguma coisa, Monsieur Poirot? perguntou-lhe o
milionrio, curioso.
 - Eu? - O detective abriu os olhos, cheio de inocente
surpresa. - Mas que ideia!
 Van Aldin no respondeu, embora no estivesse
convencido. Informaram o condutor de que no era
preciso armar as camas e se a ordem o surpreendeu, a
magnanimidade da gorjeta do americano compensou-o. Os trs
homens sentaram-se, em silncio. Poirot
mexia-se constantemente, inquieto, e pouco depois
perguntou ao secretrio:
 - Major Knighton, a porta do seu compartimento est fechada
 chave? Refiro-me  que d para o
corredor.
 - Est, fechei-a eu prprio, h pouco.
 - Tem a certeza?
 - Irei certificar-me, se quiser - prontificou-se
Knighton, com um sorriso ambguo.
 - No, no se incomode; irei eu mesmo verificar.
 Transps a porta de comunicao e voltou logo a
seguir, a acenar com a cabea.
 - Tinha razo - murmurou. - Deve perdoar as
manias de um velho... - Fechou a porta de comunicao e
sentou-se no seu lugar, no canto da direita.
 As horas passavam. Os trs homens dormitavam e
acordavam em sobressalto. Provavelmente nunca trs
pessoas tinham reservado camas no comboio mais luxuoso do
mundo para depois se recusarem a beneficiar
das acomodaes pagas. De vez em quando Poirot
olhava o relgio, abanava a cabea e mergulhava de
novo numa desconfortvel sonolncia. A certa altura,
levantou-se, abriu a porta de comunicao, espreitou
para o compartimento contguo e regressou em seguida ao seu
lugar, a abanar a cabea.
 - Que se passa? - perguntou-lhe Knighton, baixinho. - Est 
espera que acontea qualquer coisa,
no est?
 - Estou nervoso - confessou o detective. - Sou
como um gato num telhado quente; qualquer rudo
me assusta.
 - Que viagem desconfortvel! - resmungou
Knighton, entre bocejos. - Espero que saiba o que
est a fazer, Monsieur Poirot.
 Ajeitou-se o melhor que pde e tanto ele como o milionrio caram no sono. De sbito, Poirot olhou pela 
dcima quarta vez para o relgio, estendeu o brao e
bateu no ombro do milionrio.
 - Que ?
 - Chegaremos a Lyon daqui a cinco ou dez minutos, Monsieur.
 - Meu Deus! - exclamou Van Aldin, cujo rosto
parecia lvido  luz fraca do compartimento. - Ento
deve ter sido mais ou menos a esta hora que a minha
pobre Ruth foi assassinada.
 Olhava a direito na sua frente, com os lbios a tremer e o
crebro a recordar a terrvel tragdia que enlutara a sua
vida.
 Ouviu-se o habitual ranger de traves, o comboio
perdeu velocidade e parou em Lyon. Van Aldin desceu a janela e
olhou para fora.
 - Se no foi Derek, se a sua nova teoria est certa, deve
ter sido aqui que o homem abandonou o comboio? - perguntou,
por cima do ombro.
 Com surpresa sua, Poirot abanou a cabea e respondeu,
pensativo:
 - No, nenhum homem abandonou o comboio.
Mas penso... sim, uma mulher deve t-lo abandonado.
 Knighton abriu a boca e o americano perguntou,
vivamente:
 - Uma mulher?
 - Sim, uma mulher. Talvez no se lembre, mas
Miss Grey, ao prestar declaraes, mencionou que um
jovem de bon e sobretudo desceu para o cais, ostensivamente
para desentorpecer as pernas. Na minha opinio, esse homem era
uma mulher.

 - Mas quem?
 O rosto de Van Aldin traduzia incredulidade, mas
o detective respondeu-lhe, sria e categoricamente:
 - O seu nome - ou o nome pelo qual foi conhecida durante
muitos anos -  Kitty Kidd, mas o senhor conhece-a por outro
nome: o de Ada Mason.
 Knighton levantou-se e gritou:
 - O qu?
 Poirot virou-se para ele, tirou qualquer coisa da algibeira
e estendeu-lha:
 - Antes que me esquea... Permita que lhe oferea um
cigarro, da sua prpria cigarreira. Foi descuido
da sua parte deix-la cair quando entrou no comboio
na ceinture de Paris.
 Knighton fitou-o, petrificado, depois esboou um
movimento, mas Poirot estendeu a mo, num gesto de
advertncia:
 - No se mexa - ordenou, em voz macia como
seda. - A porta que d para o prximo compartimento est
aberta e neste momento o senhor encontra-se
sob a ameaa das armas. Abri a porta do corredor,
quando deixmos Paris, e os nossos amigos da Polcia
receberam ordem para ocupar os seus lugares... Como
deve saber, a Polcia francesa tem um empenho enorme em
apanh-lo, major Knighton... ou deverei dizer
senhor Marqus?



XXXV

EXPLICAES


 - Explicaes? - perguntou Poirot, a sorrir.
 Estava sentado defronte do milionrio,  mesa do almoo, nos aposentos daquele no Negresco. O 
milionrio tinha
agora o ar de um homem intrigado, mas
aliviado. O detective recostou-se na cadeira, acendeu
um dos seus cigarros e olhou para o tecto.
 - Sim, dar-lhe-ei explicaes... Comeou com o
pormenor que me intrigou... Sabe de que pormenor
falo? O rosto desfigurado.  uma caracterstica que no
 raro encontrar-se quando se investiga um crime e
suscita uma pergunta imediata: a identidade? Foi,
naturalmente, a primeira coisa que me ocorreu. A morta
seria, de facto, Mistress Kettering? Mas o testemunho
de Miss Grey foi positivo, nesse aspecto, e merecedor
de toda a confiana, e por isso abandonei a ideia. A vtima
era Ruth Kettering.
 - Quando comeou a suspeitar da criada?
 - Demorei algum tempo, confesso, mas determinado pormenor
peculiar chamou a minha ateno para
ela: a cigarreira encontrada na carruagem e que ela nos
disse ter sido dada por Mistress Kettering ao marido.
Ora essa ddiva pareceu-me muito improvvel, em virtude dos
termos em que o casal vivia, e tanto bastou
para que no meu esprito surgisse uma dvida quanto
 veracidade de todas as declaraes de Ada Mason.
Havia ainda o facto suspeito e de tomar em considerao de se
encontrar apenas h dois meses ao servio de
sua filha. Claro que parecia impossvel que estivesse
relacionada com o crime, pois ficara em Paris e Mistress
Kettering fora vista por diversas pessoas, depois
disso...
 Poirot inclinou-se para a frente, agitou enfaticamente
um indicador na cara do milionrio e prosseguiu:
 - Mas eu sou um bom detective e, como tal, suspeito. No h
nada nem ningum de que no suspeite,
no acredito em nada do que me dizem e perguntei a
mim mesmo: "Como sabemos que Ada Mason ficou
em Paris? Ao princpio a resposta pareceu-me satisfatria:
havia as declaraes do seu secretrio, pessoa
absolutamente alheia ao caso, cujo testemunho era de
supor que fosse imparcial em absoluto, e havia tambm as
palavras da prpria morta ao condutor. Resolvi, no entanto,
pr de lado o ltimo pormenor, pois comeava a ganhar forma no meu esprito uma ideia muito curiosa, uma 
ideia talvez fantstica e impossvel. Se,
por uma sorte inesperada, fosse verdadeira, o
 referido depoimento no valia nada.
 Concentrei toda a minha ateno no maior obstculo  minha
teoria: a afirmao do major Knighton
 de que vira Ada Mason no Ritz, depois de o Comboio
 Azul ter deixado Paris. A afirmao parecia conclusiva, mas,
ao examinar cuidadosamente os factos, notei
 duas coisas: primeira, que por curiosa coincidncia ele
 tambm estava exactamente h dois meses ao servio;
 segunda, que a inicial do seu nome era igualmente
 uK. E se fosse a cigarreira dele que aparecera na
carruagem? Se Ada e ele trabalhassem juntos e ela reconhecesse a cigarreira do cmplice quando lha 
mostrmos, no procederia precisamente como procedeu?
Primeiro mostrou-se surpreendida, mas depressa arranjou uma
explicao plausvel, com o mrito de se
coadunar com a teoria de que Mister Kettering era o
 assassino. Bien entendu, no era essa a ideia original.
 O bode expiatrio previsto era o conde de la Roche
 embora Mason no mostrasse muita certeza no seu
reconhecimento, no fosse o indivduo ter um libi
irrebatvel. Agora, se recuar mentalmente a essa altura,
recordar uma coisa significativa, que ento aconteceu. Sugeri
a Ada Mason que o homem que vira no
era o conde de la Roche, mas Derek Kettering. Ela
pareceu incerta, no momento, mas depois de eu voltar
para o meu hotel o senhor telefonou-me e informou-me de que a
Mason o procurara e dissera que, aps
reflectir, se convencera de que o homem em questo
era Mister Kettering. Eu j esperava mais ou menos
isso. S podia haver uma explicao para a sbita certeza da
sua parte: tivera tempo de consultar algum e
recebera instrues acerca do procedimento a seguir.
Quem lhe deu essas instrues? O major Knighton.
 Havia ainda outro pequeno pormenor que podia
querer dizer muito ou no querer dizer nada. Numa
conversa casual, Knighton falara de um roubo de jias
verificado no Yorkshire, numa casa em que se encontrava.
Talvez fosse uma simples coincidncia... ou talvez outro elo
na cadeia.
 - H uma coisa que no percebo, Monsieur Poirot. Devo ser
estpido, com certeza... Quem foi o homem com o qual minha
filha falou em Paris? Derek
Kettering ou o conde de la Roche?
 - A  que reside a beleza e a simplicidade do plano! No
houve homem nenhum! Milde tonnerres! No v
a astcia de todo o caso? Quem nos disse ter havido
um homem? Ada Mason, apenas. E ns acreditmo-la porque
Knighton testemunhou que ela ficara em
Paris.
 - Mas a prpria Ruth disse ao condutor que deixara a criada
na capital - teimou Van Aldin.
 - J l vamos, j l vamos. Temos o testemunho
da prpria Mistress Kettering, mas, pensando bem,
no temos, pois, Monsieur Van Aldin, uma mulher
morta no pode testemunhar. No  o testemunho dela
que temos, mas o do condutor do comboio, o que 
muito diferente.
 - Pensa, ento, que o homem mentiu?
 - De maneira nenhuma. Disse o que julgava ser
a verdade. Mas a mulher que lhe disse que deixara a
criada em Paris no era Mistress Kettering!
 Van Aldin fitava-o, boquiaberto, e Poirot prosseguiu:
 - Monsieur Van Aldin, Ruth Kettering foi morta
antes de o comboio chegar  Gare de Lyon. Foi Ada
Mason, vestida com as roupas caractersticas da ama,
quem comprou um cesto com o jantar e quem fez a tal
declarao importante ao condutor.
 - Impossvel!
 - No, Mister Van Aldin, no  impossvel. Les
femmes parecem-se tanto umas com as outras, hoje em
dia, que as identificamos mais pelas roupas que ves tem do
que pelo rosto. Ada era da mesma altura da
 sua filha e, com o sumptuoso casaco de peles, o chape linho
encarnado puxado para os olhos e apenas um
 band de cabelos ruivos a aparecer junto de cada ore lha,
no admira que o condutor se deixasse iludir.
 Lembre-se de que nunca falara com Mistress Kettering.
  certo que vira a criada, quando esta lhe entregara os
 bilhetes, mas a impresso que colhera fora apenas a de
 uma mulher magra, vestida de preto. Se fosse um homem
invulgarmente inteligente, talvez dissesse que a
 ama e a serva eram parecidas, mas  muito pouco provvel que
o tivesse pensado, sequer. No esquea que
 Ada Mason, ou Kitty Kidd,  uma actriz, capaz de
 mudar de aspecto e de tom de voz do p para a mo.
 No, no havia perigo de ele perceber que falava com
 a criada vestida com a roupa da patroa, mas havia o
perigo de que, ao descobrir o corpo, compreendesse que no se tratava da mesma mulher com a qual 
falara nanoite anterior. Est a ver a razo do rosto desfigurado. O
maior risco que Ada Mason correu foi a possibilidade de
Katherine Grey visitar o seu compartimento
 ,
depois de o comboio deixar Paris, e para o evitar comprou o
cesto do jantar e fechou-se.
 - Mas quem matou Ruth... e quando?
 - Primeiro, fixe que o crime foi planeado e executado pelos
dois, Knighton e Ada Mason, a trabalharem de cumplicidade. No
dia fatal Knighton foi a Paris, tratar de assuntos do senhor,
e entrou no comboio
na ceinture. Mistress Kettering deve ter ficado surpreendida,
mas no suspeitou de nada. Talvez ele lhe
chamasse a ateno para qualquer coisa, fora da janela, e
quando ela se voltou para ver lhe tivesse passado
a corda pelo pescoo. Um segundo ou dois, e tudo
acabou. A porta do compartimento estava fechada e os
dois cmplices deitaram-se ao trabalho. Despiram as
roupas exteriores da morta, enrolaram o corpo numa
manta e levaram-no para o banco do compartimento
contguo, entre malas e bagagens. Knighton abandonou ento o
comboio, levando o guarda-jias, com os
rubis. Como tudo indicar que o crime s foi cometido
cerca de doze horas mais tarde, sente-se em absoluta
segurana. O seu prprio depoimento e as supostas
palavras de Mistress Kettering ao condutor proporcionaro 
cmplice um libi perfeito.
 Na Gare de Lyon, Ada Mason comprou um cesto
com o jantar, fechou-se no compartimento, vestiu a
roupa da ama, ajustou dois falsos bands ruivos e
caracterizou-se de maneira a parecer-se o mais possvel
com ela. Quando o condutor foi preparar as camas,
disse-lhe, como estava combinado, que deixara a criada em
Paris e, enquanto o homem trabalhava, sentou-se com o rosto
voltado para a janela, de maneira a que
quem passasse no corredor a visse de costas. Foi uma
precauo inteligente, pois, como sabemos, Miss Grey
foi uma das pessoas que passaram e que juraria estar
ainda Mistress Kettering viva a essa hora.
 - Continue - pediu Van Aldin.
 - Antes de chegar a Lyon, Ada Mason deitou o
corpo da ama na cama, dobrou-lhe cuidadosamente as
roupas, que arrumou aos ps da mesma, disfarou-se
de homem e preparou-se para abandonar o comboio.
Quando Derek Kettering entrou no compartimento da
mulher e julgou v-la a dormir tranquilamente, presenciava
apenas um cenrio e Ada Mason encontrava-se no compartimento
contguo,  espera de oportunidade para sair do comboio sem
ser notada. Assim que
o condutor saltou para o cais, em Lyon, imitou-o, como se
fosse apenas tomar ar. Num momento em que
ningum a observava, conseguiu atravessar para o outro cais,
meter-se no primeiro comboio e ir instalar-se
no Ritz, onde uma das cmplices femininas de Knighton a
registara na vspera. S lhe restava aguardar placidamente a
sua chegada. As jias no estavam, nem
nunca estiveram em seu poder, mas no de Knighton,
sobre o qual no recaam quaisquer suspeitas. Levou-as para
Nice sem ter medo de ser descoberto, a fim

 de serem entregues a Monsieur Papopolous, como fora combinado. No ltimo momento foram confiadas a 
Mason, que as entregou ao grego. Portanto, um plano
 minucioso e inteligente, como seria de esperar de um perito na matria, como o Marqus.
 -  ento verdade que Richard Knighton  um
 criminoso conhecido, que trilha h anos a senda do crime?
 Poirot acenou afirmativamente.
 - Um dos principais motivos de agrado do cavalheiro conhecido pelo Marqus eram as suas maneiras
simpticas e insinuantes... o senhor foi vtima do seu
encanto, Monsieur Van Aldin, quando o contratou para
secretrio aps um conhecimento to breve.
 - Juraria que ele nunca pensara em candidatar-se
ao lugar - replicou o milionrio.
 - Foi tudo feito com muita astcia, tanta que iludiu um
homem cujo conhecimento dos outros homens
 to grande como o seu.
 - Alm disso, averiguei os seus antecedentes. As
referncias foram excelentes.
 - Sim, isso fazia parte do jogo. Como Richard
Knighton, a sua vida era isenta de mcula. Bem-nascido, bem
relacionado, servios honrosos na guerra e
aparentemente acima de toda a suspeita. Mas quando
comecei a procurar informaes acerca do Marqus
encontrei muitos pontos semelhantes. Knighton falava
francs como um francs e estivera na Amrica, em
Frana e na Inglaterra ao mesmo tempo que o Marqus operara
nesses pases. As ltimas notcias conhecidas do Marqus
relacionavam-no com vrios roubos
de jias na Sua, e foi na Sua que o senhor conheceu o
major Knighton - e foi precisamente nessa altura que comearam
a correr boatos de que o senhor
estava em negociaes para a compra dos famosos
rubis.
 - Mas porque a assassinou? - murmurou o americano. - Um gatuno inteligente podia ter-se apoderado das 
jias sem enfiar a cabea num n corredio.
 - Este no foi o primeiro assassnio do Marqus.
 um assassino por instinto e acredita na convenincia de no deixar provas atrs de si. Homens mortos e 
mulheres mortas no falam. O Marqus tinha uma paixo intensa por jias famosas e histricas. Comeou
por instalar-se como seu secretrio e conseguir que a cmplice se empregasse como criada de sua filha, a 
quem supunha que as pedras se destinavam. Embora
fosse esse o seu plano cuidadosamente amadurecido,
no lhe repugnou tentar encurtar caminho e, para isso,
contratou dois celerados, que encarregou de o
assaltarem na noite em que comprou os rubis. O improviso
falhou, o que, suponho, no o surpreendeu.
O plano primitivo era absolutamente seguro; ningum
suspeitaria de Richard Knighton. Mas, como todos os
grandes homens, sim, porque o Marqus era um grande homem,
tinha as suas fraquezas. Apaixonou-se sinceramente por Miss
Grey e, suspeitando das simpatias
desta por Derek Kettering no resistiu  tentao de
lhe atirar com o crime para as costas, quando a oportunidade
se lhe apresentou. Agora, Monsieur Van Aldin,
vou dizer-lhe uma coisa muito importante: Miss Grey
no  uma mulher dada a fantasias, mas cr firmemente que
sentiu a presena de sua filha ao seu lado, um
dia nos jardins do Casino de Monte Carlo, logo a seguir a uma
longa conversa que tivera com Knighton.
Ficou convencida, garante, de que a morta tentava ansiosamente
dizer-lhe que Knighton fora o seu assassino! Na altura a ideia
pareceu-lhe to fantstica que
no a revelou a ningum, mas, to grande era a sua
convico da presena de Mistress Kettering que tentou
proceder de acordo com ela. No desencorajou os
sentimentos de Knighton e fingiu-se convencida da
culpabilidade de Derek Kettering.
 - Extraordinrio!
 - Sim,  muito estranho. No podemos explicar
estas coisas. A propsito, houve ainda um pormenor
que muito me intrigou. O seu secretrio coxeava bastante, como
consequncia de um ferimento de guerra,
 mas o Marqus no coxeava. Parecia-me um obstculo
 inamovvel, mas Miss Lenox Tamplin disse-me um dia
 que o coxear de Knighton constitura uma surpresa
 para o cirurgio que o tratara no hospital da me. Tu do
indicava, portanto, haver disfarce. Quando estive
 em Londres procurei o referido cirurgio, o qual me
 forneceu alguns dados tcnicos que confirmaram essa
 suspeita. Anteontem mencionei o nome do mdico, na
presena do seu secretrio, e embora fosse natural que
Knighton dissesse haver sido tratado por ele, durante
a guerra, no disse nada. Esse pormenor convenceu-me ainda
mais de que a minha teoria estava certa.
Alm disso, Miss Grey deu-me um recorte de jornal
onde se lia ter havido um roubo no hospital de guerra
de Lady Tamplin, precisamente no perodo em que
Knighton l esteve internado... Compreendeu que seguia a
mesma pista que ela quando lhe escrevi do Ritz
de Paris. Foi l que, embora com dificuldade, obtive
provas de que Ada Mason chegou na manh seguinte
ao crime, e no na noite da vspera.
 Aps um longo silncio, o milionrio estendeu a
mo ao detective.
 - Deve avaliar o que isso significa para mim,
Monsieur Poirot - murmurou comovido. - Amanh
mandar-lhe-ei um cheque, mas no h no mundo cheque capaz de
exprimir o que sinto pelo que fez por
mim. O senhor  formidvel, Monsieur Poirot,  formidvel!
 Poirot levantou-se, com o peito dilatado, e redarguiu,
modesto:
 - Sou apenas Hercule Poirot... No entanto, como
o senhor mesmo disse,  minha maneira sou um grande homem.
Sinto-me satisfeito e feliz por ter podido
ser-lhe til. Agora vou reparar os estragos da viagem... Ai de
mim, o meu excelente George no est
comigo!
 No vestbulo do hotel encontrou dois amigos -- o venervel
Monsieur Papopolous e a filha, Zia.
 - Julguei que tinha partido de Nice, Monsieur
Poirot - murmurou o grego, apertando a mo estendida do
detective.
 - Os negcios compeliram-me a voltar, meu caro
Monsieur Papopolous.
 - Os negcios?
 - Sim, os negcios. Por falar nisso, espero que a
sua sade esteja melhor, meu caro amigo?
 - Muito melhor. Na realidade, regressamos amanh a Paris.
 - Estou encantado por ouvir to boas notcias.
Espero que no tenha arruinado completamente o ex-ministro
grego...
 - Eu?
 - Ouvi dizer que lhe vendeu um maravilhoso rubi
que, aqui entre ns, anda ao pescoo de Mademoiselle
Mirelle, a bailarina.
 - Sim,  verdade...
 - Um rubi parecido com o famoso Corao de
Fogo. . .
 - Tem, sem dvida, pontos de semelhana -- concordou o grego
em tom casual.
 - Felicito-o pela sua extraordinria habilidade para
negociar jias, Monsieur Papopolous. - Voltou-se
para a rapariga e acrescentou: - Desola-me que parta
to depressa, Mademoiselle Zia; esperava v-la mais
vezes, agora que conclu o meu negcio.
 - Seria indiscrio perguntar de que negcio se
tratou? - indagou o antiqurio.
 - De maneira nenhuma! Consegui apanhar o
Marqus!
 O nobre semblante de Monsieur Papopolous franziu-se numa
interrogao.
 - O Marqus?... Porque me parecer esse nome
familiar? Mas no, no me lembro de quem se trata.
 - Oh,  natural! Refiro-me a um famoso criminoso e ladro de
jias. Acaba de ser preso pelo assassnio
da senhora inglesa, Madame Kettering.

 - Deveras? Que interessante!
 Seguiu-se uma delicada troca de despedidas e
quando Poirot se afastou, Mr. Papopolous disse  filha:
 - Aquele homem  o demnio!
 - Gosto dele.
 - Tambm eu - admitiu o grego. - Mas nem
por isso deixa de ser o demnio!



XXXVI

  BEIRA-MrlR


 As mimosas estavam no fim e o seu perfume tornara-se levemente desagradvel. Gernios vermelhos 
enfeitavam a balaustrada da vila de Lady Tamplin e enormes quantidades de cravos perfumavam o ar.
 O Mediterrneo nunca parecera to azul. Poirot encontrava-se
no terrao com Lenox, a quem acabava de
 contar a mesma histria que contara a Van Aldin, dois
dias antes.
 A jovem escutara-o com apaixonada ateno, de sobrancelhas
franzidas e olhos sombrios, e quando ele
acabou perguntou-lhe:
 - E Derek?
 - Foi solto ontem.
 - Para onde foi?
 - Partiu de Nice a noite passada.
 - Para Saint Mary Mead?
 - Sim, para Saint Mary Mead.
 Pausa.
 - Estava enganada acerca de Katherine - disse
por fim Lenox. - Julgava que no gostava dele.
 -  muito reservada, no confia em ningum.
 - Podia ter confiado em mim - redarguiu Lenox, com certo
azedume.
 - Sim, podia ter confiado em si - concordou o
detective, gravemente. - Mas Mademoiselle Katherine passou
grande parte da sua vida a ouvir os outros, e
aqueles que esto habituados a ouvir no acham fcil
falar. Guardam para si alegrias e tristezas, no as contam a
ningum.
 - Fui uma idiota! Julguei que ela gostava realmente de
Knighton... Convenci-me disso porque...
porque esperava que fosse verdade.
 Poirot pegou-lhe na mo e apertou-lha amigavelmente.
 - Coragem, mademoiselle - murmurou, baixinho.
 Lenox olhou para o mar e o seu rosto, na sua feia
rigidez, adquiriu por momentos uma trgica beleza.
 - Bem, de qualquer maneira no daria resultado!
Sou muito nova para o Derek, que  como uma criana que nunca
cresceu. Precisa do toque de madonna...
 Aps um longo silncio, voltou-se impulsivamente
para o detective e afirmou:
 - Mas eu ajudei, Monsieur Poirot, pelo menos
ajudei!
 - Com certeza! Foi a mademoiselle que me permitiu o primeiro
vislumbre da verdade, quando disse que
a pessoa que cometeu o crime no precisava de ter viajado no
comboio. Antes disso, no conseguia perceber
como o caso se passara.
 - Ainda bem! - exclamou Lenox, respirando
fundo. - Pelo menos... j  alguma coisa.
 De muito longe chegou um apito prolongado.
 - L est o maldito Comboio Azul! Os comboios
so coisas implacveis, no so, Monsieur Poirot?
Morrem pessoas dentro deles, mas continuam o seu
caminho, como se nada tivesse acontecido... Estou a
dizer tolices, mas o senhor sabe o que quero dizer.
 - A vida  como um comboio, mademoiselle. Segue o seu
caminho... E ainda bem!
 - Porqu?

 - Porque o comboio acaba por chegar ao fim da
viagem, e a esse respeito h um provrbio interessante
na sua lngua, mademoiselle.
 - A viagem acaba com o encontro dos amantescitou Lenox,
a rir. - Para mim no ser verdade.
 - H-de ser verdade!  jovem, mais jovem do que
imagina. Confie no comboio, mademoiselle, pois  le
bon Dieu que o conduz.
 O apito soou de novo.
 - Confie no comboio, mademoiselle - repetiu. -- E confie em
Hercule Poirot. Ele sabe!

O Autor e a Obra

 Agatha Christie, romancista e autora dramtica inglesa, de
seu nome completo, Agatha Mary Clarissa
Miller Christie, nasceu em Torquay, a 15 de Setembro
de 1891. Filha de me inglesa e pai americano fez os
seus estudos em casa, educada por professores.
 Durante a Primeira Guerra Mundial alistou-se na
Cruz Vermelha para acompanhar o seu primeiro marido, o coronel
Archibald Christie, de quem tomou o
clebre apelido, que manteve apesar da separao em
1926. A sua experincia com venenos nos hospitais onde
trabalhou est na origem do profundo conhecimento sobre a
matria, utilizado em muitos dos seus romances. Foi nesta
poca que escreveu A Primeira
Investigao de Poirot (1920), com que deu incio  sua
longa e brilhante carreira de escritora de livros policiais.
Coincidiu a obra com a apresentao da personagem Hercule Poirot, o detective belga que se tornaria 
quase to conhecido como a sua autora e que na resoluo dos
enigmas policiais ser concorrente da amvel
Miss Jane Marple, a personagem favorita de Agatha
Christie.
 Depois do segundo casamento, em 1930, com o arquelogo Max
Mallowan, a escritora, apaixonada por
viagens, passou a dividir o tempo entre a estruturao dos
crimes e as escavaes arqueolgicas.
 Clebre, desde a publicao em 1926 de O Assassinato de
Roger Ackroyd, Agatha Christie manteve ao longo da sua vasta obra - mais de oitenta volumes as 
caractersticas que identificariam o seu estilo: a investigao racional e a psicologia; o mistrio denso e a
variedade de personagens e ambientes; o emaranhado de indcios e a soluo imprevista.
 Os seus livros encontram-se traduzidos em cerca de cem lnguas e os exemplares vendidos ascendem s 
centenas de milho. No entanto, no foram s os livros
policiais a proporcionar-lhe a admirao do pblico, pois
Agatha Christie tambm  autora de peas de teatro - refere-se A Ratoeira (1951), mantida em cena 
durante vinte e cinco anos -, histrias para crianas e
romances psicolgicos publicados sob o pseudnimo
de Mary Westmacott.
 Membro da Real Sociedade de Literatura e distinguida com um
grau honorfico em Letras, atribudo
pela Universidade de Exeter, recebeu, em 1956, o ttulo de
Dama do Imprio Britnico, pelo conjunto da sua obra.
 Agatha Christie morreu em VG'allingforg, Oxford, a 12 de Janeiro de 1976.

FICO POLICIRIA DE AGATHA CHRISTIE
TITULO ORIGINAL TRADUO PORTUGUESA

TTULO ORIGINAL TRADUO PORTUGUESA
The Mysterious Affair at Styles
The Secret Adversary
Murder on the Links
The Man in the Brown Suit
The Secret of Chimneys
Poirot Investigates
Ther Murder of Roger Ackroyd
The Big Four
Tke Mistery of the Blue Train
The Thirteen Problems
Partners n Crime
The Seven Dials Memory
The Murder at the Vicariage
The Sittaford Mistery
Peri1 at End House
Parker Pyme Investigates
Lord Edgware Dies
The Hound of Death
Murder on the Orient Express
Why Did't They Ask Evans?
The Mistery of Listerdale
Three Act Tragedy
The ABC Murders
Death in the Clouds
Murder in Mesopotamia
Cards on the Table
Death on the Nile
Dumb Witness
Murder in the Mews
Appointment with Death
Hercule Poirot's Christmas
Murder is Easy
Ten Little Niggers

1920 A Primeira Investigao de Poirot
1922 0 Adversrio Secreto
1923 Poirot,0 Golfe e o Crime
1924 O Homem do Fato Castanho
1925 0 Segredo de Chimneys
1925 Poirot Investiga
1926 O Assassinato de Roger Ackroyd
1927 As Quatro Potncias do Mal
1928 O Mistrio do Comboio Azul
1928 Os Treze Problemas
1929 0 Homem Que Era o N.016
1929 0 Mistrio dos Sete Relgios
1930 Encontro com Um Assassino
1930 0 Mistrio de Sittaford
1931 A Diablica Casa Isolada
1932 Parker Pyme Investiga
1933 A Morte de Lord Edgware
1933 Testemunha de Acusao
1933 Um Crime no Expresso do Oriente
1933 Perguntem a Evans
1934 0 Mistrio de Listerdale
1934 Tragdia em Trs Actos
1935 Os Crimes do ABC
1935 Morte nas Nuvens
1935 Assassinio na Mesopotmia
1936 Cartas na Mesa
1937 Morte no Nilo
1937 Poirot Perde Uma Cliente
1937 Crime nos Estbulos
1938 Morte entre as Ruinas
1938 0 Natal de Poirot
1938 Matar  Fcil
1939 Convite para a Morte

aa (.ypess
 The Regata Mistery
 The Labours of Hercules
One Two, Buckle My Shoe
Evil Under the Sun
N or M
The Body fn the Library
Five Little Pigs
The Moving Ffnger
Toward Zero
Sparkling Cyanide
Death Comes as the End
The Hollow
Taken at the Flood
Crooked House
A Murder is Announced
They Came to Baghdad
Three Blind Mice e (The Rouse trap)
Mrs McGinty's Dead
They Do it with Mirrors
After the Funeral
A Pocket Ful1 of Rye
Destination Unknown
Hickory, Dickory Dock
Dead Man's Folly
The Mysterious Mr. Quin
4.50 from Paddington
Ordeal by Innocense
Cat Among the Pigeons
The Adventure of the
 Christmas Pudding
The Pale Horse
The Mirror Crak'd from Side
 to Stde
The Clocks
A Caribbean Mistery
At Bertram's Hotel
Third Girl
Endless Night
By the Pricking of My Thumbs
Hallowe'en Party
Passenger to Frankfurt
Nemesis
Elephants Can Remember
Postern of Fate
Poirol's Early Cases
Curtain. Poirot's Last Case

Sleeping Murder
Miss Marple's Final Cases

1939 Poirot Salva o CrIminoso
1939 O Mistrio da Regata
1939 Os Trabalhos de Hrcules
1940 Os Crimes PatrIticos
1940 As Frias de Poirot
1941 Tempo de Espionagem
1941 Um Cadver na Biblioteca
1941 Poirot Desvenda o Passado
1942 O Enigma das Cartas Annimas
1944 Contagem at Zero
1944 A SazIde da... Morte
1945 Mower No  o Fim
1946 Poirot o Teatro e a Morte
1948 Arrastados na Torrente
1948 A ltima Razo do Crime
1950 Participa-se Um Crime
1951 Encontro em Bagdad
1951 A Ratoeira

1951 Poirot Contra a Evidncia
1952 J'ogo de Espelhos
1953 Os Abutres
1953 Centeio Que Mata
1954 Destino Desconhecido
1955 Poirot e os Erros da Dactilgrafa
1956 Poirot e o Jogo Macabro
1957 O Misterioso Mr. Quin
1957 O Estranho Caso da Velha Curiosa
1958 Cabo da Vbora
1959 Poirot e as Jias do Principe
1960 A Aventura do Pudim de Natal
1961 O Cavalo Plido
1962 O Espelho Quebrado
1963 Poirot e os 4 Relgios
1964 Mistrio nas Carabas
1965 Mistrio em Hotel de Luxo
1966 Poirot e a Terceira Inquiltna
1967 Noite sem Fim
1968 Caminho para a Morte
1969 Poirot e o Encontro ,'uvenil
1970 Passageiro para Francoforte
1971 Nemesis
1972 Os Elefantes No Esquecem
1973 Morte Pela Porta das Traseiras
1974 Ninho de Vespas
1975 Cai o Pano (O ltimo Caso de Poirot)
1976 Crime Adormecido
1979 Os Ultimos Casos de Miss Marple

FIM DO LIVRO.
